Priscila Tossan
Foto: Divulgação
 

Se você conhece a história e a cultura do Rio de Janeiro, é grande a chance de que já tenha ouvido falar do Cine Odeon. Localizado na Cinelândia, na área central da capital carioca, o edifício existe desde 1926. Após quase um século, várias restaurações e alguns perrengues, o cinema segue firme e forte como um simbólico elemento da cultura da cidade.

Em referência ao cinema, o compositor Ernesto Nazareth compôs uma canção chamada justamente de “Odeon“. Passadas várias décadas, uma nova voz resolveu citar o cinema em versos musicais. Estamos falando de Priscila Tossan, que acaba de lançar o EP Cine Odeon.

Priscila, agora no cast da Universal Music, tem uma carreira musical relativamente curta, mas já fez mais do que a maioria dos artistas jovens. Já chamou atenção pelas linhas de metrô do Rio de Janeiro, no The Voice Brasil de 2018 e até mesmo no Palco Sunset do Rock in Rio, quando participou da apresentação conjunta de Silva e Lulu Santos.

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“Eu me cobro muito”

Tivemos a oportunidade de conversar com Priscila por telefone. A cantora conversou conosco sobre a nova fase, sobre a experiência de cantar nos vagões do metrô e sobre a magia do Rio de Janeiro.

Confira abaixo:

 

TMDQA!: Você comentou que esse EP te trouxe mais maturidade e que foi um processo difícil chegar a ele, como um parto. Quais foram essas dificuldades?

Priscila Tossan: Foi um lançamento muito doloroso. Eu me cobro muito e sou muito exigente comigo mesma. Ao mesmo tempo, foi um processo de muita alegria e de muito aprendizado, porque reparei em coisas que às vezes estavam perto, mas que eu não tinha sacado ainda. Cada detalhe da experiência do estúdio me ensinou muito!

TMDQA!: Analisando os seus dois EPs, fica claro que o Cine Odeon é um trabalho mais de time. Ao mesmo tempo que você já se comprovou como uma grande intérprete (o que ficou nacionalmente claro na sua participação no The Voice), você também é uma ótima compositora. Como é conciliar esses dois lados?

Priscila: Eu acho tranquilo. É uma responsabilidade maior quando a gente canta canções de outro. É preciso fazer jus à ideia original. Eu até me sinto mais à vontade cantando músicas de outros artistas do que as minhas. Fico pensando “Será que isso está agradando?”, “Será que este é o caminho?”…

TMDQA!: O metrô do Rio nos apresenta a artistas maravilhosos das mais diversas manifestações artísticas: poesia, dança e, é claro, música. E ver uma pessoa talentosa como você conquistar o palco do Rock In Rio faz a gente pensar nos vários grandes artistas que talvez não tenham a visibilidade que mereçam.

Priscila: São situações bem diferentes. No metrô, você está ali, à mercê do que a galera vai pensar. Quando você está com uma gravadora, ela te dá todo um alicerce. Antes do metrô, eu fazia alguns saraus e aquilo fazia com que eu me sentisse completa. Mas eu sinto falta do metrô. Ele me enriqueceu muito! Foi uma fuga de conseguir grana, em um momento de muito sufoco.

 

“Me sinto abençoada por isso”

TMDQA!: Você acha que existe alguma alternativa para que esses artistas incríveis que se apresentam diariamente no metrô consigam maior visibilidade?

Priscila: Acho que é uma questão de busca. Mas nem todo mundo vai conseguir aparecer e alcançar o que eu estou alcançando. É um pouco louco pensar isso. Tem gente que aparece depois de muito tempo, com foi o caso do Cartola. Comigo foi tudo muito rápido, e me sinto abençoada por isso. Tudo isso aconteceu de três anos para cá: o The Voice, o Rock In Rio, lançamentos e shows.

TMDQA!: A experiência do metrô, tocando para pessoas desconhecidas todos os dias, ajudou a administrar a sua timidez?

Priscila: Quebrou nada! O frio na barriga ainda está aqui. Tanto que quando eu cantava no metrô, com o meu amigo Salomão Elias, era ele que tinha o diálogo com o público. Eu só cantava e passava o chapéu (risos). Acho que isso da timidez não vai mudar. É algo que vem da minha mãe e do meu pai que acabei absorvendo para mim. Mas tenho que encarar o público e cantar!

 

“Existe uma mágica [no Rio de Janeiro]”

TMDQA!: O Rio, por sinal, tem um papel importantíssimo na história da música brasileira. A capa traz isso ao retratar uma praia. Como você vê a “carioquice” na sua identidade musical e na sua vida, como um todo?

Priscila: Isso faz muito parte de quem eu sou. Sinto saudades de andar de skate na orla no domingo. O Rio me faz muito completa. A própria capa do disco reflete isso. Me deixou tão feliz quanto as canções.

TMDQA!: Por falar na capa, acho que ela é um elemento que resume bem, de certa forma, a musicalidade do EP. Tudo no Cine Odeon é muito carioca.

Priscila: Eu canto com um sotaque bem pesado. E o Rio vende, né (risos). Não necessariamente em termos de grana, mas existe uma mágica. Essa nossa coisa “largadona”, que não exige muito glamour… Isso está na sonoridade também.

TMDQA!: O EP tem a coisa do suingue muito marcante na soul music brasileira e também traz elementos de MPB e R&B. Já tem pessoas comparando o Cine Odeon a nomes como Sandra de Sá e Tim Maia. Como foi desenvolver essa sonoridade? Quais são as suas maiores inspirações?

Priscila: Não sei dizer como desenvolvi isso (risos). Traz muito a questão do sentimento. Quando soube das comparações ao Tim e à Sandra, eu fiquei surpreendida. Meu olho encheu d’água na hora. Eu fico muito feliz com equipe da Universal, que me deixou muito à vontade para fazer as coisas que eu faço no dia a dia, como pedalar, andar de skate, pegar um surfe.

 

“Explorar o lado da esperança e do amor”

TMDQA!: O material foi gravado antes da quarentena, certo? Você consegue ver a atual situação dialogando de alguma maneira com a atual situação, através de um som leve e fluido?

Priscila: Eu não imaginava que esse som pudesse fazer tão bem aos outros nesse momento. Fico vendo os comentários da galera e fico emocionada. Eu achava que essa situação fosse passar logo. Ao mesmo tempo, sinto uma angústia, uma vontade de ir para a rua. O clipe traz isso, né? Mas acho que o Cine Odeon tem uma mensagem boa de esperança.

TMDQA!: Esse EP adianta algum material mais completo, como um álbum cheio? Você pode nos adiantar alguma coisa.

Priscila: Eu tenho umas músicas guardadas. Acho que vou tentar levar para uma onda mais dançante. Não gosto muito da palavra “pop”, mas quero algo mais no clima do Cine Odeon, sabe? Algo mais aberto, fluido e leve. Eu acho que já tem muita gente falando sobre problemas e críticas. Acho que a minha função é mais essa: trazer paradas que lembrem coisas que a gente fazia antes e tem vontade de fazer de novo. A ideia é explorar o lado da esperança e do amor.

TMDQA!: Alguma consideração final?

Priscila: Queria agradecer a todo mundo que está comigo nessa: [Alexandre] Kassin, Tó Brandileone, Ale Siqueira e toda a galera. E queria agradecer também à minha noiva, Gabriela Rocha, que sempre acreditou em mim e ficou do meu lado.

 
 
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