Planet Hemp - A Invasão do Sagaz Homem Fumaça
 

Adivinha doutor, quem tá de volta na praça? Planet Hemp, ex-quadrilha da fumaça!

Foi assim, com Marcelo D2 e um baita riff de guitarra, que a banda brasileira abriu o single “Ex-Quadrilha da Fumaça” para mostrar ao mundo uma nova fase repleta de elementos que culminaram no seu terceiro disco de estúdio, A Invasão do Sagaz Homem Fumaça.

Lançado em 2000, o disco é considerado por muitos como o melhor do grupo, e há diversos motivos para se concordar com isso.

Fazendo uma mistura certeira de Hip Hop, Punk e Hardcore em 15 faixas, há diversas nuances que fazem do álbum um marco histórico na música brasileira, e olha que nem estamos falando do fato dele ser o último da banda até agora.

Carreira e Sucesso do Planet Hemp

Logo com seu primeiro disco, Usuário (1995), a banda fez muito barulho por apresentar uma nova proposta ao rock brasileiro, bem como à sociedade.

A fusão de Rock e Rap ainda era novidade por aqui e quando feita com tamanha precisão, estava destinada a chamar a atenção positivamente. Além disso, o Planet Hemp foi o primeiro grupo do Rock Nacional nos Anos 90 a falar abertamente sobre uma causa específica e defender a descriminalização da maconha.

Hits como “Legalize Já” e “Dig Dig Dig (Hempa)” fizeram com que o disco vendesse 150 mil cópias e a banda se tornasse uma das principais do país, encaminhando o sucessor para continuar espalhando a mensagem e, claro, expandir sucesso e alcance.

Veio então Os Cães Ladram Mas A Caravana Não Para, de 1997, e novos sucessos como “Queimando Tudo”, “Adoled (The Ocean)” e cerca de 500 mil cópias vendidas, em um novo álbum que tinha grandes hits mas ainda não mostrava o auge da banda na arte de contar uma história completa e arquitetar um projeto como um todo.

Na turnê de divulgação do trabalho, em 09 de Novembro de 1997, os membros do Planet Hemp foram presos após um show em Brasília e o processo todo chamou bastante atenção tanto na época quanto anos depois, quando o juiz responsável por mandar a banda à cadeia foi afastado após acusações de receber propina de traficantes.

No meio de toda a convulsão interna da banda, que passou por dias difíceis ao ter CDs confiscados, apresentações proibidas pelo país, novas detenções e um movimento brutal da ala conservadora brasileira, veio uma breve pausa que inclusive serviu para que D2 explorasse novos ares com o disco Eu Tiro é Onda, sua estreia solo em 1998.

A Invasão do Sagaz Homem Fumaça

20 anos atrás, em 2000, o grupo resolveu apresentar novas faixas ao mundo e o fez através de A Invasão do Sagaz Homem Fumaça, seu terceiro álbum em toda carreira.

Houve quem achasse que após ser presa e sofrer tantas represálias a banda iria caminhar para outro lado e acalmar o discurso, mas o que vimos foi justamente o contrário e, para o bem ou para o mal, um retrato detalhado do que é a política brasileira até hoje em dia, infelizmente.

Em declaração exclusiva ao TMDQA!, Marcelo D2 relembrou a linha do tempo da banda até chegar em A Invasão…:

A gente começou a fazer o disco em 1999. Em 1997 a gente lançou Os Cães Ladram…, a gente foi preso no final do ano; em 1998 eu lanço meu primeiro disco solo, Eu Tiro É Onda, e 99 a gente se reúne de novo pra começar a fazer o terceiro disco do Planet.

Eu já tinha gravado o meu disco solo na minha casa e a gente resolveu pegar todo o punch do disco, eu saí da casa e a gente transformou a casa em um grande estúdio, comprou equipamento, fez acústica… O estúdio se chamava ‘Casa do Caralho’.

Lá nesse estúdio a banda era bem grande. O Daniel Ganjaman participou bastante desse disco, o Jackson, o Rafael que tinha saído e voltou pra esse disco… Formigão, Pedrinho, era o primeiro disco do Pedrinho (baterista). Eu, Gustavo, BNegão…

Foi um período muito interessante porque a gente gravou tudo na casa então a gente tinha equipamento novo, estávamos muito animados com essa coisa do estúdio, de poder produzir.

Foi quase que uma evolução né? O primeiro disco a gente fez no estúdio sem saber nada. No segundo disco a gente já tinha uma ideia melhor do que a gente queria pro nosso som e chamou o Mário Caldato, e ele veio pro Brasil.

Nesse terceiro disco a gente praticamente produziu tudo ali na Casa do Caralho com David o Marroquino, todo mundo metendo a mão na produção e o Mário terminou com a gente mixando isso em Los Angeles.

Foi um dos discos mais gostosos de fazer em estúdio e foi um período especial pra caramba né, porque era nosso primeiro estúdio.

Ainda abordando a maconha como tema mas mirando em outro lugar, aqui o grupo muda seu foco justamente para os poderosos e hipócritas, como aqueles que prenderam a banda por “apologia”.

De forma clara, direta, e sem nenhum tipo de papa na língua ou temor de sofrer com a justiça novamente, já na faixa usada como single para divulgar o disco a mensagem é escancarada:

Intoxicados pela ignorância reinante
Os homens fumaça mais uma vez
Se apresentam pra missão
B Black vulgo B Negão representa o funk certeiro
Chutando o rabo do congressista brasileiro
Que foge do trabalho que nem vampiro do alho
Só quer saber do cascalho
Caralho no rabo do povo de novo
Sempre há quinhentos anos dilatado
O fist fuck tenta segurar até o último centavo

Em uma das sequências mais geniais do disco, o Planet critica a violência policial com “Test Drive de Freio de Camburão” (Chega em cima só pra dar geral / Mas na moral a intenção é apagar geral / São soldados do rei prontos pra jogar o povo no chão / Planet Hemp test-drive de freio de camburão / Quando me rendem não sei mais quem é polícia e quem é ladrão) e emenda na pesadíssima “Procedência C.D.”, um hardcore direto e reto que volta a falar sobre a classe política brasileira:

Dinheiro do patrão
Armas e munição
Tortura da programação
Concessão de rádio e televisão

Pergunte a procedência do aumento da condução
Pergunte a procedência do aumento do mercado
Pergunte a procedência dos juros extorsivos
Pergunte a procedência da taxa de inflação

Certeza de não punição
Filha da puta que concorre a eleição
Talco usado via nasal
Imobilidade nacional

Ao final, explicando o “C.D.” do título, D2 entra em ação com um trecho falando sobre o “Comando Delta”, suposto grupo de homens influentes que “fabricariam” candidatos e presidentes do Brasil, usando todo seu poder para colocar quem quisessem no posto mais importante do país, atendendo aos seus interesses:

De acordo com o Presidente da Associação Brasileira dos Agentes da Polícia Federal, uma entidade não oficial denominada de Comando Delta, definida por ele próprio como ‘fábrica de presidentes’, atua no controle total do sistema brasileiro, tendo inclusive realizado uma reunião para a escolha de Fernando Henrique Cardoso. Esta entidade é formada pelos homens mais poderosos do país, como donos de grandes redes de televisão, grandes jornais, instituições financeiras, indústrias farmacêuticas, empreiteiras, entre outras áreas de influência, que se perguntados sobre o assunto, ironizarão e negarão até o fim a sua existência

A trinca continua com “Stab”, em uma vibe completamente diferente e mais voltada ao Hip Hop, onde as críticas continuam e, inclusive, citam novamente o então presidente da República, Fernando Henrique Cardoso, além de dizer que o povo é mantido na pobreza e na ausência de cultura (!) de propósito para que continue votando nos mesmos nomes sem pensar:

Se eu vacilar, um filho da puta rouba a minha alma
Entra Fernando e sai Fernando e quem paga é o povo
Que pela falta de cultura, vota nele de novo
E paga caro, com corpo e com a alma
E entrega na mão de um pastor pra ver se salva
Com a barriga vazia não conseguem pensar
Eu peço proteção a Deus e a Oxalá
De infantaria que eu sou e tô na linha de frente
Rio de Janeiro, fim de século, a chapa tá quente!

Não à toa, a canção é a favorita de D2 em toda carreira do Planet Hemp e foi ele mesmo quem contou pra gente:

‘Stab’ é minha música preferida não só desse disco como também a minha música favorita do Planet.

Eu adoro o jeito que ela foi feita, adoro o jeito que ela é construída, adoro o jeito que o Bernardo escreveu o refrão dela, adoro a banda tocando em cima daquele loop.

Acidentalmente aquele loop de barulho, o ‘stab’ né, no caso mesmo, apareceu e o Zé [Gonzales] fez aquilo e a gente resolveu tocar em cima, achando tudo bem sonoro.

É a minha música favorita do disco e do Planet Hemp.

O disco ainda é repleto de grandes sons como “Raprockandrollpsicodeliahardcoreragga”, que explica a mistura de elementos tão característica da banda, “Quem Tem Seda?”, “HC3”, outro hardcore dos bons, e o encerramento com “Sagaz Homem Fumaça”, que vai do reggae à música brasileira passando pelas guitarras distorcidas em um golaço para celebrar a verdadeira conquista de campeonato que é o terceiro álbum do Planet Hemp.

Em conversa com o TMDQA!, D2 disse:

Os discos do Planet sempre foram muito temáticos, né? No primeiro disco a gente falou sobre legalização da maconha. A maconha era o tema que a gente achava que ia chamar atenção mesmo, ia cutucar a ferida… veio desse lugar que incomodava a gente pra caramba.

No segundo disco já tinha uma parada dessa perseguição e o terceiro disco eu acho que é o disco mais maduro que eu, Bernardo e o Black Alien escrevemos. Que a gente tem um olhar mais maduro sobre a situação e os assuntos que a gente gostava de escrever.

A gente tava, claro, machucado e ferido com a prisão e a gente tinha que dar uma resposta, sabe. A gravadora queria que a resposta fosse logo depois, mas a gente tentou, foi pro estúdio e não saiu nada natural.

Então a gente resolveu seguir com os nossos planos, eu fazer carreira solo… Mas em 2000 a gente ainda tava machucado e queria responder, né cara. Eu tenho um orgulho fodido de fazer, de participar do Planet Hemp, de fazer essa banda e botar esse projeto pra frente. Participar disso, poder escrever sobre isso, não dá e nem tem motivos para o Planet Hemp aliviar.

Um registro histórico de momentos conturbados que parecem nunca ter deixado o país, A Invasão do Sagaz Homem Fumaça é importante musicalmente, socialmente e como um grande alerta para os que acham que a história não pode nos ensinar lições sobre como melhorar e evoluir para seguir adiante.

Mais que isso, é o posicionamento firme e forte de uma das maiores bandas brasileiras da história que levou porrada, foi presa, teve a carreira sabotada pelas mais diversas forças e ainda assim não se rendeu: foi lá e botou o pé na porta, criticando os poderosos com uma coragem que em 2020 não é vista e, sinceramente, entre a classe artística parece ter virado fumaça.

Sobre como as letras ainda soam atuais duas décadas depois, Marcelo nos contou:

Cara, eu me sinto numa distopia né, porque olhar pra trás e ver que a cidade, mas…

Eu tenho lido bastantes coisas antigas, livros sobre o Rio de Janeiro, e a gente vê que a cidade já era assim na década de 20, 30, século passado. E a gente vê que 100 anos depois a cidade continua a mesma coisa.

É muito triste mas ao mesmo tempo eu me sinto honrado e abençoado de poder fazer esse trabalho, tá ligado? De poder ter voz e poder me inserir na sociedade escrevendo e falando sobre isso. É quase que uma bênção.

Obrigado, Planet Hemp. É triste ver que de lá pra cá quase nada mudou, inclusive na questão da legalização da maconha, mas é histórico, importantíssimo e louvável o esforço feito por um artista com tanto afinco, paixão e determinação. Nada irá apagar uma obra dessas tão fundamental para a história do país.

E que bom que duas décadas depois vocês estarão de volta.

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