Finalmente a banda Black Pumas tem ganhado os holofotes que merece. Após o lançamento do disco de estreia homônimo em 2019, o duo foi indicado na categoria de Artista Revelação no Grammy deste ano.

A trajetória da banda surgiu em Austin, cidade do Texas. Formada pelo vocalista Eric Burton e guitarrista Adrian Quesada, a dupla teve suas jornadas sempre associadas à música, porém de formas distintas.

Burton começou a cantar na igreja e em musicais de teatros locais. Com o tempo tornou-se músico de rua, conhecido no pier de Santa Monica, na Califórnia, e no Novo México. Contudo, foi em Austin que se estabeleceu na cena da cidade, intitulada como “a capital da música ao vivo” nos EUA.

Já Adrian Quesada tem um histórico musical premiado. O guitarrista fez parte da orquestra de funk latino chamada Grupo Fantasma, que ganhou um Grammy em 2011 pela categoria álbum latino de rock. Ele também foi integrante numa banda local de Austin, chamada Brownout, e também assina colaborações com Prince e Daniel Johnston.

Atualmente, ambos alçam voos junto com a sua banda de apoio e desembarcariam na América Latina se não fosse o Coronavírus. Originalmente agendadas para Abril, as datas da turnê oficial do Black Pumas foram adiadas para Janeiro de 2021 devido à pandemia da COVID-19.

Ao começar por Bogotá no dia 10 de Janeiro, a turnê chega ao seu fim em 16 de Janeiro, em Piracicaba. A banda também faz outra passagem no Brasil, no dia 15 de Janeiro, no Cine Joia, em São Paulo.

Em entrevista para o TMDQA!, conversamos com Adrian Quesada, também produtor da banda, sobre a experiência musical com Burton, lives em tempos de lockdown e expectativas para tocar no Brasil. Confira!

TMDQA!: Primeiro, quero agradecer pelo seu tempo e dizer que no ano passado vocês estavam entre os 50 melhores discos do ano em nosso site.

Quesada: Que incrível! Eu fico feliz de ver o reconhecimento gigantesco do nosso primeiro disco.

TMDQA!: Então creio que não tem como começar essa entrevista de outra forma a não ser falar sobre o álbum de estreia. É de fato algo emblemático para uma banda, principalmente na produção do mesmo. Para vocês, foi algo que fluiu tranquilamente ou um processo denso?

Quesada: Foi bem tranquilo, na verdade, considerando que eu e Eric nos conhecemos e já começamos a trabalhar nas músicas. Nós nem precisávamos discutir tanto sobre a direção ou coisa do tipo, foi algo natural. Ele me mostrava alguma música e logo se encaixava perfeitamente com outras, tudo bem leve.

E agora eu espero começar gravar um álbum em breve, já que estamos em casa e sem fazer turnê. Estamos finalmente começando a falar sobre isso, mesmo que sejamos duas pessoas muito opinativas e muito diferentes, mas nos damos muito bem. Não estamos sempre olho no olho, mas no que diz respeito musicalmente, é bastante calmo e estamos na mesma página.

TMDQA!: É, de fato conseguimos ver isso, que a relação entre você e Burton teve uma conexão imediata. E para muitos, vocês foram associados ao soul psicodélico. Como o som do Black Pumas surgiu? O gênero foi algo determinado de primeira ou algo que veio com o tempo?

Quesada: Veio de imediato, já que antes de conhecer Eric, algumas dessas músicas já haviam sido gravadas, como “Oct 33” e “Colors”, e outras gravamos juntos, como “Black Moon Rising” e “Fire”. Então tudo fluiu da forma como achamos que era o certo. Todas se encaixaram no disco como uma narrativa, não ligado ao gênero em si, já que tínhamos uma direção ideal a elas.

TMDQA!: E eu imagino que muito disso também se reflete nas letras, já que além do som bem explorado, as letras também são dessa forma, e bastante intrínsecas, a propósito. O processo de composição das letras é trabalhado em conjunto ou cada um faz algo diferente?

Quesada: Nossos processos são diferentes porque as músicas são. Ele as compôs e trouxe quase prontas, com os acordes e letras bem alinhados. Então, apenas nos organizamos para o álbum, com arranjos e outras coisas. Mas foi tudo bem freestyle: ele cantou coisas diferentes, usou palavras e abordagens também diferentes e incluímos tudo nas gravações. Tudo passa pelo nosso crivo, e digo a ele o que gosto, qual direção isso tem caminhado, e como nos improvisos dele surge algo que buscamos desde o começo. Mas em resumo fazemos um pouco de tudo.

TMDQA!: Essa sintonia que vocês têm nós podemos ver na live beneficente que fizeram, em parceria com a Fender e Toyota. Durante a quarentena, essas lives têm sido uma excelente ferramenta para os artistas cumprirem um papel filantrópico. Além desse foco, como é manter a mensagem das músicas com menos instrumentos?

Quesada: É um desafio, mas eu realmente gosto disso, acho que é o sinal de uma boa música e sou mais um produtor do que um compositor. Mas acho que, como produtor, uma das coisas que eu mais gosto no Black Pumas é que a maioria dessas músicas se você se senta e as toca com apenas um violão, elas funcionam bem.

Eu acho que a coisa mais importante é a música. Então, se é uma boa música, você pode tocá-la de forma despojada. Mas tocar com Eric, ele no violão, eu na guitarra e com nossas backing vocals adicionam outra camada musicalmente falando, mesmo que todas nossas músicas funcionam em um formato mais simples.

TMDQA!: Isso também envolve manter uma relação firme com o público através dessa atmosfera íntima. Qual é a experiência de tocar para muitas pessoas sem vê-las, mas ao mesmo tempo acompanhando suas reações através dos comentários?

Quesada: Enquanto estávamos tocando, não podíamos ver os comentários. Então era novo e diferente, com certeza. Acho que na duas primeiras músicas, estávamos nervosos e foi um pouco estranho, mas uma vez que começamos a tocar tudo fluiu bem, porque a gente gosta de fazer isso. Infelizmente, não vi os comentários e talvez fosse melhor, já que acredito que isso seja reflexo de um futuro imediato. É a única maneira de bandas e artistas se conectarem por agora. Gostaríamos de estar em frente de pessoas reais, cantando junto com a gente. Mas se essa é a única maneira de fazê-lo, é melhor que nada.

TMDQA!: Ainda focando ao vivo, notei nos comentários que você tem uma legião de fãs aqui no Brasil. Você já ouviu falar sobre como são os fãs brasileiros?

Quesada: Um pouco, sim. Mas me fala você!

TMDQA!: Então, eles são bem intensos e eu imagino que vocês vão gostar muito deles.

Quesada: Pois é, éramos para ter tocado aí no mês passado, mas iremos em Janeiro do ano que vem, se tudo der certo. Esperamos conhecer o país, conectar mais com os fãs e com as músicas daí. Sou fã d’Os Mutantes, fui apresentado por meio da Tita Lima [filha do baixista Liminha], e Caetano Veloso, além da tradicional Bossa Nova. Mas espero conhecer coisas novas.

TMDQA!: Então vou te recomendar Criolo, por trazer uma mensagem familiar ao Black Pumas e ter referências bem parecidas. Acho que você vai curtir.

Quesada: Ah, já vou anotar aqui.

TMDQA!: Mas focando nos shows, com a mudança das datas, as expectativas dos fãs apenas aumentam. O que podemos esperar do Black Pumas nos dois shows aqui no país?

Quesada: Bem, eu nunca estive no Brasil, então já podemos garantir que a energia vai ser gigantesca. E ao vivo é bem diferente do álbum, ainda mais pelas experiência que temos. Eu adoro ouvir as versões de estúdio, mas ao vivo se tornou uma coisa especial, principalmente porque, quando gravamos o álbum, nunca tínhamos feito um show antes. Então, a expectativa é alta exatamente pelas experiências incríveis que tivemos ao vivo.

TMDQA!: Não podemos esperar menos que isso. Antes de agradecer, quero deixar uma última pergunta: você tem mais discos que amigos?

Quesada: Sim, com certeza. Apesar de gostar muito de discos e serem minhas coisas favoritos, amigos são raríssimos.

 
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