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Foto: Divulgação
 

Nenhuma música chega ao topo à toa, seja por sua qualidade, criatividade, impacto ou história. “I’ll Be Missing You“, lançada em 1997 por Puff Daddy e Faith Evans com participação do grupo 112, é uma grande prova disso.

Responsável por quebrar diversos recordes na época, a faixa acumula muita história. Isso porque foi composta em homenagem ao rapper The Notorious B.I.G., assassinado no início de Março daquele ano. Além de ser uma espécie de pedido de trégua, a faixa entrega uma sensibilidade que até então não era associada a artistas de hip hop.

Levantamos algumas curiosidades sobre este grande hit. Confira abaixo:

 

Mais uma triste tragédia da briga Leste x Oeste

O hip hop norte-americano dos anos 90 acabou ganhando grande visibilidade por conta da “treta” entre o Leste (representado pela cena de Nova York) e o Oeste (representado pela cena da Califórnia). A rivalidade acabou tirando a vida dos dois nomes mais influentes das respectivas comunidades: The Notorious B.I.G. e Tupac Shakur.

“I’ll Be Missing You” foi escrita em homenagem ao legado de Biggie. Lançada 14 dias após o assassinato, a faixa contém versos que demonstram o sentimento de saudade. “Sentimos sua falta, B.I.G.. Todos os dias, sempre que eu rezo”, canta Puff.

 

Quem era Puff Daddy antes de “I’ll Be Missing You”?

Podemos dizer que a aproximação entre Puffy e Biggie foi benéfica para ambos os lados. A parceira ajudou a colocar Christopher Wallace (nome de nascimento de B.I.G.) em um caminho musical brilhante. No entanto, a união ajudou a consolidar ainda mais o nome de Sean Combs (o Puff) como produtor musical da cena do hip hop novaiorquino.

Após ter se descoberto produtor na faculdade, Puff fundou o selo Bad Boy e logo passou a trabalhar com o então novato Biggie. Juntos, lançaram Ready to Die, disco de estreia de B.I.G.. Na época, também se juntaram ao time nomes como 112, Craig Mack e Father MC.

Como produtor, Combs ajudou na criação de hits de sucesso de nomes como TLC, Mary J. Blige, Boyz II Men e Busta Rhymes. Com o passar do tempo, já visto como consagrado na indústria, ele foi chamado para produzir nomes que vão desde Jennifer Lopez até Limp Bizkit.

 

Faith Evans

Quem empresta a voz para o emblemático refrão da faixa é Faith Evans, que foi esposa de Biggie entre 1994 e o início de 1997. Por sinal, ela é a principal compositora da faixa.

“I’ll Be Missing You” rendeu para Evans seu primeiro e único Grammy até então. A canção ganhou o prêmio de Melhor Performance de Rap por uma Dupla ou Grupo em 1998. A carreira da rapper continua na ativa até hoje, tendo lançado seu mais recente disco, Incomparable, em 2014.

Ela fez uma breve participação na série Luke Cage, da Netflix, como a cantora de um estabelecimento.

 

Sample de The Police…

Escutando “I’ll Be Missing You”, é quase impossível não perceber que a música faz uso de um icônico riff de guitarra. Trata-se de “Every Breath You Take“, clássico lançado em 1983 pela banda The Police.

Além da linha de guitarra de Andy Summers, a melodia do refrão, na voz de Faith Evans, segue a mesma do início da letra do clássico de 1983. No mais, a canção também conta com elementos de “Adagio for Strings“, de Samuel Barber.

Mas será que isso chateou Sting e companhia?

 

… e treta com o The Police!

Por mais que homenagem tenha sido linda, em termos jurídicos a história tomou outros rumos. Isso porque a banda britânica não havia autorizado os artistas a usarem elementos de “Every Breath You Take”. O principal compositor da banda, Sting, entrou com um processo e recebeu 100% dos royalties de “I’ll Be Missing You”. Boatos dizem que, por dia, o compositor ganha cerca de dois mil dólares por causa dessa situação. Se a autorização tivesse sido pedida e concedida, o rapper provavelmente teria que ceder apenas 25% dos direitos.

Andy Summers, responsável pelo icônico riff de guitarra, já chamou a homenagem ao legado de Biggie de “plágio”, “coisa” e palavras mais pesadas.

Bem, gostando ou não do que foi feito, todos parecem bem felizes na performance que Puff, Faith Evans e Sting fizeram juntos no VMAs de 1997. Confira abaixo:

 

Primeira música de hip hop a estrear no topo da Billboard Hot 100

Na época, o hip hop ainda estava sendo entendido pelos críticos de música, que não davam a devida visibilidade ao gênero. A intriga entre o Leste e o Oeste norte-americano acabou chamando a atenção do mundo da música. Um dos reflexos diretos disso é o sucesso de “I’ll Be Missing You”, que estreou em primeiro na Billboard Hot 100, o mais importante termômetro musical da indústria.

Em sua primeira semana, a canção tirou do topo o hit “MMMBop“, do Hanson. Durante as onze semanas seguintes, se manteve na primeira colocação, na frente de singles de nomes da emergente cena das boy bands e girl bands, como Backstreet Boys e Spice Girls. Quem fechou a conta foi o próprio Biggie, com o single póstumo “Mo Money Mo Problems” (que, vale citar, conta com participação e produção de Puffy).

“I’ll Be Missing You” foi a canção de hip hop a se manter mais tempo no topo da Billboard até “Lose Yourself” fazer Eminem quebrar esse recorde em 2002. Além da parceria entre Puffy e Faith, Eminem é o único rapper homem a estrear uma canção no topo da Hot 100 (“No Afraid”, em 2010).

 

Puffy pensou em desistir

Perder um amigo próximo é sempre um dor tremenda. Após o acontecimento, Puff cogitou desistir da carreira, incluindo os projetos com a Bad Boy. No entanto, seus objetivos profissionais e o mágico riff do The Police o convenceram a continuar.

Em entrevista concebida a MC Shad para a série documental Hip Hop Evolution (Netflix), o produtor conta que Biggie sempre tentou buscar seu lado intérprete. Ele também contou que, ao gravar “I’ll Be Missing You”, sentiu que estaria mudando o hip hop para sempre.

Estava pronto para desistir. Não ia mais fazer nada com a gravadora. Mas, um dia, eu estava assistindo TV sozinho enquanto me perguntava ‘Deus, por que?’. De repente, ouvi ‘Every Breath You Take’, do The Police. Eu entendi aquilo como um sinal. Ás vezes, você só precisa de um pouco de luz para conseguir se expressar. Concluí que não desistir era a melhor coisa que eu poderia fazer. (…) É isso que Big diria.

 

O hip hop comercial

De fato, Sean Combs mudou o hip hop. A partir daquele momento, mais portas se abriram para o gênero, que passou a ter cada vez mais espaço dentro da estética pop. Com a intenção de trazer músicas mais descontraídas e suavizar a tensão, essa nova permitiu a expansão do público para novas áreas.

Assim, abriu-se espaço para o surgimento de nomes não apenas da cena de NY, como Ja Rule, 50 Cent e Jay-Z, mas também dos EUA como um todo.