Fefel 2020
 

A década de 2010 nos apresentou ao trabalho do ótimo grupo goiano Boogarins. Desde então, passamos a acompanhar uma banda que tem se projetado cada vez mais pelo Brasil e até mesmo fora dele.

Essa vivência internacional evolveu a produção de seus dois últimos discos, Lá Vem a Morte (2017) e Sombrou Dúvida (2019), no Texas. No meio do processo, o baixista Raphael Vaz (“Fefel” para os íntimos/fãs) criou a faixa “Tanta Coragem” durante seu momento de ócio, dentro de um quarto de hotel. Pouco tempo depois, ele compôs “Inocência“.

As duas ótimas músicas foram publicamente divulgadas recentemente, dando origem ao compacto Fefel 2020. Publicado exclusivamente (por enquanto) no site oficial do Boogarins, o lançamento antecede o álbum Manchaca, que ganhará vida em breve a partir de outtakes dos trabalhos anteriores da banda.

 

“A produção contou com pouquíssimos elementos”

Dois instrumentos foram essenciais para a concepção das faixas. Um deles é um pequeno violão de nylon que Fefel se deu de presente em uma das viagens no exterior. O outro foi uma kalimba (um instrumento da categoria dos idiofones dedilhados), que o baixista recebeu de presente do colega de banda Benke. No entanto, o guitarrista lhe pediu como recompensa uma música que fizesse uso do instrumento. O resultado está em “Inocência”.

Tivemos a oportunidade de fazer algumas perguntas para Fefel sobre o processo de composição das faixas. Confira abaixo:

TMDQA!: Primeiramente, para esta sua dupla de músicas, quais foram as suas principais inspirações, tanto em termos estéticos quanto em termos líricos?

Fefel: Acho que eu estava há um tempo sem compor por meios acústicos e quis fazer algo assim, mais vazio, sem preencher com os graves que toco geralmente. Acho que posso citar o disco Cows on Hourglass Pond, do Avey Tare, e o Jóia, do Caetano [Veloso]. São discos muito diferentes, mas são bem espaçados. Quanto às letras, só podem ser um misto dos livros que li e das sensações que tive.

TMDQA!: É muito interessante ver o resultado que a união de uma kalimba com um violão de nylon pequeno pode ter, por exemplo. As músicas estão incríveis e você fez tudo basicamente sozinho. Você também se surpreendeu com os resultados? Como foi “lapidar” esse material até que você ficasse satisfeito?

Fefel: Não me surpreendi porque as canções são muito singelas e porque a produção contou com pouquíssimos elementos. Foi uma decisão prévia não ocupar todos os espaços e deixar um vão para que, quem sabe, outros elementos possam aparecer depois. Podemos também gravar com a banda, por exemplo. Não aconteceu porque todos gostamos da crueza contida ali. Para lapidar o material, eu pedi pra Alejandra mixar e, quando as músicas ganharam corpo nesse processo, já estavam prontas automaticamente. Daí eu me surpreendi que o que era rascunho ficou com a cara de finalizado.

TMDQA! Como está sendo a receptividade dos fãs com esse novo material? Vi alguns fãs implorando para que vocês jogassem essas faixas em serviços de streaming. Você cogita levar esse projeto para essas grandes plataformas?

Fefel: A receptividade foi muito boa. Eu sempre achei difícil lançar um single com Boogarins sem a reconhecida voz do Dinho, que é a cara da banda. Mas, depois de tantos anos isso, fica bem mais fácil. Temos muitos ouvintes que estarão de coração aberto para o que nos propormos a lançar. Logo, as faixas estarão no streaming sim!

 

“Ninguém precisa se sentir pressionado pelas circunstâncias”

TMDQA!: Você explica que “Tanta Coragem” surgiu num quarto de hotel, de onde você gravou os acordes enquanto balbuciava melodias. Estamos vivendo tempos de isolamento social, onde todos precisamos ficar abrigados pelo bem da saúde pública. Que dica de criatividade você daria para os artistas que estão tendo que ficar longe dos estúdios para, mesmo diante das intempéries, conseguirem produzir materiais novos?

Fefel: Eu diria que dá para aproveitar esse momento de ócio, esse tempo livre que procuramos e que de uma hora pra outra somos forçados a tê-lo. Eu e Alejandra entramos num desafio no Instagram de #30dias30beats, e todo dia fazemos e postamos um minuto de música. Depois de uma semana ficou bem difícil, mas é um bom exercício. Não é necessário que haja inspiração todo dia. Acabamos praticando mais em como terminar ideias simples do que começá-las e isso parece uma habilidade útil para o futuro.

Apesar disso, ninguém precisa se sentir pressionado pelas circunstâncias e você pode muito bem gastar esse tempo reouvindo discos importantes da sua vida. Ou lendo as coisas que queria. Ou fazendo nada. Até o tédio pode dar frutos lá na frente. Esses são dias muito difíceis que não precisam ser piorados com cobrança.

TMDQA!: Esse processo acendeu em você alguma chama, alguma vontade para continuar fazendo suas próprias coisas, mantendo, é claro, o Boogarins em paralelo?

Fefel: Sempre gostei muito de fazer coisas sozinho. Até preciso disso, assim como todos nós. Isso é saudável pra qualquer artista. Mas ainda acho que fazer com os outros é muito mais prazeroso e gratificante, contando com o bom gosto, a familiaridade e as surpresas. Então nada muda. Que as chamas continuem queimando (risos).

TMDQA!: Em seu depoimento no site da banda, você diz que tem o sonho de ser importante. No que se baseia esse sonho?

Fefel: É só uma zoeira. Como se quisesse aparecer por aparecer. Não foi minha ideia fazer um 7 polegadas com meu nome e minha cara na capa, mas agradeço aos amigos. Tem o compacto pra venda na nossa loja online, me ajude a realizar meu sonho (risos).

TMDQA!: Alguma contribuição final?

Fefel: Sim, sigam lá a minha banda nova Carabobina. É uma dupla com a Alejandra. Em maio lançaremos nosso primeiro single. E logo o disco sai também.