O Poço, filme da Netflix
 

O suspense espanhol O Poço, dirigido por Galder Gaztelu-Urrutia, é uma grande alegoria para a sociedade na qual estamos inseridos. Urrutia incluiu generosas doses de críticas sociais e referências religiosas para impactar os espectadores, além do horror gore calculado na medida.

Um dos diferenciais desse filme é que são apresentadas bem mais perguntas do que respostas. São várias formas de interpretar o que foi mostrado na tela, o que incentiva o debate entre o público para enriquecer ainda mais a experiência.

Essa característica já coloca O Poço na mesma prateleira de filmes como Mãe!, de Darren Aronofsky, e O Homem Duplicado, de Denis Villeneuve, por exemplo. Filmes que melhoram à medida que conversamos sobre eles e compartilhamos as experiências individuais.

A história

O Poço acompanha Goreng (Ivan Massagué), um homem que acorda em uma espécie de prisão vertical. À medida que conversa com seu companheiro de andar, ele vai descobrindo mais detalhes de como funciona o lugar.

Todos os andares comportam dois ocupantes e possuem um vão no centro, por onde diariamente desce uma plataforma cheia de comida. O banquete fica disponível por apenas dois minutos antes de descer para o próximo nível. Nessa dinâmica, quem está abaixo come o que restar dos andares superiores – e quanto mais baixo, menos vai sobrar.

O problema é que os presos trocam de andar aleatoriamente a cada mês. Se você está em uma posição alta hoje, pode ir para uma mais baixa depois. Isso desperta os sentidos mais primitivos nas pessoas.

A partir daqui, o texto contém spoilers.

O Poço Netflix
Foto: Netflix

As metáforas

Duas questões são óbvias na interpretação do roteiro de David Desola e Pedro Rivero. A primeira é o paralelo com a realidade dos sistemas econômicos atuais.

O protagonista, Goreng, entra no Poço sem saber como o local funciona e rapidamente entende a melhor forma de resolver o problema de falta de comida para os andares mais baixos: se cada um comer apenas o que precisa, vai ter para todo mundo. Mas vai convencer o pessoal mais alto a fazer isso…

O filme explora muito bem a natureza egoísta do ser humano e como ela se sobrepõe à lógica. O instinto de comer o máximo que conseguir por estar em uma posição privilegiada simplesmente apaga da equação o fato de que essas mesmas pessoas podem ficar lá embaixo no futuro. Eles preferem abraçar a selvageria que se torna passar um mês em jejum do que compartilhar com o próximo. Na vida real é a mesma coisa, mas com dinheiro no lugar da comida.

A fala de um dos companheiros de cela de Goreng é impactante:

Só há três tipos de pessoas: as de cima, as de baixo e as que caem.

O alpinismo social não existe em O Poço porque as leis – inclusive a gravidade – não permitem. O Poço é cruel e corrompe até as melhores pessoas que entram lá. Nesse sentido, a mensagem anti-capitalista era clara, mas também havia um contraponto, segundo o próprio diretor.

Em entrevista ao Digital Spy, ele lembrou que outras ideologias também não foram tão eficazes no Poço. “Nós certamente pensamos que deve haver uma melhor distribuição de riquezas, mas o filme não é estritamente sobre o capitalismo”, disse Gaztelu-Urrutia. “Talvez haja uma crítica ao capitalismo no começo, mas nós mostramos que, assim que Goreng e Baharat começam a usar o socialismo para convencer os outros prisioneiros a compartilhar a comida, eles acabam matando metade das pessoas que tentaram ajudar”.

“No fim, o problema surge quando você tenta exigir a colaboração de todos e vê que não há nenhuma conquista no final. Goreng faz o que planejou, levando a panacota e a criança até o último nível, mas ele não mudou a opinião de ninguém sobre compartilhar a comida”, concluiu.

O Poço Netflix
Foto: Divulgação/Netflix

A outra metáfora utilizada é a religiosa, na qual Goreng é considerado uma espécie de Messias. Apesar de corruptível, como qualquer ser humano, ele se mostrou disposto a enfrentar o sistema que, nem de longe, era justo.

Ao descobrir que o suposto objetivo da Administração do Poço era criar solidariedade espontaneamente, ele desacreditou do método mas manteve a esperança de que há salvação para a “sociedade” – e tudo dependia apenas das pessoas.

As mudanças nunca são espontâneas

O terceiro ato do filme pega mais pesado nessa analogia religiosa, à medida que Goreng e Baharat descem aos andares inferiores. Os sete pecados capitais são identificados facilmente nos níveis onde a comida já não chegava há dias. Em um andar, um senhor portava uma mala de dinheiro; em outro, homens extremamente agressivos deram trabalho; em outro os participantes morreram queimados porque guardaram comida.

Aqui as interpretações já começam a se misturar, pois a montagem dá uma acelerada no ritmo até que eles chegassem ao último nível e, lá, encontrassem uma garotinha.

A mensagem

O plano original era mostrar à Administração que seria possível que a plataforma voltasse ao andar 0 com alguma comida, provando, de alguma forma, que o ser humano consegue manter o mínimo de civilidade mesmo em condições tão extremas.

Mas, ao descobrir que existia uma criança vivendo no último nível, tudo mudou. Uma criança nascida no Poço se tornava a mensagem em si, um motivo mais do que claro para a Administração mudar sua conduta.

Mas será que mudaria mesmo? Tratando-se de uma instituição que deliberadamente mata pessoas e as coloca para se digladiarem por comida, isso seria suficiente para alterar todo um sistema já estabelecido?

E será que a menina realmente existia? Ainda existia a possibilidade de ser apenas um devaneio de Goreng.

Como dissemos lá atrás, muitas perguntas e poucas respostas.

O Poço está disponível na Netflix.