Letrux Aos Prantos
Foto: Ana Alexandrino
 

Dentro de cada um de nós vive um turbilhão de sentimentos. A natureza humana, complexa como só ela consegue ser, é incapaz de ser descrita como um todo. Isso porque há muito o que se falar: amor, ódio, tesão, tristeza, alegria… Estar vivo, por assim dizer, é justamente a experiência de conciliar tudo isso!

Em tempos de redes sociais, temos que parecer unilaterais o tempo inteiro. A imagem é o que conta. Trata-se de uma liberdade que acaba nos cercando, já que nem sempre conseguimos externalizar nossos sentimentos. Diante disso, olhar para dentro e refletir torna-se um árduo desafio. E é por conta dessas e outras angústias que a cantora carioca Letrux se declara Aos Prantos em seu mais novo disco de estúdio.

O álbum chegou às plataformas no último dia 13, driblando dogmas da indústria fonográfica ao não apresentar singles prévios. A novidade vem ao mundo três anos após o emblemático Letrux Em Noite de Climão, um dos melhores discos nacionais de 2017. Além da produção de Arthur Braganti e Natália Carrera (os mesmos produtores do Climão), o disco também contempla participações de Liniker, Duda Brack, Lovefoxx (Cansei de Ser Sexy), Lucas Vasconcellos (ex-Letuce) e mais.

 

“(A minha verdade) é a única coisa que me resta neste caos”

Em meio à densidade dos tempos modernos, Letrux aborda em seu novo álbum temas que dizem respeito ao interior. Aliás, em momentos onde a aparência pesa através de likes e repercussão em redes sociais, é como se tivéssemos parado de prestar atenção nos nossos verdadeiros sentimentos.

Enquanto isso, a sonoridade se mostra ainda mais desenvolvida e refinada do que no antecessor. Dançante quando tem que ser e calmo quando tem que ser, o disco não nega referências do blues, soul, samba e rock.

Letrux respondeu algumas perguntas nossas sobre o “frenesi” desse novo lançamento e sobre a nova fase de sua carreia. Confira abaixo:

TMDQA!: Primeiramente, qual é a principal diferença entre a Letrux Aos Prantos e a Letrux em Noite de Climão? Ouvindo o novo lançamento, eu senti que, enquanto o primeiro é um disco mais para o exterior, ao abordar relações e questões carnais, o Aos Prantos é mais voltado para o interior, para a reflexão e para o sentimento.

Letrux: Acho uma boa reflexão. O Climão foi tão externo e tão explosivo que, depois de tanta coisa, acho que precisei do famoso “olha pra dentro”. Na minha vida, no país e no planeta. Me aprofundei, ainda mais, em algumas questões que sempre foram importantes pra mim, como a morte, paixão, drama, sexo… Sempre fui densa, mas os tempos estão me deixando mais.

TMDQA!: Existe no novo trabalho uma espécie de crítica ao deboche e ao cinismo, coisas que aumentaram muito com o advento das redes sociais. As pessoas veem graça em tudo e os memes viraram parte intrínseca da nossa cultura. Como que o disco, ao ter foco nos sentimentos, tenta quebrar essa onda?

Letrux: Quero deixar claro que sou uma pessoa cômica. Rio muito, troco memes… Faço parte do século, mas não me fecho nisso. Aliás, odeio fechaduras, gavetas e mesmices. Há algo super esquisito nessa sociedade imagética: alguns jovens cresceram apenas lendo livros de auto ajuda ou artigos que resumem o que um livro ou um filme quis dizer. Não há tempo para se aprofundar e se investigar, coisa que sou veemente contra. Meu disco é uma investigação profunda em assuntos da maior importância pra alma. Existe um deboche para/com pessoas como eu, que são profundas. Mas é um deboche ignorante e quase digno de pena. Não chego a sentir raiva porque não me permito essa energia, mas fico pensando que tipo de pai e mãe essas pessoas tiveram, se foram levadas em alguma exposição ainda pequenas, se tinham acesso à música…

Cultura colabora muito com a nossa saúde mental! As pessoas estão cínicas porque estão robotizadas ouvindo 15 segundos de uma música e achando aquilo chato, só por 15 segundos de escuta. Ninguém escuta mais nada. Se protegem em apelidos que não revelam o nome, fotos estranhas e saem criticando a vida de pessoas mais audaciosas que se jogam na vida, já que a vida delas mesmas envolve confinamento em algum emprego triste. Não lançamos single, as músicas tem quase 5 minutos, tudo na contramão do que muitas pessoas têm feito em prol de um público que não pensa, nem reflete. Não quero esse público. Quero gente que pensa e reflete. E sei que ao falar isso posso soar o que for, mas é minha verdade. É a única coisa que me resta neste caos.

 

“Do tesão ao abandono”

TMDQA!: Existe, especialmente nos tempos conectados que vivemos hoje, uma pressão social pela felicidade. Acredito que, da mesma forma que o silêncio é necessário para entendermos o que o barulho quer dizer, acredito que a tristeza seja necessária para a existência da alegria. Qual é o objetivo do disco nesse contexto de prantos?

Letrux: Tudo tem luz e sombra. Caos e cosmos. Quando perguntam de signo pra mim, se é bom, se combina, digo logo que tudo combina, porque tudo é bom e mau. Todos os signos tem luz e sombra. Faço defesa da intensidade e da profundidade, mas também sei ser leve, boba e divertida. Uma pessoa só profunda também não dá conta de estar viva, assim como só leveza e besteiras não te dão panoramas reais sobre a existência.

Tem que ter equilíbrio, que é a maior dificuldade. Sou uma pessoa de natureza alegre, mas com momentos cavernosos curiosos. Não temo muito, porque sei que consigo voltar e me recuperar. Por isso, ouso ir na minha sombra de vez em quando. E, para o processo criativo, é muito bom ir na sombra. O disco passeia por muitas nuances, temos um passeio completo, da ira ao choro, do tesão ao abandono… Há de tudo! Quis mostrar que é possível abraçar a subjetividade que é estar viva e se divertir, e sofrer, e se reerguer, e seguir, e sumir. É possível passar por tudo.

Letrux Aos Prantos
Foto: Ana Alexandrino

TMDQA!: Como foi pensada a ordem das músicas? Dá para percebermos uma divisão em “lado A” e “lado B”. Como é desenvolvida a narrativa do disco?

Letrux: Acho que Arthur, Natália e eu temos um pensamento lado A e lado B. Somos pessoas que cresceram nos anos 80. Temos vinis até hoje e isso é real pra gente. Existe isso, sim. Não sei em que momento eu fui colocando uma apresentação mais misteriosa no início e depois fui deixando umas verdades mais cruas para o fim do disco. Isso, é claro, com músicas dançantes, rocks, delírios eletrônicos… Foi um fuzuê musical, camadas e camadas de som.

Arthur sugeriu terminar o disco com minha voz a capella. Eu estava com medo de terminar em inglês, como foi no Climão. Mas ele disse que algumas tradições são bonitas, confio nele e deixei. E agora faz muito sentido. Essa voz sozinha, essa melodia meio musical Sinatra, é quase macabro, mas fez sentido. O lado A “termina” com “Vai Brotar“, que é o apocalipse de uma manifestação utópica dos espiritualizados versus cínicos (risos)! Arthur e eu pegamos vários ditados da nossa bela língua portuguesa e deliramos em cima. Foi muito compor esse disco.

 

“Depois de tanto vermelho, quero neutralizar um pouco”

Letrux - Aos Prantos

TMDQA!: Tal como a emblemática capa do Noite de Climão, a capa de Aos Prantos também é bem interessante. O que você pode nos falar sobre a arte de Maria Flexa?

Letrux: Um dia, Maria curtiu uma foto minha e o ícone dela me chamou atenção, porque era uma pintura. Cliquei de volta e fui vendo sua arte, suas pinturas, pirei. Pirei real. Mandei mensagem pra ela. Expliquei o que eu queria. Ela me chamou para o ateliê dela, lá fui eu com minha caixa de som. O Victor Jobim, namorado dela, me fotografou com câmera analógica. Essa foto é perturbadora. Da hora que eu chorei. Coloquei o “Concerto para Violino em Re Menor” do Bach. Eu sempre choro com essa preciosidade.

E aí, com a foto, Maria pôde fazer a tela. Fortíssimo quando vi. Fiz uma foto com Ana Alexandrino, segurando a tela. Não queria meu rosto nessa capa, o Climão já teve minha cara frontal, pá! Queria algo mais misterioso mesmo. O choro é uma força misteriosa. O projeto gráfico é do Pedro Colombo, que entendeu que eu queria o mar de alguma maneira presente. Achei o resultado da pintura, foto e colagem muito condizente com tudo que o disco é.

TMDQA!: Enquanto o vermelho foi a cor principal da Noite de Climão, parece que o amarelo tem destaque nessa nova fase. Isso vai ser incorporado nos shows também? Por que amarelo?

Letrux: Na verdade meu figurino vai ser preto e branco, porque depois de tanto vermelho, quero neutralizar um pouco. Nada melhor que um P&B para isso. Não acho que nada vá ser amarelo não. Talvez ouro. Mas amarelo amareeeelo, não. Ouro sim!

TMDQA!: O novo disco aposta em uma sonoridade mais dançante. Como foi desenvolver isso e aliar às novas temáticas das letras?

Letrux: Tenho a sorte e honra de contar com a produção do Arthur e da Natália, e dessa banda sinistra que eu tenho. Nos ensaios a gente pirou um bocado. Foram dias intensos de criação, mas muito férteis. Mas não houve um pedido de “gente, quero um disco mais dançante”. Aconteceu. A magia do ensaio é forte, as coisas acontecem. Algumas músicas precisaram de destruições e construções do zero, como “Abalos Sísmicos” e “Esse Filme que Passou Foi Bom“. Elas tiveram versões, quebramos a cabeça, e aí sim chegaram num lugar de “agora sim”. Eu sou louca por essas músicas hoje em dia, até chorei cantando “Abalos”.

 

“Intuição me guia sempre”

TMDQA!: Desde 2017, aconteceu bastante coisa na música brasileira. Surgiram novos artistas e novos movimentos musicais começaram a florescer de forma mais clara na cena. Quais foram suas influências musicais para esse novo trabalho? Teve influências gringas também?

Letrux: Tenho ouvido muito Kevin Morby. Continuo obcecada com Lhasa de Sela. Mergulhei fundo em Michele Gurevich. Sou vidrada no Tim Bernardes. Descobri as minas Troá e pirei. Acho que esses nomes estiveram presentes.

TMDQA!: Foram cerca de 3 anos desde seu último lançamento. Nesse tempo, como você vê sua evolução enquanto artista e pessoa? No que os frutos do seu aclamado primeiro disco contribuíram para a sua visão de mundo?

Letrux: Voltei a fazer análise, agora que felizmente tenho o privilégio em pagar. Sou dada aos processos de cura. Acho que as pessoas seguem muito sem investigações anímicas, apenas seguem, eu gosto de seguir também, mas refletindo no caminho. Se não vira robô ou máquina, não rola. Em 3 anos muita coisa aconteceu na minha vida, profissional e pessoal. Me sinto apta a segurar o rojão que for. Não fujo da lama, aceito as coisas lidando com elas. Nem sempre é fácil ou confortável, mas prefiro tirar o lixo do banheiro do que esperar milagres que alguém tire, Loucura isso! O Climão me catapultou pra muita gente, e fico feliz com isso, recebo muito carinho, carta, email, presentes… Pessoas gostam das minhas músicas, das dicas de livros e filmes. Rola um axé bonito e sou grata por isso.

TMDQA!: Por falar em passagem de tempo, a faixa “Esse Filme que Passou Foi Bom” conta com a participação de Lucas Vasconcellos, seu ex-colega da época do Letuce. Como foi reviver essa parceria?

Letrux: Sempre vou querer brincar de música com Lucas, sempre. A banda acabou, mas somos amigos. Passo dias lá na serra com ele, brincando com os trezentos instrumentos que ele tem. É um barato. Queria muito fazer uma música sobre morte e ele também. Eu e ele tivemos experiências de morte muito fortes na vida. Isso nos marcou, e acabamos falando sobre a morte, sem tabu, com doçura, graça e intensidade.

TMDQA!: Além de Lucas, o disco também tem dedos de Duda Brack, Liniker, Lovefoxx e mais, além é claro, da produção de Natália Carrera e Arthur Braganti. É um disco mais colaborativo do que o Climão. Como foi convocar essa galera para participar e qual foi o seu critério de escolha?

Letrux: Eu sou apaixonada pela Liniker. Ela é uma artista e pessoa que eu admiro muito. Canceriana maravilhosa. Quando ela gravou no estúdio, todo mundo se olhou e ficou mostrando o braço arrepiado (risos). Foi um barato! Chamei ela pra participar do blues que fiz com meu boy, Thiago Vivas. A Luísa (Lovefoxx) faz parte da minha formação humana e artística. A gente se conheceu no Popload e foi amor à primeira vista, real. Quando ela topou participar, fiquei muito feliz e a música tem tudo a ver com ela.

Contanto Até Que” é uma música que fiz com minha melhor amiga, Keli Freitas. Uma hora lembrei que, há uns 2 anos, Duda (Brack) e eu fizemos uma coisinha juntas, mas não foi pra frente. Lembrei daquilo, nunca tinha esquecido, coisas da vida, do tempo. E aí quis trazer de volta. Ela se animou super. Adoro o trabalho dela; ela é uma excelente artista e aí juntei tudo em uma música bem forte, amo. O critério da escolha é sempre intuição. O que me arrepia, vai. Contato por contato, interesse por interesse não mexe com meus brios. Intuição me guia sempre.