Cena final da série
Foto: Reprodução / Youtube
 

Precisamos falar sobre depressão. Precisamos falar sobre lidar com esse problema de todas as formas e em todos os meios possíveis. O tema tem sido retratado com constância no mundo da música, na literatura, no cinema… Em relação ao mundo das séries, nenhuma obra recente fez isso tão bem quanto a animação BoJack Horseman, disponível na Netflix.

Mas, antes de qualquer coisa… SPOILER ALERT!

A série chegou recentemente ao fim, após seis temporadas. O final da última leva de episódios, no entanto, traz à tona todos os problemas que moldaram o protagonista como um personagem que sofre de depressão. Questões familiares, relacionamentos abusivos, a pressão da fama e o uso de drogas fizeram com que sua vida se tornasse um verdadeiro caos. E isso, obviamente, afetou muito o seu psicológico.

A complexa personalidade de BoJack foi sendo cada vez mais desenvolvida ao longo das temporadas. Mas como dar um basta a essa jornada? Que mensagem passar? Afinal de contas, a depressão é um problema que afeta muitas pessoas, e é preciso tratar do tema com responsabilidade.

 

Música casando com a narrativa

De nada adiantaria a conclusão da trama ter apenas imagens bonitas. Para a emoção ser completa, precisávamos de uma trilha sonora à altura. E eles acertaram novamente, da mesma forma que fizeram com o início da quarta temporada da série, que usou uma versão de “A Horse With No Name” para descrever a situação de não pertencimento de BoJack naquele momento da série.

Para potencializar a mensagem dessa aguardada conclusão definitiva, a animação fez uso de uma canção específica que, mesmo que tenha sido lançada em 2006, parece que foi feita para o desfecho. A música em questão é “Mr. Blue“, da cantora Catherine Feeny.

Partindo da constante associação da cor azul à tristeza, a faixa originalmente diz respeito a um ex-namorado da cantora que sofria de depressão. Narrando na letra uma despedida, o eu-lírico quer deixar claro que o motivo de ir embora não tem a ver com fim do amor ou algo do gênero. Isso tem a ver com a própria saúde mental do ex-companheiro. Ainda são dadas dicas de que tudo vai ficar bem, seja no sorriso de “adeus” mencionado ou na esperança de que um dia as coisas ficarão melhores para ele.

Enquanto isso, a atmosfera folk cresce com a bateria e com frases elaboradas em instrumentos de sopro. Tudo isso combina com o clima da cena final, em que BoJack conversa com a personagem Diane Nguyen no topo de um telhado, enquanto ambos observam o céu. Quebrando as teorias sobre uma possível morte de BoJack, especulada pelos fãs desde o início da série, a cena transmite paz e promove reflexão.

Bonito, né?

 

“Sei que você está dolorido e triste por algum motivo”

O que a letra tem a ver com o personagem de BoJack? TUDO!

Ao longo da série, entendemos que a vida e a trajetória profissional do protagonista o impediram de criar laços duradouros. Sozinho, seu bem estar, dadas as devidas proporções, vê grande sustento nos outros personagens principais. O maior exemplo disso é a própria Diane.

Desde a primeira temporada, BoJack vê na amizade de Diane uma forma de se afirmar. Por mais tóxico que a relação entre os dois fosse, ele se sentia seguro e confiante durante suas conversas com ela. Para Diane, no entanto, isso nunca foi uma relação muito saudável, apesar do carinho que sente (e deixa claro sentir) por BoJack.

A decisão de se afastar do protagonista veio de forma natural: Diane se encontrou. Passou a morar com um cara que a faz bem, se mudou de cidade e transparece viver uma vida melhor. Isso não necessariamente significa que BoJack fosse o maior de seus problemas, mas apenas enfatiza que pessoas vêm e vão, fazendo parte das nossas vidas.

Bojack Horseman (Foto: Netflix)

 

O desfecho da série

No final das contas, BoJack é o tal “Mr. Blue”. Inseguro diante dos erros que cometeu ao longo da vida, se manter afastado das poucas coisas que o fazem bem é um grande desafio. O confinamento em cadeia fez isso com ele, e o episódio final da série serve como um abraço reconfortante do protagonista aos seus fãs que torciam por ele mesmo após tantos problemas.

“Nice While It Lasted” (“Foi bom enquanto durou”, em tradução livre) é um episódio que serve como uma conclusão satisfatória para BoJack. Tendo a oportunidade de sair por um  único dia da prisão para comparecer ao casamento de sua antiga amiga Princess Carolyn, ele reencontra todos os principais amigos.

Tal como Diane, todos preencheram as lacunas existenciais exploradas desde o início da série. Mr. Peanubutter, pela primeira vez, não estava acompanhado por uma companheira, e com uma carreira ainda mais consolidada em Hollywoo (que recuperou o D desaparecido no letreiro). Todd está feliz e com a estabilidade que desejávamos para ele desde o começo de tudo. Princess Carolyn, além de ter achado um companheiro que entende seus tramas, entendeu que seu trabalho faz parte importante de sua vida e que não há como mudar isso. Com tudo isso estabelecido, o episódio desenvolve a ideia de que, se todos estão bem sem BoJack, o melhor a se fazer é manter tudo como está.

O protagonista entende isso e, a cada conversa que tem com seus colegas, sentimos um aperto no peito por conta do clima de despedida. Tudo isso nos leva à conversa entre BoJack e Diane. O papo tem seus altos e baixos, mas no final é uma reflexão sobre o lugar de cada um no mundo e sobre o lado benéfico dessa relação.

Logo depois disso, um silêncio tranquilizador (e não tenso, como costuma ser) domina a cena. Diane e BoJack olham para o céu estrelado enquanto entra a canção ao fundo. A voz de Catherine Feeny começa a recitar seus belos versos. Dentre eles, ressalta: “Não mantenha sua cabeça tão baixa que não você não consiga ver o céu”.