"O Escândalo" é o filme do Oscar 2020 que prometeu demais e entregou de menos

Exibido na 21ª edição do Festival do Rio, "Os Escândalo" narra as denúncias de assédio sexual, em 2016, contra o ex-chefão da Fox News, Roger Ailes.

O Escândalo
Foto: divulgação

Como o próprio título já sugere, O Escândalo, exibido no Festival do Rio e atualmente em cartaz nos cinemas brasileiros, é um filme que se relaciona com intrigas, trapaças e polêmicas.

Baseado nas denúncias de assédio sexual de jornalistas mulheres contra o criador e então CEO da Fox News, Roger Ailes (John Lithgow), o longa narra fatos datados em 2016, ano da eleição do hoje presidente da república nos EUA, Donald Trump.

Aliás, este foi um dos episódios que ajudaram a disseminar campanhas em repúdio ao machismo e abuso de poder dos homens na indústria audiovisual americana, como o MeToo e o Time’s Up.

Dirigida por Jay Roach a partir do roteiro de Charles Randolph, a produção foca no ponto de vista de três mulheres: Gretchen Carlson (Nicole Kidman), Megyn Kelly (Charlize Theron) e Kayla Pospisil (Margot Robbie). Todas vítimas de Ailes, sendo a última a única personagem ficcional.

Quem desencadeia todo esse processo de libertação e empoderamento é Gretchen, que perde seu posto de âncora na TV quando é injustamente demitida. Ela decide recorrer à justiça e, com a orientação minuciosa dos advogados, bota a boca no trombone para denunciar a conduta inadequada de Ailes dentro da estrutura organizacional da Fox News.

Gretchen busca o apoio de outras profissionais que também sofreram com abusos do ex-chefão, mas encontra dificuldades para ganhar reforços pois muitas mulheres ainda manifestam o medo de perder seus empregos e consequentemente destruir suas carreiras.

Porém, chega um determinado momento em que Megyn resolve finalmente se juntar a Gretchen e aí as coisas vão ficando cada vez mais complicadas para Ailes, que precisa lidar com a vergonha e a humilhação que chegam com as denúncias, além da imagem arranhada diante da opinião pública.

Enquanto o filme mostra as articulações que favorecem Gretchen e Megyn contra Ailes, Kayla é o retrato atual do que as veteranas encararam no passado. Ela é a jovem, ambiciosa (como todas as outras) e bela jornalista que se coloca na desconfortável posição de fazer quase qualquer coisa para agradar o chefão da casa. Há uma cena, no escritório do todo poderoso da Fox News, tão constrangedora que o espectador chega a se contorcer na poltrona.

O Escândalo

Apesar de ser a típica produção para se dar bem no Oscar, O Escândalo erra mais do que acerta. Prova disso é o longa ter ficado de fora das categorias principais da cerimônia deste ano.

Com apenas três indicações (Melhor Atriz para Charlize Theron, Melhor Atriz Coadjuvante para Margot Robbie e Melhor Cabelo e Maquiagem), é bem capaz do filme passar em branco nas duas primeiras categorias e levar apenas a estatueta dourada na última.

Talvez o grande equívoco tenha sido escalar um diretor para falar sobre uma história contada por mulheres. Por mais que tenha existido a colaboração de muitas das envolvidas, o desenrolar daqueles fatos deveria ser melhor esmiuçado através do olhar de alguém que poderia se identificar com aqueles casos em algum nível.

Mas, além disso, a narrativa é prejudicada pelos cortes rápidos e pela tentativa apressada de situar a trama. Ainda que Charlize e Margot tenham sido indicadas ao Oscar, e mereciam mesmo, nenhum personagem é aprofundado, ficando uma sensação no espectador de querer conhecer melhor aquelas trajetórias individualmente.

Por outro lado, O Escândalo apresenta ritmo ágil e cativa o espectador do início ao fim, prendendo sua atenção a todo momento. Embora na prática não tenha sido muito bem executado, o simples fato do filme tratar questões tão importantes para a sociedade atual, gerando reflexões e debates, já vale o ingresso de cinema.

LEIA MAIS: “E Então Nós Dançamos” traz romance entre bailarinos rivais da conservadora dança georgiana