Texto e entrevista por Nathália Pandeló Corrêa

Do início em um colégio no Alaska, há 13 anos, o Portugal. The Man trilhou um longo caminho – literalmente. Agora baseada em Portland, Oregon, a banda lança seu oitavo álbum de estúdio, Woodstock.

O nome remete a um dos grandes símbolos da contracultura, e não é por acaso. O novo disco do Portugal. The Man só ganhou forma após os músicos decidirem jogar fora quase todas as músicas que já haviam escrito (para um disco previamente chamado Gloomin + Doomin) e começar do zero a trabalhar em um novo projeto. Não dava pra continuar fazendo mais do mesmo – não com o mundo do jeito que está. E a inspiração veio do ingresso de Woodstock, que o pai do vocalista John Gourley guarda há quase 50 anos. A propósito, ele pagou US$8 pela entrada ao festival mais icônico que já existiu.

Woodstock deu sinal de vida desde dezembro do ano passado, com o single “Noise pollution”. Já em março, veio a música responsável pelo número 1 na parada alternativa da Billboard: “Feel it still”. Outros singles incluem “So Young” e “Rich friends”.

A banda chegou a lançar praticamente um álbum por ano, mas entre In the mountain in the cold, de 2011, e Evil Friends, foram dois anos. De lá até Woodstock, foram quatro, fazendo deste o trabalho de mais longa gestação para o Portugal. The Man.

“Nós trabalhamos com tantas pessoas incríveis nesse álbum, mas acabou com apenas nós quatro em um porão às 4 da madrugada tentando dizer algo importante. Tentamos escrever músicas para ajudar as pessoas a não se sentirem sós, mesmo que estejam com raiva ou se sentindo perdidas”, disse Gourley em entrevista para a Billboard americana.

Um mês após ter o disco no mundo, Kyle O’Quin (teclado, sintetizador) conversou com o Tenho Mais Discos Que Amigos sobre este novo momento da banda, volta ao Brasil e até uma improvável colaboração com o rapper Dame D.O.L.L.A. – também conhecido como Damian Lillard, o armador camisa 0 do time de basquete Portland Trail Blazers, por quem a banda torce. Como rapper, ele acaba de lançar o segundo disco, CONFIRMED. Confira abaixo!

TMDQA!: Olá, Kyle. Vamos falar sobre Woodstock! Apesar do disco ter músicas dançantes, também tem aquela sensação de que vocês falam sobre o clima político e social. Vocês comentaram sobre a música como um catalisador para mudança. Você acha que é a hora da música ser desafiadora e política?

Kyle O’Quin: É, sim… Se você olhar pra trás, todas as revoluções políticas, dá pra ver que a música não estava necessariamente ligada a elas, mas que foi um elemento importante de debate social. Então com certeza, acho que o momento pede isso.

TMDQA!: Da última vez que falamos com a banda – na verdade, a entrevista foi com o Zack – vocês estavam trabalhando em músicas novas, e isso foi um pouco antes do Lollapalooza Brasil de 2014. Entre o Evil Friends e Woodstock, vocês trabalharam por um tempo em outro disco que não chegou a sair, e começaram do zero no que viria a ser o Woodstock. Por que vocês decidiram ir numa direção completamente diferente e quais foram os desafios disso?

Kyle: Acho que é saudável pra uma banda não guardar tudo que faz, sabe? Prince descartava muita coisa, Michael Jackson no Thriller… Eles são prova disso. Nós já tínhamos feito um disco antes de Evil Friends que não saiu também. E nós somos uma banda de lançar um disco por ano, praticamente, então às vezes é bom dar uma pausa e avaliar o que se tem nas mãos. Estávamos trabalhando com produtores variados – fizemos coisas com o Mike D, com o Danger Mouse… Eles são ótimos, mas sentimos que estávamos perdendo a perspectiva das coisas. E como você comentou antes, o que definiu de fato esse disco foi esse clima político. Porque estávamos trabalhando com pessoas que vêm do hip hop e ouvindo coisas incríveis, ao mesmo tempo em que você vê bandas de rock só cantando sobre relacionamentos. E, bem, ninguém quer ouvir essa merda. Queríamos trazer um pouco de frescor pras composições e ao mesmo tempo fazer algo que fosse relevante e em consonância com o que está acontecendo no mundo.

TMDQA!: Certo! E falando em lançamentos recentes, vocês soltaram os remixes de “Feel It Still”, que provavelmente é o single definitivo desse álbum. Por que você acha que o público abraçou a música?

Kyle: Não sei… É uma vibração com uma batida boa, a linha de baixo é legal, boa pra se dançar. Temos visto muitas pessoas fazendo vídeos de dança na internet com essa música. Foi algo que nos surpreendeu bastante ver que as pessoas estavam curtindo, mas acho que se você cria algo que é divertido, tem um bom ritmo, as pessoas tendem a querer ouvir.

TMDQA!: Dá pra sentir no som de vocês algumas influências de clássicos, bandas de décadas atrás. Por que vocês escolheram abrir o disco especificamente fazendo referência ao Richie Havens, de todos os artistas que se apresentaram em Woodstock?

Kyle: É que foi a abertura do Woodstock, ele foi o primeiro a tocar. Mas aquele trecho é absolutamente incrível, a multidão assistindo ele daquela forma, é algo de arrepiar mesmo. Fazia sentido colocar isso bem no início do álbum.

TMDQA!: Mudando de assunto um pouquinho: estou supondo que vocês são torcedores do Portland Trail Blazers, a julgar pela bio no Twitter! O que vocês esperam da nova temporada e, mais importante: pra quando podemos aguardar uma colaboração entre o Portugal. The Man e o Dame D.O.L.L.A.?

Kyle: Engraçado, esses dias mesmo estávamos falando sobre isso! (Risos) Claro que não posso prometer nada, mas sim, somos grandes torcedores dos Blazers. Nosso baterista dificilmente perde um jogo, mesmo em turnê ele liga a TV pra assistir no ônibus, se der.

TMDQA!: Mas vocês realmente estavam pensando em tentar uma colaboração com o Dame?

Kyle: Sim, seria demais! A gente sempre vai aos jogos, quando estamos em Portland, o que não é muito frequente. Ficaríamos muito felizes se rolasse!

TMDQA!: Já faz um tempo que vocês estiveram no Brasil, com o trabalho no novo disco e tudo mais. Podemos esperar a turnê de Woodstock por aqui em breve?

Kyle: Uhm… Espero que sim! Definitivamente queremos voltar, a gente sempre recebe muitas mensagens de fãs do Brasil pedindo um show, é um público incrível. É que agora estamos com muitos compromissos, mas seria muito bom poder voltar aí. Vamos fazer todo o possível!

TMDQA!: Sei que vocês não têm nada a ver com Portugal, necessariamente. Mas se vocês vierem ao Brasil, saber um pouco de Português ou mesmo da nossa música poderia ajudar a quebrar o gelo! Vocês têm alguma referência nesse sentido?

Kyle: (Risos) Infelizmente, não! Todas as vezes que tocamos em Portugal, por exemplo, o pessoal pergunta sobre essa relação, se conhecemos o idioma ou algo do tipo, mas o máximo que conseguimos comentar é futebol, porque gostamos muito de jogar Fifa!

TMDQA!: Ah, aqui no Brasil o futebol é bem grande também, já dá pra puxar conversa.

Kyle: Exatamente!

TMDQA!: Bem, pra finalizar: o nome do nosso site tem muito a ver com a presença da música nas nossas vidas. Nós sempre pedimos aos músicos com quem conversamos para falarem sobre os álbuns mais importantes pra eles. Mas, como estamos falando de Woodstock, queria saber: se você pudesse voltar no tempo e ir ao festival, mas só assistir a um show… Qual show seria?

Kyle: Eu teria de dizer Jimi Hendrix. Eu sou natural de Seattle, e ele também. Claro que já vi muitos vídeos, tipo o Carlos Santana viajando em ácido e tocando muito, isso seria divertido assistir. Mas por ser da minha cidade e, bem, o maior guitarrista de todos os tempos, teria de ser Hendrix mesmo.

TMDQA!: Se só dá pra escolher um, que seja esse, certo? Bem, Kyle, os fãs do Brasil aguardam vocês.

Kyle: Com certeza! Muito obrigado!

 

 

 

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