O que teria acontecido se, após o sucesso avassalador de “Wonderwall”, o Oasis tivesse se afastado dos holofotes para produzir álbuns experimentais? E se a ironia de “Song 2” tivesse funcionado, e boa parte do mundo conhecesse o Blur por mais que um mero… “woohoo”?

Nessa sexta, temos um raro vislumbre de um futuro alternativo, de uma possível resposta a uma pergunta como essa: e se o Radiohead, em vez de adotar caminhos menos óbvios a partir de OK Computer (1997), aceitasse passivamente o status de hitmakers-do-rock-inglês que se construía até ali?

A resposta, ou o mais perto dela, está em “Lift”, faixa presente em OKNOTOK, reedição comemorativa dos 20 anos de OK Computer que saiu nessa sexta-feira (23).

“Lift” surgiu em 1996, um ano antes do lançamento de OK Computer, e nasceu com cara de hit. Testada nos shows em que o Radiohead abriu para Alanis Morrissette nos Estados Unidos, ganhava aplausos que outras novidades como “Karma Police” e “Paranoid Android” (com um final bem diferente da versão de estúdio) não ganhavam.

Durante as sessões do disco, “Lift” ganhou corpo. Virou queridinha dos poucos que tiveram acesso à ela antes do lançamento. Sozinha, prometia voos altos e distantes que a melancolia de “The Tourist” ou vinhetas como “Fitter Happier” jamais permitiriam.

E foi vetada da versão final justamente por isso.

Para os integrantes do grupo, “Lift” seria um golpe fatal na maneira como o Radiohead conduzia a relação com o mercado e com a própria criação, geraria muita pressão em cima da banda. Após sucessos como “Fake Plastic Trees”, “High & Dry”“Creep”, especialmente, tudo ficou grande demais.

Mesmo com a intenção de criar algo relevante e continuamente interessante, o Radiohead estava prestes a se desnortear. Abrir mão do sucesso raso era uma questão de sobrevivência.

Falando assim, parece que, sem “Lift”, OK Computer é um túnel direto para a abstração sonora, para passeios pela atonalidade, pela música livre. Não chega a isso. É, inclusive, relativamente cheio de sucessos, como poderíamos comprovar com as milhares de reprises do clipe de “Karma Police” nos tempos áureos da MTV.

A questão é que “Lift” é um exemplo muito óbvio do talento nato que Thom Yorke tem, ou tinha, de criar canções de fácil relação e extremamente emocionantes. Estilo descaradamente copiado por grupos como Travis, Muse ou Coldplay, que ao tentarem soar como o Radiohead, chegavam apenas a uma versão insossa do grupo de Yorke.

Mesmo com a certeza do sucesso comercial, o Radiohead seguiu os próprios instintos e caminhou para o outro lado. Assim, abriu espaço para a reinvenção explosiva de Kid A (2000) e Amnesiac (2001), e o resto é história.

A ironia disso tudo é que o Radiohead só teve o luxo de traçar o próprio destino por causa do sucesso comercial do início da carreira. Se “Creep” não existisse, The Bends e OK Computer seriam gravados com orçamentos bem menores, o que provavelmente limitaria as explorações sonoras da banda. Isso sem falar nas possíveis cobranças por singles de maior impacto, clipes performáticos, coisas assim. Justamente o que a banda temia ao desistir de lançar “Lift”.

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Em 2017, “Lift” é um pequeno brinde, uma graça valiosa. Sem dúvida. Mas acrescenta pouco a OK Computer, um dos discos definitivos dos nossos tempos. Entre os outros b-sides inéditos, apenas a paranoica “Man of War” se encaixaria com facilidade no disco original. O restante se faz essencialmente de lindas sobras, mas que não deixam de ser sobras.

Foi a escolha certa, sem dúvidas. Não há prova maior que o maravilhoso refrão de “Lift” ecoando em meus ouvidos há horas e horas e horas. Se hoje está impossível escapar dela, imagine só em 1997, tocando no rádio, na TV, no comercial de seguro automotivo, nas constrangedoras rodinhas de violão…

Melhor assim.

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