Spotify
 

Por Conrado Muylaert

Bruno Telloli é o responsável direto pelas mil e uma playlists que ajudam o usuário do Spotify a não perder tempo caçando músicas para seu gosto dentre milhares existentes na plataforma. Está tudo ali pronto para todos os gostos, e dividido por nomes diretos ou fantasiados.  Por que ouvir rádio então? Pra que comprar um disco?

Bruno, hoje Senior Editor – Shows & Editorial do Spotify Brasil, sempre atuou na área musical, e em outros serviços famosos como Vevo, MySpace e Apple, para depois assumir o posto de responsável por montar as playlists do Spotify.

O TMDQA! conversou com Telloli para entender o universo das playlists do serviço de streaming, buscando o obter o máximo de informações para o artista novo que tenta um lugar ao sol, ou melhor, na playlist oficial Spotify. Confira a entrevista abaixo:

TMDQA!: Para começar, queria saber sobre sua formação… você estudou algo ligado à comunicação social, música ou tecnologia?

Telloli – Claro, na verdade eu sempre trabalhei com música, em outros serviços e, agora, no Spotify. Então, eu sempre estive no meio.

TMDQA!: Quando você chegou no trabalho, primeiro dia, como foi? Suas funções foram logo passadas ou sofreu alteração com o tempo?

Telloli – Não, as funções permaneceram, mas à medida que a plataforma cresce, a responsabilidade e o cuidado de curadoria com as playlists aumenta. São mais usuários ouvindo e mais gêneros musicais que a gente precisa cobrir mas, mesmo assim, a diversão de trabalhar continua a mesma.

TMDQA!: É divertido como parece trabalhar com música dessa forma?

Telloli – Trabalhar no Spotify é bem bacana, uma empresa muito organizada. Por aqui, sempre se trabalha em equipe, um ajudando o outro, claro que sempre tem as cobranças, mas a empresa tem profissionais que sabem lidar bem com isso.

TMDQA!: O Spotify tem o primeiro lugar entre os serviços de streaming. Para mim, ao menos, o que me motivou a usá-lo foi o serviço de playlists, que é incomparável em relação aos demais. Tenho ouvido falar sobre a migração das gravadoras em relação ao assédio que realizavam nas rádios para os serviços de streaming. As grandes gravadoras já tem influência na formação das playlists ou o Spotify mantém a autonomia?

Telloli – O Spotify é autônomo, a decisão final sobre as músicas entrarem ou não nas playlists é totalmente da minha equipe. As gravadoras têm suas prioridades, assim como os selos independentes, que são as músicas que estão trabalhando, mas a decisão final é do Spotify. E isso não vai mudar.

O jabá é proibido dentro da empresa. O Spotify tem outros meios de ganhar dinheiro e repassar esse dinheiro para as gravadoras. Tem os anúncios dentro da plataforma, a cobrança dos usuários premium, entre outros. Mas jabá de música em playlist não existe dentro da empresa.

TMDQA!: Os músicos independentes veem com muita esperança os serviços de streaming como a possibilidade de expor seus trabalhos sem a necessidade de selos ou gravadoras. Porém, só fazer o upload não muda muita coisa na vida do artista. Mas, entrar nas playlists parece ser uma grande chance para os novos talentos. Uma música desconhecida que entra, por exemplo, nos lançamentos da semana Spotify, pode se tornar um hit em alguns dias, certo?

Telloli – Na verdade, entrar numa playlist não quer dizer que vai virar um hit. Primeiro a música tem que ser boa, e quem decide se a música continua ou não numa playlist é o usuário. A gente tem ferramentas que indicam qual a porcentagem dos usuários que ouviram, qual a faixa de importância da música dentro de uma playlist. Então, quem decide se a musica será um hit ou não é o usuário. Claro que a exposição dada por uma playlist é grande, mas nossas ferramentas mostram o que o usuário está ouvindo dentro de uma playlist. Tem muito artista que tem essa ilusão de que entrar numa playlist vai mudar a carreira mas é uma via de mão dupla. O artista tem que divulgar, não basta o Spotify. E o público tem que gostar.

Existem, sim, casos em que o artista entrou na playlist e atingiu milhões de plays, mas, sempre depende da música ser boa e o usuário gostar. É o caso do Alok, do Far from Alaska, que entraram em playlists não só do Brasil como no resto do mundo. Mas se continua na playlist é porque o usuário gosta. São milhares de músicas entrando todo dia na plataforma, e o que nós fazemos é identificar as músicas boas que talvez o usuário goste.

TMDQA!: Existe o formulário para novos artistas, o pitch Brasil, facilmente achado na internet. Vocês realmente ouvem? Você tem ideia da porcentagem ouvida dentre as musicas enviadas?

Telloli – A gente ouve todas as músicas. Então, a gente tem milhares de músicas que foram enviadas e tenta ao menos uma vez por semana dividi-las em diferentes blocos e ouvir. Vale lembrar que, na minha equipe, são várias pessoas que tem acesso aos formulários e a gente quer ouvir tudo. Tem muita gente boa por aí que não tem o devido espaço de atenção de outros veículos e esse formulário foi criado para todo mundo poder mostrar seu trabalho.

TMDQA!: Você, caso goste de um som novo, tem a liberdade de colocá-lo em qualquer playlist que tenha ligação com o gênero, ou deve haver uma separação do material independente e do mainstream?

Telloli: Tenho a liberdade de botar em qualquer playlist. Claro, tem playlists do Spotify voltadas para novos artistas e a gente sabe que se colocar um artista novo em playlist com artistas bombados, o artista começa a ser meio massacrado ali dentro e é complicado. Por isso, existe uma série de playlists para o usuário descobrir músicas novas, ouvir novos sons. Então, primeiro fazemos um trabalho dentro dessas playlists para, depois, se a música for crescendo, espalhar por outras playlists e ir acompanhando todos os dados para, depois, dar um retorno para o artista ou selo.

TMDQA!: Agora, queria falar sobre o rock no Brasil. Especialmente em relação aos artistas independentes. Você consegue ver uma luz no fim do túnel? Algumas pesquisas que circulam pela internet informam que o rock tem apenas 4% de popularidade no Spotify.

Telloli – Na verdade, a gente não fica muito de olho na porcentagem do gênero musical, até porque a gente sabe que cada um tem seu nicho. Acho que o importante é a galera que faz rock conquistar quem curte o gênero. As coisas mudaram muito nos últimos anos. Antigamente, as bandas tinham na cabeça a ideia de tocar para massa. Hoje em dia, o artista quer tocar para o público que curte o som. Claro que, se tem um público ouvindo rock, a gente tá de olho nessa galera e tenta oferecer o melhor conteúdo, seja nacional ou internacional. Isso ocorre tanto para o rock quanto para outros estilos. Claro que a gente tenta oferecer o melhor do rock e também dar chance para novos artistas.

TMDQA!: Para terminar, você teria algum conselho para uma banda de rock brasileira, ainda pequena e desconhecida do grande público, para conseguir explorar ao máximo o Spotify como plataforma para alavancar sua carreira? Há alguma maneira de se conseguir mais exposição dentro do Spotify, como nas redes sociais, nas quais quanto mais você interage, mais consegue aumentar seus círculos?

Telloli – O conselho que eu dou é, primeiro, conquiste quem curte seu trabalho, trabalhe sua rede social também divulgando, além de texto e vídeo, o link do Spotify. E, dentro do Spotify, os artistas podem ver com seu selo ou distribuidora maneiras de deixar seu perfil mais ativo, como criação de playlist, painéis de controle para ver quantas pessoas estão ouvindo, quais as playlists estão sua música. Então, tem diversas ferramentas que o Spotify disponibiliza para o artista para ele usar.

TMDQA!: Só para complementar a pergunta anterior, vocês acompanham as playlists independentes e os artistas que estão com suas músicas em várias dessas playlists?

Telloli – Sim, a gente acompanha e sabe em quantas playlists o artista está inserido, seja o artista ou determinada faixa, e a gente também consegue ver quais são as 50 maiores playlists que geram plays para o artista. E tem artistas que conseguem muita exposição em playlists de usuários comuns, o que mostra que o usuário usa o Spotify como rede social, ouvindo e descobrindo novos sons. A gente sempre fica de olho porque sabe que tem usuário especialista em certo gênero musical, e a gente quer saber o que tá acontecendo de novo. A galera do Spotify também vai a eventos, shows, festivais para saber o que tá acontecendo offline também.