Animais Noturnos
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Animais Noturnos é umnovo filme do estilista Tom Ford, que logo de cara nos promete a tese que planeja avançar, que é sobre nossas decisões de conforto estético. Isso é apresentado em um ballet-cabaret que em princípio visa desafiar nosso senso sobre o belo e o adequado. Ele, famoso, rico e atormentado compreende bastante destes temas. Sobre se ocultar, mostrar ser aquilo que não é, sobre a necessidade de escolher o que mostrar. Porém é difícil de negar a ideia de que existe uma dissonância entre aquilo pelo qual é tão conhecido e aquilo que planeja colocar à crítica, já que seu ganho de vida e aquilo que critica vivem basicamente no mesmo mundo.

O filme possui outros três dentro de si. No primeiro segmento vemos a personagem de Amy Adams em sua vida atual, esteticamente irreparável, quase asséptica, quase racional, quase morta. Ela então recebe um manuscrito do ex-marido (Jake Gyllenhaal) e tem então a oportunidade de ver a vida através dos olhos de quem ela já admirou. Seu romance e a imaginação dele iniciam o segundo segmento, com tons de suspense policial, que conta a história de uma família destruída por criaturas da noite, impiedosas e homicidas, e a caçada a esses seres cruéis. Este trecho busca deixar algo bastante claro, de que todo monstro é humano e que em cada humano há um mostro à espreita, e nele há o melhor do filme, que são as interpretações de Michael Shannon (Indicado ao Oscar de Melhor Ator Coadjuvante) e Aaron Johnson.

No outro segmento, vemos a história do casal e como a herança de cada um resultou tanto na admiração mútua quanto a derrota de suas existências. Dele, a capacidade de empatia tanto via a tristeza alheia tão bem escondida, mas também impedia de ver as consequência daquilo que lhe era óbvio no olhar. Dela vemos dilemas fúteis, escolhas estéticas e egoístas. Tudo nela parece tão cruel quanto confuso. Um animal noturno que ataca ao passo que está acuado. Deste modo e ao olhar para as consequências do romance escrito pelo ex-marido e a cena final do filme, é quase impossível negar o teor misógino do roteiro. Aqui, ela é uma megera destinada à infelicidade que ela mesma cavou. Ele é apenas um “romântico atormentado”, mas suas estratégias de revanche são tão infantis quanto fúteis.

Animais Noturnos é um filme com uma noção de autoimportância que é preenchido com um conteúdo confuso, deslocado e que traz uma ironia torpe sobre as relações humanas, e que quanto mais se aprofunda mais se mostra como um bolso bastante vazio.

Fica a reflexão sobre a noite. Sobre ser ou não ser um Animal Noturno e suas consequências. A noite é vista como sinônimo de algo a espreita, obscuridade, a opressora marca que causa a ausência de som que emana das estrelas. Solidão. Fitar o pouco brilho pela janela com seus olhos tristes e ateus. Essas são as criaturas da noite, os animais noturnos. Mais confusos do que perigosos, mais rasteiros do que altivos, mais caçado do que caçador. Os passos sombrios são de medo, carregados por criaturas que lhe expulsam a saúde. Sem nunca se pôr de manhã, sem deixar sombra no chão, chorando e uivando quando o mundo dorme e assim de dia sempre parecer forte.