Lau e Eu
 

Honesto, sincero, verdadeiro. Poderíamos estar usando esses adjetivos para descrever a sonoridade do Lau e Eu, mas eles vão além.

Como você poderá perceber nas próximas linhas, eles se encaixam perfeitamente para retratar também a personalidade de Lau, músico de Aracaju que está lançando um EP chamado Café Frio com canções que misturam de forma belíssima, e sem exageros, música brasileira, rock alternativo e as fritações psicodélicas lá de fora.

Conversamos com o cara que está por trás do projeto que tem cara de carreira solo e jeito de andar de banda e instantaneamente viramos fãs tanto da sua sinceridade quanto da forma como ele vê o mundo e o mercado da música.

Divirta-se!

 

TMDQA!: A sonoridade de vocês impressiona, chegando a soar como uma banda que já está há anos na estrada, mas o grupo está começando as atividades agora. Como e quando a banda se reuniu e que tipo de experiências moldaram o som do grupo de lá pra cá?

Lau: A gente se reuniu num surto, se encontrou algumas vezes logo em seguida, lembro do Fabinho (bateria) com uma caixa de papelão fazendo batuque, o Heder (guitarra) com um violão Kashima sem duas cordas e o Fillipe (baixo) perguntando o que desgraça a gente estava fazendo, e também não entendi direito o que era aquela coisa toda. Eu nunca tive grana pra comprar equipamento, acho que o que faz uma banda soar interessante é a verdade que cada um arrasta, não adianta tocar numa Fender de 15 mil reais com o pedalboard do Kevin Parker (ou Ruban Nielson, acho esse rapaz uma gracinha) e sair por aí tentando imitar o Unknown Mortal Orchestra ou qualquer outra banda gringa que está totalmente longe da nossa realidade enquanto música, país, condição e tudo mais. Esse tipo de posicionamento ajuda a criar “Fake Plastic Bands”, como diria o Tonzin York. A receita de soar legal é não soar, só ser o que é. Sem querer imitar o brother que mora no velho mundo e tem tudo na mão (ou no palco).

TMDQA!: Que influências nacionais e internacionais foram importantes para o processo de composição desse novo EP?

Lau: Funks cariocas em geral, o meio alternativo tem ojeriza ao mainstream mas cai no mesmo precipício mercadológico, é tudo igual, só que com chorus, delay e fritação (risos). Brincadeiras à parte, o conceito de “pop brasileiro” influenciou bastante, é no mínimo curioso ver “Macabéa (Café Frio)” ao lado de “Malandramente” numa playlist do Spotify, e tirando o machismo e os lirismos constrangedores eu não vejo muita diferença (“Culpa” d’O Terno é outro exemplo muito bom dessa pseudo-falsa modéstia que o alternativo adora). Coisas clichês e saudosas como Sonic Youth, Clube da Esquina, Lou Reed, Clarice Lispector e até mesmo Dream Theater entram no pacotinho de referências.

TMDQA!: Parte projeto solo, parte banda, como você, Lau, enxerga a identidade do grupo?

Lau: Os shows ao vivo são uma loucura, as pessoas dançam, outras cantam, algumas vão embora xingando a gente, é um mix bem doido, mas sempre levamos a certeza de que aquilo chocou alguém (de um jeito ou de outro). Por um lado é solo porque os caras têm outras prioridades e projetos, já do outro é banda porque a gente toca junto e faz os arranjos também. Prefiro não rotular, gosto de pensar que é um projeto com uns caras que fritam legal, não sei se precisa ser necessariamente as mesmas pessoas com as mesmas experiências sonoras sempre, mas o que a gente ou “eu” sou agora? Sei lá, existir como alguma coisa quase relevante já é o suficiente por agora (risos).

 

TMDQA!: O Lau e Eu é uma banda que já nasce na era da Internet e em um momento onde o streaming ganha cada vez mais espaço. Como vocês consomem música hoje em dia e como veem o mercado como artistas?

Lau: O mercado? É desesperador, você precisa existir em todos os lugares, sacar de design, edição de vídeo, planejamento, fazer networking (bem), morar em SP, ser bonito, legal, atencioso com as pessoas que caem de paraquedas na sua página do Facebook, postar vídeo no YouTube pra que elas saibam que você está vivo e fazendo coisa nova, e ainda por cima FAZER MÚSICA BOA, um caos! Mas ao mesmo tempo é bom, você sabe pra onde as coisas caminham e percebe as nuances em cada canto do seu trabalho. Acho que YouTube e Spotify é o que a garotada mais consome música na internet hoje em dia, e acho que eu tô no meio dessa garotada, sorrindo e sofrendo.

TMDQA!: Macabéa (Café Frio) ganhou um clipe divertido que tem a ver com a canção. Como foram os bastidores desse vídeo e quem foram as pessoas que toparam participar pra tomar um banho de café na cabeça?

Lau: “Loucura” – com essa palavra eu explico tudo: gravamos o clipe no porão da minha casa, usamos um pano branco que custou 3 reais, e MUITO CAFÉ solúvel na cara dos meines que toparam. Rolaram algumas ações pra reunir a galera pro clipe, uma delas foi fazer um show no lugar da gravação e com a ajuda de amigos, conhecidos, fãs e haters conseguimos um material interessante. O Luan Allen dirigiu e editou em parceria com a Milk e o resultado tá lá no YouTube pra todo mundo ver.

TMDQA!: O som de vocês tem sido muito bem aceito e agora é hora de espalhá-lo pelo país. Vocês irão excursionar em breve?

Lau: A ideia é que sim, entramos numa parceria com a Brain Productions e estamos negociando possibilidades e estudando maneiras de tornar isto viável. Enquanto isso nadamos nesse barquinho ensandecido que é a internet.

TMDQA!: Você tem mais discos que amigos?

Lau: O que é disco? Esse negócio não existe mais, uma radiola custa 1000 mini-temers no eBay, um vinil bom 100 (no mínimo), com essa grana eu começo a gravar um clipe legal (risos). Se você chegar pra molecada de hoje em dia e fizer essa pergunta eles vão rir de você e responder que “tem mais playlists do que crushes” e essa frase vai vir com um meme da Inês Brasil. Fico imaginando o Hendrix tirando selfies e gravando vídeo pro Snapchat, ele já teria desistido (risos). A democratização da música no século XXI transformou o mercado num “disco” do Syd Barrett, bonito pra quem ouve, desesperador pra quem faz.

 
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