Mark Jansen, do Epica

A América do Sul não é estranha ao Epica. O sexteto holandês de metal sinfônico passou por aqui em todos os ciclos de divulgação de discos recentes, fazendo shows pelo continente com direito a inusitadas participações em programas da TV aberta brasileira no longínquo ano de 2005.

Agora que está com álbum novo, The Holographic Principle, lançado no fim do mês passado, a banda não poderia deixar de voltar a pisar em solo latino.

É possível que essas visitas frequentes tenham a ver com a paixão dos fãs sul-americanos – descritos por Mark Jansen como “barulhentos, apaixonados”. O guitarrista conversou conosco em antecipação ao Epic Metal Fest, que acontece neste sábado em São Paulo e promete sete horas de shows ininterruptos, culminando com a apresentação do Epica no palco principal.

Leia abaixo!

epica

TMDQA!: O seu sétimo disco de estúdio, The Holographic Principle, acaba de ser lançado. Para quem ainda não o ouviu, gostaria que você explicasse o conceito e os temas por trás dele.
Mark: A maior inspiração que tivemos para este álbum é uma teoria, desenvolvida por cientistas, que afirma que podemos estar vivendo em um holograma. Todos nós, o mundo inteiro, até o universo inteiro. Parece loucura, mas quando você se aprofunda no tema ele começa a fazer sentido – se sua mente for aberta, claro. É possível que, em 20 anos, o avanço da tecnologia nos permita criar um novo universo e, quem sabe, perceber que o atual era uma invenção. É uma viagem! 

TMDQA!: A Simone (Simons, vocalista) mencionou que a banda havia escrito quase 30 músicas e, depois, escolheu 12 para o álbum. Como foi o processo de gravação dele? Como vocês escolheram o que entraria no disco e o que seria engavetado?
Mark: Pegamos essas 30 ideias para músicas e as ensaiamos com a banda inteira. Depois, selecionamos as que nos soaram melhor e melhoramos elas no estúdio, adicionamos partes novas, demos uma cara nova para elas. No final, gravamos 18 músicas e algumas, mesmo não abordando o tema central do álbum, eram tão boas que não poderíamos deixá-las de fora. As que sobraram poderão entrar em material futuro.

TMDQA!: Agora que o Epica tem sete álbuns, imagino que esteja ficando mais difícil escolher as músicas a serem tocadas ao vivo. Como estão montando o setlist para as turnês do novo trabalho?
Mark: Primeiro ouvimos o que fãs querem, depois pensamos nas que nós queremos tocar. Se tocamos muitas vezes a música é possível que iremos deixá-la de lado por um tempo. É um processo de tentativa e erro: tocamos as faixas novas e vemos quais são bem recebidas. As que não são, guardamos e reimaginamos para shows futuros. É importante que os fãs curtam o momento, mas nós precisamos nos divertir também.

TMDQA!: E como tem sido a reação às canções novas que vocês já estão tocando ao vivo? 
Mark: Tem sido surpreendente! Quando você não conhece a música ou não a ouviu o suficiente, é normal ficar mais parado, mas já temos observado reações ótimas dos nosso fãs. Talvez eles já ouviram o disco novo muitas vezes, ou talvez as músicas em si funcionem bem. 

TMDQA!: Você esteve em bandas durante toda sua vida. Viu as pessoas comprarem CDs, e agora isso deu lugar aos serviços de streaming. De um ponto de vista financeiro, está mais difícil ser músico agora do que era há 15 anos? Como você aconselharia um jovem que está em seu quarto compondo suas primeiras músicas? O que ele deveria saber sobre a vida de um músico profissional em 2016? 
Mark: Primeiro de tudo, é bom esclarecer que eu nunca vivi a vida de quem vende muitos álbuns. O After Forever (banda que antecedeu o Epica) era pequeno, de alcance regional. Nunca vendemos um milhão de álbuns, e o Epica nunca será uma banda extremamente rica, mas esse nunca foi nosso objetivo inicial. Por mim, desde que possamos viver disso estarei satisfeito. Não sou um gastador compulsivo. Quanto à minha dica: faça-se visível na internet. Se você encontrar um caminho para as pessoas te verem e ouvirem, tudo fica mais fácil depois. E a internet pode ser uma grande bênção nesse aspecto.

TMDQA!: Com mais de vinte anos de carreira, como acha que amadureceu? Pode ter aprimorado sua técnica na guitarra, ou aprendido a lidar melhor com a banda como um negócio…
Mark: É difícil me ver como um businessman, embora a banda seja uma espécie de negócio. Eu não a vejo assim. Estamos, sim, fazendo um produto, mas não é dessa forma que quero enxergá-la. Meu pai foi um homem de negócios, e ao ver quanto trabalho ele tinha jurei que nunca faria aquilo, mesmo que eu tivesse talento para tal. O Epica cresceu, mas prefiro ainda vê-lo apenas como arte. Como músico eu aprendo algo novo todos os dias, porque nunca paramos de aprender. Às vezes são coisas pequenas, como usar seu dedinho de forma diferente; ou você encontra um cara que te ensina todo tipo de coisa nova.

TMDQA!: O Epica já tocou no Brasil várias vezes e vocês estão voltando para o nosso primeiro Epic Metal Fest. O que lembra das vezes em que esteve aqui e o que podemos esperar do show?
Mark: Nós fomos muitas vezes mesmo, e em todas fomos recebidos com muito barulho e paixão. Gosto quando vocês cantam junto, não só as letras mas as melodias da guitarra. Nesse show de sábado nós tocaremos novas músicas, e como o álbum já terá sido lançado há duas semanas tenho certeza que um pessoal já saberá algumas músicas para cantar conosco.

TMDQA!: Você tem mais discos que amigos?
Mark: Depende do que você vê como ‘amigos’. Se formos falar apenas dos verdadeiros, aqueles pra quem posso ligar de madrugada e contar sempre com a companhia, sem dúvida terei mais discos.