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Os ataques terroristas de 11 de Setembro de 2001 mudaram o eixo da geopolítica mundial, e são símbolos de uma série de transformações políticas e sociais que mal começamos a ver. A atual crise da imigração na Europa, por exemplo, é apenas mais um capítulo de um futuro ainda desconhecido, mas que remete diretamente aos acontecimentos daquela manhã clara do outono norte-americano onde tudo começou a mudar.

Os ataques não demoraram a reverberar na produção cultural do ocidente, e influenciaram livros, filmes, séries e, claro, músicas. Os temas ficaram mais sombrios, os vilões tornaram-se reais e os super-heróis, falíveis. E é justamente sobre essa fragilidade, sobre essa decadência, que trata o trabalho mais importante da carreira do compositor americano William Basinski.

Algumas horas antes dos ataques, no dia 10, Basinski finalizou as gravações que integrariam The Disintegration Loops, uma experiência sonora com raízes no início do trabalho de Basinski como músico, no início dos anos 1980. Recém-chegado de Houston a Nova Iorque, Basinski gravava transmissões radiofônicas de orquestras como a 101 Strings em fitas magnéticas. Em seguida, ele manipulava a velocidade das gravações e incluía efeitos para obter novas texturas e sons, arranjando tudo isso em loops infinitos influenciados pelo experimentalismo de compositores como Steve Reich e Brian Eno. Eventualmente, Basinski abandonou as gravações em um quarto esquecido do loft onde morava com amigos, onde as fitas permaneceram por quase 20 anos.

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No verão de 2001, Basinski reencontrou as fitas, então dadas como perdidas por ele. Ao tocar algumas delas, descobriu melodias belas e hipnóticas, e decidiu digitalizar o material antes que o tempo arruinasse de vez as gravações. Era tarde demais. Ao botar uma das gravações para tocar, Basinski percebeu que havia algo de errado com a melodia. Supostamente um loop, ou seja, uma repetição de si mesmo, o áudio soava progressivamente diferente. Ao verificar a fita, percebeu que a cada giro os metais da fita literalmente se desintegravam, apodrecidos pelo tempo, alterando o som das gravações a cada volta pelo rolo. A todo instante, notas desapareciam, se esticavam ou ganhavam novos tons, e Basinski decidiu gravar tudo isso, dando uma nova identidade aos registros.

No dia 11 de Setembro de 2001, Basinski acordou com as duas torres do World Trade Center em chamas. Ele as via da janela do apartamento onde morava, no Brooklyn, e enquanto acompanhava o noticiário na TV, foi surpreendido pelo grito de um vizinho que alertava a queda da Torre Sul, a primeira a desabar dos dois prédios. Basinski subiu ao telhado do prédio para observar a poeira e a fumaça que davam lugar a um dos grandes símbolos do capitalismo, e de lá, acompanhado por diversos vizinhos, viu a Torre Norte cair.

Certo de que era o início do apocalipse, Basinski botou as gravações que havia finalizado no dia anterior para tocar no último volume, com todas as janelas abertas, e sentou-se no telhado para observar a fumaça que insistia em sair do que restava das torres. Por horas, ele e alguns amigos olharam para a fumaça ao som das gravações pútridas, que desapareciam a cada volta da fita, até que um vizinho reclamou da intensidade do quarto loop. Basinski desligou a música, mas antes de encerrar o dia, botou uma câmera para filmar o pôr-do-sol de Manhattan coberto pela poeira, e mais tarde assistiu ao vídeo ouvindo “dlp 1:1”, a primeira e mais emocionante faixa do projeto.

Ao longo dos dois anos seguintes, Basinski lançou os loops em quatro volumes distintos batizados de The Disintegration Loops, e usou frames do vídeo como capa para cada um deles. Pouco a pouco, na base do boca-a-boca, a série ganhou notoriedade e admiradores ao redor do planeta, até ser reeditada em um boxset com 9 LPs em 2012, que incluiu duas versões tocadas por orquestras reais de “dlp 1:1” (imperdíveis), um livro e um DVD com o vídeo filmado por ele, que atualmente integra a exposição permanente do Memorial 11 de Setembro. De lá para cá, Basinski é um artista admirado e respeitado no cenário de música experimental, e segue produzindo e experimentando novas ideias.

No entanto, seu maior legado é, indiscutivelmente, The Disintegration Loops. Musicalmente, é impossível passar incólume à audição de qualquer uma das faixas do disco, repletas de uma tensão constante mesmo nos momentos mais tranquilos. E contextualmente, The Disintegration Loops se revelou um marco na história da ambient music e o retrato sonoro perfeito de um marco da história da humanidade – mais que uma obra de arte, um documento histórico.