É de se imaginar que os membros das bandas mais populares da música moderna sejam, no mínimo, um pouco arrogantes e bastante seguros de si mesmos. Essa impressão não é de todo errada – atire a primeira pedra quem nunca viu Sebastian Bach esbanjando confiança ou Corey Taylor criticando alguém.

Às vezes, no entanto, essa pode ser só uma faceta de quem o artista realmente é. Richie Faulkner, guitarrista do Judas Priest – um dos pioneiros do heavy metal – não deixou o sucesso subir à cabeça e, em conversa bastante produtiva com o TMDQA!, demonstra priorizar os fãs e a diversão acima de qualquer luxo que o legado do grupo possa lhe trazer.

É verdade que Faulkner, caçula do grupo tanto em tempo de banda (desde 2011) quanto em idade (“apenas” 36), presenciou apenas uma pequena fração desse legado. Mas nesse curto espaço de tempo ele já viajou o mundo, se apresentou para milhares – talvez milhões – de fãs ensandecidos, e viu seu primeiro disco de estúdio com o Judas Priest (Redeemer of Souls, de 2014) ser um dos mais bem recebidos de toda a carreira da banda.

Em nossa conversa, Faulkner falou sobre tudo isso: a recepção, o legado, os fãs, e o objetivo de nunca tomar o sucesso como garantido. Leia abaixo!

Richie Faulkner, do Judas Priest

TMDQA!: A banda é uma verdadeira lenda do heavy metal, com mais de 40 anos de estrada e diversos discos influentes na bagagem. Você viveu só uma fração desse tempo até aqui, mas como enxerga internamente o legado do grupo? Qual é a sensação de estar no Judas Priest?
Richie: O elemento mais importante de todo esse legado, do nome que a banda tem, é o comprometimento dos membros. Entrei há pouco tempo, mas já foi o suficiente para ver que os fãs são uma prioridade. E temos muitos! [risos]. Nossos shows têm uma atmosfera meio orientada às famílias, então pensamos nisso na hora de montar o setlist. Essa é a sensação que tenho por estar aqui: somos inclusivos e estamos sempre tentando melhorar.

TMDQA!: Há alguns dias Kerry King do Slayer disse que bandas como Metallica e Iron Maiden “vivem do passado” e não fazem discos bons há muito tempo. Como você enxerga essa difícil balança entre material de catálogo e inéditas para o bem da banda, dos shows, das turnês e tudo mais?
Richie: Quando você tem um legado como o Judas Priest tem, não há como ignorá-lo. Ele é um presente, uma bênção. Se não abraça o seu passado, acaba largando as perspectivas futuras. E nós sempre vamos querer fazer a melhor música possível, levando em conta o que já fizemos no passado.
Estamos indo para o estúdio logo, e queremos que [o novo álbum] seja o melhor de todos – é assim que honramos nosso legado. O Judas Priest é um pioneiro da música, e isso deve sempre ser levado em conta na hora de escrever um novo capítulo dessa história.

TMDQA!: O último disco do grupo, Redeemer Of Souls, foi muito bem recebido por público e crítica, e Rob Halford chegou a falar que a resposta lhe surpreendeu e inspirou para novas músicas em breve. Como foi saber que após tanto tempo um novo trabalho, e justamente o seu primeiro, foi recebido positivamente pelos fãs a ponto de comover o líder da banda?
Richie: É uma sensação que me deixa lisonjeado. Eu já tocava ao vivo com a banda antes de fazermos o disco, e quando chegou a hora, percebi que é uma experiência totalmente diferente. Vi o disco estrear bem nas paradas, vi ele lá entre os mais vendidos, bem no meio de discos de country e de hip hop, e isso reafirma o poder do metal.
Nós não iremos embora tão cedo, e nunca tomamos nenhum tipo de sucesso como garantido. Apenas buscamos fazer nosso melhor.

TMDQA!: Falando em vendas, você presenciou as mudanças que a indústria fonográfica passou nas últimas décadas. Acredita que, com a pirataria e a internet, é mais difícil manter uma banda atualmente?
Richie: Sempre foi difícil. Sim, antigamente vendia-se muito mais álbuns, e temos que nos acostumar a vender menos agora. Temos que ser cada vez mais originais e comprometidos. Mas fazer música não é sobre ganhar dinheiro, e sim sobre levar seu trabalho ao maior número possível de pessoas. Não dava pra levar tão longe antes – hoje, qualquer garoto em seu quarto consegue levar sua música a bilhões de pessoas.
Existem novas possibilidades que compensam a baixa venda do CD, por isso é bem provável que as bandas jovens nunca saibam o que é vender milhões de discos, mas elas conseguirão alcançar milhões de pessoas. Não existe uma solução real para a pirataria, então o errado e o certo dessa discussão dependem do lado em que você está. São dois lados da mesma moeda.

TMDQA!: Em Março vocês estão lançando um DVD ao vivo gravado no Wacken festival. O que podemos esperar desse lançamento em vídeo? Como é a experiência de tocar em um evento de grande porte, sentir a atmosfera e registrar o trabalho?
Richie: Foi o primeiro show do Judas Priest no Wacken em mais de 25 anos, e temos tanta, tanta confiança nas pessoas que produziram esse festival. Tocamos músicas que não tocávamos há anos, tocamos músicas novas, dividimos o palco com bandas que já fizeram shows com o Judas antes… a produção do nosso show foi ótima, temos uma equipe incrível ao nosso lado. Estou ansioso para o lançamento do DVD.

TMDQA!: E sobre esse novo álbum? Já pode comentar algo sobre ele?
Richie: Temos apenas novas ideias no momento, mas nada pronto. Como disse antes, em breve entraremos no estúdio e veremos o que sai de lá. A única coisa que posso comentar é que sempre buscamos ser melhores, e dessa vez não será diferente.

TMDQA!: Você tem mais discos que amigos?
Richie: Tenho um pouco de ambos! [risos]