O primeiro álbum do The Clash é reconhecido por ser um marco de uma das maiores bandas de punk-rock que já existiram. O disco foi universalmente aclamado por críticos e alcançou um grande sucesso nas vendas, tanto no Reino Unido quanto nos Estados Unidos. Entretanto, o disco sofreu problemas em ser aceito por algumas gravadoras americanas. Ou, pelo menos, esse é o caso da Epic Records, uma das marcas a recusar o disco.

Ao responder uma carta feita por um fã, pedindo o lançamento do álbum nos Estados Unidos, Bruce Harris (executivo da gravadora) afirma que, apesar de ser fã da banda, o som do Clash não era ‘feito pra rádio’ e iria falhar miseravelmente se fosse lançado no país. A maior crítica de Harris em relação ao disco é a produção do álbum, a qual ele afirma ser ‘inferior’ a de muitas bandas da época.

O disco, que foi lançado no Reino Unido pela CBS, não teve um lançamento oficial nos Estados Unidos tão cedo. A própria CBS também decidiu que o álbum não era ‘ideal para a rádio’ e só disponibilizou o trabalho por importação. O álbum acabou virando o disco importado de maior sucesso nos Estados Unidos entre 1977 e 1978, com mais de 100 mil cópias vendidas.

Após perceber que eles mesmos ‘falharam miseravelmente‘, a Epic Records voltou atrás, remodelou uma versão nova do disco do Clash e lançou em 1979 nos países norte-americanos, logo após a banda ter soltado seu segundo disco de estúdio, Give ‘Em Enough Rope.

Logo abaixo você pode ler a carta na íntegra.

29 de Novembro, 1977

Querido Paul:

Agora que você me explicou como a rede funciona, me deixa te contar um pouco sobre ‘como a banda toca’.

Infelizmente, as decisões da A&R não são totalmente baseadas no gosto e preferência musical. Pode ser difícil de acreditar, mas eu sou um fã do Clash. Porém, minha responsabilidade não é de lançar álbuns que eu gosto, mas sim álbuns que eu acho que trarão dinheiro para esta companhia. (Você pode considerar esse tipo de opinião como imoral ou sei lá mas eu me consideraria imoral por aceitar pagamento da CBS e não realizar essa obrigação do melhor jeito que eu puder. Seria fácil pra mim sentar aqui e dizer que eu gosto de The Clash, gosto de The Adverts, gosto de Blondie, mas isso não é nenhuma realização. A sua presunção de que lançar um disco do Clash mudaria a estrutura do mercado musical americano, a rádio FM, imprensa, etc. é falsa. De acordo com a minha experiência no mundo musical, é claro pra mim que o álbum do The Clash falharia miseravelmente nesse ponto de vista.

Também é importante notar que o álbum do Clash, apesar de toda sua qualidade (que é evidente em suas letras esmagadoras, a música estonteante e a performance febril), não é acompanhado bem pelo seu nível de produção, o que é uma enorme desvantagem. A performance ao vivo da banda é muito melhor do que está no disco e eu preciso questionar a integridade artística de criar um álbum inferior (sonoramente). Não é um julgamento artístico válido dizer que a produção é deliberadamente ruim porque isso é new wave e música new wave não segue as mesmas regras de outros gêneros, etc. Isso é se esquivar. O disco dos Sex Pistols, por exemplo, é produzido de maneira correta e por esse motivo ele soa bem forte e captura o poder da banda. Eu acho que o The Clash pode fazer álbuns melhores que esse primeiro e esses discos vão ser os que a gente vai escolher trazer pro mercado Americano.

Eu tenho um profundo interesse em fazer o punk rock ‘acontecer’ nos Estados Unidos mas eu acho que somente o produto da melhor qualidade (que nem o disco do Sex Pistols) pode alcançar isso.

A falha não está nas gravadoras. Seus comentários sobre as rádios estão corretos mas se você der um passo a frente, eu acho que você poderá ver que são as rádios que estão bloqueando o progresso aqui, e não os produtores de discos. A Sire Records está lançando vários discos new wave, mas nenhum deles recebeu muita atenção ou acabou vendendo bastante. Pessoalmente, eu espero que isso tenha acontecido parcialmente devido à qualidade baixa da maior parte desses produtos. Entretanto, como qualquer novo movimento, o punk irá tomar seu tempo. Talvez seja o segundo disco do Talking Heads que irá ser lançado, ou talvez os Dead Boys vão ficar um pouco melhores no que estão fazendo.

Eu acredito que o Clash é melhor que qualquer outro nesse campo com exceção dos Sex Pistols e eu estive bem envolvido em guiar a produção de seu segundo álbum. Eu não quero que eles soem que nem Fleetwood Mac — eu quero que eles soem como o Clash que são e não uma banda amadora.

O seu interesse é maravilhoso e, ao mesmo tempo em que nós discordamos, eu realmente fiquei feliz de ouvir sua voz levantar das ruas me dizendo para onde ir. Esperançosamente, o próximo disco do Clash vai ser melhor para nós e nós lançaremos ele aqui. Enquanto isso, você estará feliz em saber que a Columbia Records vai lançar o próximo álbum do Vibrators no próximo ano, ou que a nossa Blue Sky irá lançar o disco solo de David Johansen e a Epic vai lançar um álbum de um novo grupo da Inglaterra chamado Masterswitch. Para que a ‘new wave’ vire permanente, ela tem que rolar do jeito certo.

Meus cumprimentos,