O sorriso que Lenine coloca no rosto de quem ouve as canções dele está presente quando chega ao telefone para nossa conversa. Muito simpático e humilde, ele é um daqueles artistas que deixam você muito mais fã ao conhecer. Nessa semana, desde a terça até a próxima sexta, ele apresenta o seu novo álbum, “Carbono”, em uma temporada esgotada no Theatro Net Rio. É só o começo de uma turnê que pretende surpreender plateia e crítica e ter essa resposta: lotação completa.

Aproveitamos o ótimo momento e conversamos novamente com o cantor e compositor, dessa vez sobre o disco e sobre seu processo de criação, o que faz dele um dos artistas mais inventivos do Brasil.

TMDQA: O nome do seu disco é “Carbono”. E a arte feita em carbono tende a ser algo temporário, que vai sofrer uma colorização. Uma finalização. Mas para a ciência, é a matriz da vida. Para você, parece ser diferente. O que é o Carbono pra você?

Lenine: É o somatório dessas duas. Primeiro sim, carbono é a base da vida. Pelo menos, dessa que conhecemos. Mas algo que me atraiu foi a alotropia do carbono. É a característica de interagir com outros elementos, de se modificar com outros elementos. O nome chegou já carregado com essa carga de significados.

TMDQA: O “Chão” era algo muito diferente de tudo. A sonoridade era diferente, os detalhes no disco e os próprios shows. Como que você virou essa chave do Chão para entrar nessa sonoridade do Carbono?

Lenine: Sempre você começa um trabalho interrompendo o anterior. (Risos) E realmente foi assim. Ainda tinha uma procura pelo show do “Chão” no final do ano passado. Acho que se não tivesse parado com o projeto, ainda estaríamos por aí com ele.

Essas características do “Chão”, de ser algo sensorial, quadrifônico, migrou totalmente pro “Carbono”. É uma equação que não dá pra voltar atrás. Já gravamos pensando nisso, construindo equipamentos para melhorar a experiência.

Hoje a equação “espetáculo” está presente o tempo todo e isso é muito bacana, afinal interfere na hora de criar. Seja qual for a formação de banda, seja a atual, ou a do “Chão”, sem bateria e percussão e com sons do cotidiano, já estamos pensando quadrifônico, em 5.1.

TMDQA: Uma coisa que notamos em Carbono é a volta da bateria e da percussão em peso. Isso surge lindamente em “A meia noite dos tambores silenciosos”. Isso mudou muito a estrutura do show…

Lenine: Desculpa te interromper, mas isso é algo muito legal. Pois penso que uma coisa é fazer o disco, buscar a beleza sem saber o que vai dar, trabalhar com a experimentação e o desconhecido. Outra é transformar esse algo, adequar isso da experimentação para o palco. O que é disco, é disco; o que é show, é show. E é gostoso ter essa diferenciação.

Essa orquestra de “A meia noite dos tambores silenciosos”, a Orkestra Rumpilezz, vai ser impossível reproduzir ao vivo, são muitos músicos nessa faixa. Vamos tentar reproduzir a emoção que ela passa. O sentido de oração desse encontro dos maracatus. O disco é uma equação totalmente diferente do palco. O palco é o fim das contas. É lá que você tem certeza do que faz. É lá que tenho essa ligação intima com quem gosta do que eu faço.

TMDQA: A sua obra é coesa apesar de ser formada de obras bem singulares. Tem vários momentos do novo disco que uma canção me lembra um outro trabalho seu. Uma me lembra do “Falange Canibal”, outra do “Labiata”… Isso é algo proposital ou só um acaso bonito?

Lenine: Olha… Grande parte é casual, mas seria desonesto se falasse que tudo é… (Risos) Muito é causal, sabe? Minha música é que nem uma cebola, você vai tirando as camadas e pode ir descobrindo citações. Sou grande fã do Kubrick. Adoro o significado dentro do significado dentro do significado… (Risos)

TMDQA: Nesse disco você traz novos parceiros para compor. Entre eles, o Posada, que é um ótimo novo nome por aí. Quando surgiu a parceria com ele? Sei que você já tocou algumas vezes com o Clã.

Lenine: Eu sou curioso, cara! (Risos) Tenho 3 filhos que trabalham com música, todos em gerações diferentes e que me municiam muito além da minha curiosidade.

Compor pra mim é um instrumento de transformação e aproximação. E no disco eu posso procurar alguém com quem nunca trabalhei e que admiro. Foi assim com o (Vinícius) Calderoni. Foi assim com o João (Cavalcanti), meu filho, com quem nunca tinha escrito antes.

Sou um cara curioso, aprendi assim. Aliás, reafirmo aqui a coletividade do que faço. Minha música é coletiva.

TMDQA: Isso é incrível! Os criadores tendem a ser muitas vezes egoístas com o que criam.

Lenine: Egoísmo eu até entendo. Egolatrismo, não. O primeiro é você pensar em você e isso é inerente ao ser humano. Já o segundo é achar que você é o centro de tudo. Isso sim é um problema sério!

TMDQA: Esse lado coletivo fica evidente nas suas parcerias. Recentemente você gravou com o Capital Inicial, certo? Pro novo acústico deles…

Lenine: Recentemente fiz música com Capital Inicial, Anitta, Bochecha, Thiaguinho… Não acredito em gênero, no adjetivo. Música não deve ter adjetivo. É música e ponto. Na verdade, música e reticências… Pois nunca tem fim! (Risos)

Gosto de rearfirmar sempre a ausência de limite da música. Não tenho preconceito, não. Aliás, esse é o grande tesão da história: descobrir o que existe de comum até no que parece mais distante. E sempre vai existir. A música é muito generosa, irmão.

TMDQA: Meses atrás, falei com o Jorge Drexler e ele me disse que adora fazer turnês diferentes para poder brincar de mexer nos arranjos das músicas. Você também mexe bastante no formato das músicas. Você se diverte fazendo isso?

Lenine: Muito. É uma parte muito divertida. É como colocar sua canção com sua vestimenta. Pra ir na praia, no domingo, você coloca uma sunga e um chinelo nela. Já pra ir no Municipal, você coloca o smoking na canção. (Risos) Dependendo da roupagem, as músicas ganham outras dimensões e dá um novo significado.

TMDQA: Você tem mais discos que amigos?

Lenine: Sim, muito! (Risos) Tenho mais discos que amigos, mas ouço mais os amigos que os discos!