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Dauton Janota é músico, economista e fundador da plataforma Pleimo.com, que tem como objetivo apoiar bandas independentes a disponibilizarem suas músicas em streaming para que elas sejam remuneradas e, principalmente, de forma justa.

Publicamos aqui um artigo do cara a respeito das bandas independentes na era digital onde ele fala sobre como o mundo da música mudou e que hoje é necessário entendê-lo para poder, sim, ir em frente e viver de música.

Como já dizia John Lennon, Power to the People!

A indústria da música tem um problema. E faz tempo. Para ser exato, desde 1999, quando surgiu um software chamado Napster, que permitiu a qualquer pessoa fazer downloads de arquivos musicais de graça. Não vou me alongar nesse ponto porque você já sabe o que aconteceu dali por diante: ninguém compra mais CDs, as gravadoras minguaram e nada mais foi como antes.

É preciso, no entanto, entender melhor que problema é esse. E, principalmente, analisar em profundidade a situação daquele que é o coração criativo dessa engrenagem: o músico. Do que sobreviverão os artistas? De onde podem retirar o sustento para manter seu trabalho? Já existe um caminho possível. É sobre isso que tratarei aqui.

Minha preocupação com esse assunto vem do fato de que, antes de empresário e investidor, sou músico. Minha maior paixão é pegar uma guitarra e viajar por riffs de Jimi Hendrix e Jimmy Page. Um dia sonhei viver de música. Mas, assim como tantos outros, vi na prática que isso não é nada fácil. Senti na pele como é difícil levar adiante o sonho de ser músico profissional, especialmente agora, na era digital, quando não existe mais a possibilidade de ser remunerado pela venda de CDs.

A boa notícia é que essa mesma era digital que bagunçou o coreto também começa a jogar a favor do músico. A questão é que, para participar desse novo mundo, é necessário rever conceitos, visões e aproveitar as novas oportunidades. No caso dos artistas, agora mais do que nunca é necessário ter uma atitude proativa em relação à própria carreira.

Relação direta

E assim chego à questão principal: a chave para a sobrevivência do músico está no fato de que agora ele pode – e deve – estabelecer uma relação direta com seu público. No novo mercado da música, sobreviverão aqueles que se envolverem e engajarem seus fãs. Essa é a base para o surgimento de um novo modelo de negócios da música, ainda em seus primeiros passos, que abre uma alternativa para a sustentação de bandas e artistas independentes.

Esse modelo de negócios está baseado no mercado de streaming, ou música na nuvem, mas não para por aí. O futuro para os músicos é sistema que combina o streaming, no qual o consumidor paga pelo acesso ao conteúdo, e o engajamento do fã, um dos emblemas da cultura digital. Colocado de outra forma, é dar poder ao usuário para decidir que músico ele deseja remunerar a partir da mensalidade paga pelo serviço.

O que assistimos até recentemente era apenas metade dessa história, ou seja, o surgimento de plataformas de música digital que cobravam do consumidor, mas não remuneravam o músico. O valor da mensalidade ia apenas para o site e/ou gravadoras. A evolução desse sistema, agora, é o fã escolher, a cada mês, por exemplo, que banda ele gostaria que recebesse uma porcentagem da mensalidade estipulada.

Isso é tão simples que o leitor poderá dizer: “Mas por que não pensaram nisso antes?” Eu respondo: porque faltou pensar no músico. As grandes soluções geralmente são as mais simples e vão direto ao ponto.

O que aconteceu é que se pensou apenas nas empresas digitais e, eventualmente, nas gravadoras e no usuário, o que está certíssimo. Mas, para essa engrenagem realmente funcionar de modo saudável, era preciso também encontrar uma maneira de remunerar aquele sem o qual nada acontece, o criador da obra.

“Netflix” dos músicos

Para o argumento ficar mais claro, a solução é adaptar para o setor musical um modelo a la Netflix. Baseado na nuvem, ele funciona perfeitamente porque é bom para o consumidor (é cômodo e viabiliza o acesso aos filmes por um preço bem modesto, na casa dos R$ 20) e para o dono do conteúdo.

Existem, porém, serviços de streaming de música no mercado hoje que são amados pelos usuários, mas odiados pelos músicos, que pouco ou nada recebem por ter suas canções acessadas. A plataforma de streaming que não remunera o artista está equivocada, pois contribui para matar a galinha dos ovos de ouro. Se o artista não recebe pelo seu trabalho, em algum momento ele deixará esses players de lado.

Destrinchando melhor a ideia, é importante haver plataformas que congreguem artistas do mainstream e os independentes, que são responsáveis por 95% de toda a música produzida no mundo. Isso é valioso porque, por meio de um bom sistema de recomendação via algoritmos, é possível indicar a um usuário que busca por álbuns do Foo Fighters, por exemplo, uma série de bandas independentes similares que você nunca ouviu falar, como o Rose Hill Drive, grupo americano criado nos anos 2000. O usuário vai ouvir, provavelmente gostar e pode destinar parte do valor da assinatura à banda.

Assim, seus artistas preferidos encontram uma solução para não morrerem na praia depois do primeiro CD, ops, álbum. No fundo, isso tudo que defendi aqui faz parte de uma filosofia: dar poder às pessoas. É power to the people, como já disse John Lennon em uma de suas canções mais marcantes.

Não se trata, é claro, de uma ideia que, sozinha, resolverá a todos os problemas. Mas ela atua no ponto nevrálgico, o que é essencial. Estamos apenas no começo de uma grande evolução. O que se deve ter em mente é que, se músicos e fãs estiverem juntos nessa jornada, todos vencerão, e isso se estende aos demais players da cadeia, como produtores de shows, comunicadores, plataformas, empresários e – por que não? – selos e gravadoras. Não tenho dúvidas de que, dessa maneira, podemos começar a escrever uma nova história virtuosa para  o mercado da música.

Pleimo

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