E os outros filmes?

Gravidade: uma das experiências mais incríveis em um cinema dos últimos anos. Se você não viu e só vai ver em casa, talvez não tenha o mesmo impacto. A história é boa, com a dose certa de tensão sob um dos mais grandiosos usos de efeitos sonoros, visuais e de finalização em muito tempo. O que incomoda é as pessoas focarem tanto em procurar referências, metáforas, erros científicos e sentidos para afirmar que o filme é bom ou ruim. Sério, pessoas. O filme basta por si só e tá na hora de voltarem a falar sobre ele e não sobre metáforas de morte e nascimento e coisas do Kubrick. Cuarón deve vencer o prêmio de direção, o que é justo. Ele faz um ótimo trabalho há anos e as pessoas não prestam atenção.

Trapaça: filme bom, divertido, mas esquecível. O diretor David O. Russell atira para todos os lados, todo ano, na busca de algo dar certo… Ele mirou no Scorsese, mas logo no ano que o original tá participando… Não funcionou. Ele é bom com atores, mas ninguém lá tá fazendo nada tão inacreditável assim. Eu não votaria em nenhum deles, que concorrem nas categorias de atuação.

12 anos de escravidão: O filme, que parece ter 12 anos de duração, vem como um dos favoritos pelo tema e mexeu com muita gente seja pelo peso de suas cenas de tortura ou só por uma culpa histórica. A história de um homem livre que é vendido como escravo é um tema forte e genuíno em tempo onde denúncias racistas e situações grotescas surgem todo dia, mas o (inacreditavelmente supervalorizado) Steve McQueen estraga o filme de todos os modos possíveis. Seja em gerar antipatia e falta de ligação com o protagonista ao mesmo tempo que traz uma força para o personagem que deveria ser o vilão vivido por Fassbender, seja na última cena diminuindo a melhor personagem feminina do filme ou nos quarenta minutos de contemplação do horizonte, com folhas caindo que são passam mais emoção que o ator principal. A trilha é horrível e tem grandes atores em performances abandonadas em meio do filme. É uma pena que uma obra que foca mais no sofrimento do que na força tenha ganhado status de símbolo do negro no cinema atual. O negro é forte.

Philomena: Taí um filme que tinha tudo para ser ruim. A história da mãe em busca de um filho que parece tão melodrama ganha força na química dos protagonistas Steve Coogan e Judi Dench, inacreditavelmente forte na tela e da leve polêmica com a igreja. É um filme que não tem grandes chances, mas que vale ser visto com uma pipoca grande.

Clube de Compra Dallas: Quem diria que um filme com Jared Leto e Jennifer Garner teria destaque pela atuação? Sim, esses dois. Talvez o mundo só tenha notado agora, ou com “True Detective” ou na participação em “Lobo de Wall Street”, mas o Matthew McConaughey é um bom ator (que devia ter um agente péssimo). O filme que conta a história de um homem aprendendo a lidar com a AIDS em tempos de preconceito contra o aidético é um filme de personagens, logo, de atores. Matthew leva o filme nas costas. Jared leva mais pela maquiagem e pelos vestidos.

Capitão Phillips: Thriller daqueles de ficar na ponta da cadeira, é mais uma prova que Paul Greengrass é um senhor diretor desse gênero. Os louros desse filme vão para ele e para o casting que selecionou os coadjuvantes, que estão ótimos, principalmente Barkhad Abdi, o líder dos piratas somalis. Não dá para não ver o Tom Hanks ali, mas o filme é tão bom que você aceita o fato que o Tom Hanks é capitão (ou não).

Álbum de família: Esse filme é desconfortável. É uma DR de 2h30. Mas é exatamente isso que torna o filme bom, a realidade que aquilo passa. Todos no elenco estão excepcionais, principalmente Julia Roberts e Meryl Streep. Mas essa última já era óbvio, como diz o Cam de “Modern Family”, ela pode fazer o Batman que vai estar legal.

Blue Jasmine: Esqueça a polêmica, Cate Blanchett entrega uma atuação incrível e hipnotizante como Jasmine, a ex-rica que perde tudo e que está viciada em remédios. As nuances apresentadas por ela só fazem crer que o texto do Woody Allen foi escrito para a atriz. É a grande favorita e a grande merecedora.

A grande beleza: Fellini conhece o século XXI. Assim como nos filmes do mestre italiano, onde personagens boa vida fazem quase nada e tudo fica bonito pelo carisma dele, o filme do diretor Paolo Sorrentino parece uma grande homenagem a isso, com uma visão mais decadente. É um filme louco e deliciosamente divertido como “Holy Motors”, lançado anos atrás.

Inside Llewyn Davis – Balada de um homem comum: E de homem comum não tem nada. É só um cara chato e sem carisma que você torce o filme inteiro para que se ferre. É um filme menor na filmografia linda dos Coen, visualmente lindo, mas que não faz jus ao período da ascensão do folk. Vale pela boa atuação de John Goodman, da pequena e bizarra participação de Adam Driver e do gatinho fofo.