The Killers

The Killers

Este post dá sequência ao especial da coluna Faixa Um sobre o Lollapalooza Brasil, que ocorre no fim do mês. Na semana passada, a coluna abordou o Queens Of The Stone Age.

O ano era 2004 e “Somebody Told Me” era o hit internacional mais recente nas rádios do Brasil. O “dance rock” – ou seja lá o nome que você quer dar para aquele estilo de pop rock dançante com guitarras e sintetizadores que virou moda no meio dos 2000 – ainda nem havia estourado, mas eu já não tinha muito saco para bandas assim.

Não compreendia o porquê de uma banda com um nome tão bom como The Killers tocar algo do tipo, em vez de uma mistura insana de hardcore e The Rolling Stones, pelo menos. Mas lá para o fim do ano, cedi ao sucesso estraçalhador de “Mr. Brightside”, enfrentei meu preconceito e peguei o álbum de estreia do quarteto, Hot Fuss.

É normal ficarmos com letras grudentas ou solos de guitarra na cabeça, mas pouquíssimas vezes uma linha de baixo nos conquista como a de “Jenny Was a Friend Of Mine”, faixa que abre Hot Fuss. Rola uma “She”, “Another One Bites The Dust” ou “Around The World” vez ou outra, mas não é comum. E depois de ouvir o álbum inteiro, minha cabeça insistia em tocar a primeira faixa dele, do início potente ao refrão melódico e grandioso.

Apesar de abrir o primeiro álbum do Killers, “Jenny Was a Friend of Mine” encerra a trilogia de canções escritas por Brandon Flowers sobre o assassinato (provavelmente fictício) de uma garota chamada Jennifer pelo ex-namorado. Após o fim da relação em “Leave The Bourbon On The Shelf” – lançada posteriormente na coleção de outtakes Sawdust, de 2007 – e o crime em “Midnight Show”, faixa dez de Hot Fuss, aqui o eu-lírico argumenta de forma cínica para alguém, talvez a si mesmo, que jamais faria mal a Jennifer. Claro, essa interpretação toda é subjetiva, mas dá visibilidade aos planos precocemente megalomaníacos de Flowers, vocalista, letrista e dramático-mor do quarteto.

Aprendi na marra que o The Killers não era apenas mais uma entre trocentas bandas do tal “rock dançante” que eclodiram até o fim da década passada. Oriundo de Las Vegas, o grupo mostrou de cara uma identidade forte com arranjos de guitarra muito bem trabalhados por Dave Keuning, o baixo de Mark Stoermer e a bateria de Ronnie Vannucci Jr. perfeitamente sintonizados e os vocais dramáticos de Flowers, perfeitos para coros e multidões. Eventualmente os quatro acabaram consumidos pela cafonice e pelo auto-plágio – com exceções, claro. Mas lá naquele verão de 2004 eles tinham tudo para se tornar uma das maiores bandas do planeta, e conseguiram.