Aerosmith - Music From Another Dimension

Aerosmith - Music From Another Dimension

Não é fácil gostar de Aerosmith. Por mais que você tente convencer os críticos de que a banda tem bons discos calcados no blues e no rock n’ roll, o legado de cafonices e exageros é muito maior – especialmente entre as gerações mais novas. Após 11 anos sem um álbum de inéditas (o último foi o fraquíssimo Just Push Play), o quinteto prometeu voltar à velha forma em Music From Another Dimension!, o 15º da carreira.

Nos últimos anos o Aerosmith esteve à beria do abismo diversas vezes, principalmente por causa da relação conflituosa entre o vocalista Steven Tyler e o guitarrista Joe Perry. Mas a banda pareceu ter se acertado em uma longa turnê mundial (que passou pelo Brasil em 2010 e 2011), e arremataram a boa fase com a convocação de Jack Douglas, reponsável por clássicos como Toys In the Attic (1975) e Rocks (1976), para produzir o novo trabalho. O saldo prometia ser positivo, e Music From Another Dimension! reúne alguns dos melhores momentos do Aerosmith em décadas. O problema é que, apesar dos acertos, o disco tem momentos simplesmente péssimos.

O álbum começa com “LUV XXX”, uma faixa com bons riffs e levadas de bateria que ecoam Permanent Vacation (1987) e Pump (1989). Supostamente inspirada em Beatles, a faixa não empolga de cara e certamente não será analisada no Faixa Um, mas passa no teste. A música seguinte, “Oh Yeah”, é um rock n’ roll clássico que finalmente faz jus à expectativa criada em torno do álbum, apesar dos vocais contidos de Tyler.

“Beautiful” reflete o Aerosmith mais moderno e produzido de álbuns como Get a Grip (1993) e o subestimado Nine Lives (1997), e “Tell Me” é a melhor balada do disco, mesmo com o refrão anticlimático. Até aqui, tudo vai relativamente bem. Mas a partir de “Out Go The Lights” Music From Another Dimension! parece começar a patinar.

“Out Go The Lights” é o ápice do álbum, e minha favorita desde a primeira vez que ouvi o disco. O riff principal e os solos de Joe Perry funcionam tão bem que a própria banda parece admitir isso: a música acaba por volta dos 4 minutos, mas recomeça em uma jam que praticamente dobra sua duração. O problema é que o refrão de “Out Go The Lights” é exatamente igual à introdução de “Legendary Child”, a faixa seguinte do disco e o primeiro single do álbum.

“Legendary Child” (assista ao clipe no fim da página) já não é grande coisa – foi descartada pela primeira vez durante as sessões de Get a Grip, há quase 20 anos – e o trecho reproduzido em “Out Go The Lights” não acrescenta absolutamente nada à música. Na verdade, é a parte mais arrastada e sem graça dela. Talvez em uma entrevista futura o grupo explique qual foi a intenção de fazer isso, mas à primeira audição é impossível entender o porquê. Uma pena.

Depois de “Legendary Child” surge o segundo single do álbum, a balada “What Could Have Been Love”. Uma balada melosa, arrastada, que não rende nem momentos divertidos no karaokê. “Street Jesus” e “Lover Alot” são as mais roqueiras entre as 15 faixas lançadas, e por alguns instantes conseguem resgatar a energia perdida. Sozinhas, no entanto, são incapazes de salvar a segunda metade de Music From Another Dimension!.

Baladas genéricas como “Can’t Stop Lovin’ You”, “Closer” e “We All Fall Down” – além de “Another Last Goodbye”, que fecha terrivelmente o disco – só servem para tirar o brilho de Music From Another Dimension!. O problema não são as baladas em si; estamos falando da banda que estourou com “Dream On”, e ao longo da carreira fez marmanjos e moças se derreterem com “Angel”, “What It Takes” e “Crying”. A questão é que elas simplesmente não convencem, não grudam na cabeça nem emocionam em momento algum. O álbum tem ainda a política “Freedom Fighter” e o blues “Something”, ambas compostas e cantadas por Joe Perry, que não somam nem atrapalham o fluxo do disco.

Por um lado, Music From Another Dimension! surpreende positivamente por resgatar um lado do Aerosmith que muita gente acreditou estar extinto há muito tempo. Mas por pressões comerciais ou simplesmente medo de desagradar os fãs radiofônicos, o grupo perdeu a oportunidade ideal de voltar ao topo para se sujeitar mais uma vez ao gosto momentâneo e volátil das paradas de sucesso. E enquanto isso nós continuaremos a nos explicar, cada vez com menos argumentos a nosso favor.

Nota: 6