Nada Surf é uma daquelas bandas com um público fiel e que não se preocupa em fazer hits ou chegar em milhões. Eles se importam em fazer o que amam. E isso transparece da sinceridade e intensidade das músicas até na conversa que tivemos com o frontman Matthew Caws.

No processo de divulgação de Never Not Together, nono disco da banda, ele comenta a sua fase atual e a do grupo, que parece ser super tranquila e delicada. Confira abaixo a conversa ao som do disco.

TMDQA!: Estou feliz de falar com você pois a banda é parte da minha vida com música. Eu comecei a ouvir vocês quando tinha 12 anos. Isso foi 18 anos atrás e continuo ouvindo. Como você se sente ao conectar com diferentes gerações?

Matthew Caws: Me sinto bem… Apesar de ser meio estranho, confesso! (Risos) Minha relação com envelhecer mudou muito nos últimos anos. Antes eu ouvi muito que envelhecer é aprender a esquecer. E eu discordo. Sinto que carregamos tudo nas costas. Sei que soa meio dramático, mas sinto que hoje eu sou o mesmo cara que tinha 12 anos, que tinha 22, que tinha 41 e que terá 60. Acho maravilhoso conectar com pessoas bem mais jovens, afinal, seria inevitável… O tempo passa! (Risos) Mas estou feliz de conseguir dialogar com pessoas com a mesma idade que a minha também.

TMDQA!: Muitas bandas que já estão na estrada há algum tempo tendem a cair numa zona de conforto e ficar tocando o material antigo. Mas vocês mantém o pique. Compor é algo que te faz bem? Que ajuda a manter a mente firme?

Matthew Caws: Sim, definitivamente. Foi algo que me salvou. Mas o principal que tenho feito é conseguir desligar. Eu ando fazendo muita meditação nos últimos anos. Nossa, se eu soubesse o bem que isso me faz quando tinha tipo 15 anos… Me ajudaria tanto! (Risos). Aprendi a valorizar o tempo e respirar com calma. Deixar tudo no palco e depois desligar.

TMDQA!: E o que mudou no processo desse disco?

Nada Surf: Duas coisas, principalmente. A primeira é que todos queriam estar envolvidos no projeto inteiro. Muitas vezes no final, na parte de mix, eu ficava meio sozinho. E o segundo é que eu mesmo estava num lugar melhor na minha vida, sabe? Aí consegui me preocupar mais com a música do que com os meus problemas.

TMDQA!: Never Not Together me soou como se vocês tivessem falando como estamos todos sozinhos na era das conexões. Você acha que música e arte pode ser um modo de conectar as pessoas de volta?

Matthew Caws: Sim, mas sinto que isso da solidão é sintoma, parte de um todo. Antes de nos conectar, precisamos conectar com nós mesmos. Vejo muito isso com política. Precisamos criar algum tipo de tolerância e união. Sei que as coisas estão complicadas aí no Brasil, que as pessoas estão se odiando que nem aqui. Por mais que eu odeie tudo que o nosso presidente faz e pensa, sinto que temos mais em comum com quem votou nele do que pensamos. Não consigo acreditar que uma multidão pode ser terrível, pessoas individuais podem ser. Mas multidões podem ser mal guiadas e precisamos de civilidade.

TMDQA!: Concordo! Mudando agora para algo um pouco mais leve, falando sobre shows: podemos começar a falar “come to Brazil para vocês”?

Matthew Caws: (Sim) Pra ser sincero estávamos com quase tudo certo para ir em setembro, se não me engano. Só que a data bate com a volta dos meus filhos pra escola e preciso estar aqui. Quem sabe ano que vem? Adoro ir aí.

TMDQA!: O nome do nosso site é tenho mais discos que amigos. Você tem algum disco que é um amigo pra você?

Matthew Caws: Sim! Engraçado que estávamos falando comentando sobre a passagem do tempo e os 3 discos que mais me marcaram vem da minha infância. Quando eu era pequeno, vivia na casa do meu melhor amigo. Ele tinha um irmão mais velho que estudava no exterior, fazendo intercâmbio, e era um cara super interessante, que curtia arte e sabia de muitas coisas novas. Um dia, quando ele voltou de um tempo fora, ele nos chamou para o quarto dele e nos apresentou três discos. Eram o Rocket to Russia, do Ramones; o Loaded, do Velvet Underground e o Remain in Light, do Talking Heads. Ali tudo mudou pra mim. Curioso que tem te de tudo ali, arte, punk, pop, rock… Isso me marcou tanto que sinto até hoje que esses discos são como casa pra mim.