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Crédito: Rafael Jannuzzi

A pré-estreia do novo curta-metragem do diretor Fábio Brandão, Delphine, aconteceu no Cine Joia, em Copacabana, na zona sul do Rio de Janeiro, na noite do último dia 18, reunindo equipe, elenco, convidados e a imprensa.

O evento, que teve produção da SLK Comunicação, de Roby Amaral, contou com a presença dos atores Louise Clós, André Ramiro (o Mathias de Tropa de Elite), Giovanna Muricy, Daniel Baroni, Raphaela Palumbo e Josias Duarte. Eles, assim como Fábio, falaram sobre a experiência de trabalhar em um projeto audiovisual totalmente independente e colaborativo.

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Foto: Rafael Jannuzzi

Todos também lembraram de histórias divertidas vividas dentro do set e a parceria para realizar um trabalho que ficasse marcado na carreira e na vida das pessoas. Dirigido e roteirizado pelo próprio Fábio, o curta de 30 minutos é um conto de terror com pitadas de poesia e romance.

Na trama, Delphine (Louise Clós) é uma jovem roteirista franco-brasileira desafiada por si própria a contar uma história de terror. Mas para isso, ela vai superar suas frustrações, medos e expectativas. Diógenes (André Ramiro), um coach nada convencional, vai ajudá-la nessa missão e mexer com a cabeça da protagonista, despertando sensações pouco confortáveis.

Com um novo projeto já engatilhado, Story Telling, Fábio Brandão conversou com o TMDQA! sobre Delphine e também sobre seu ousado próximo filme. O resultado da entrevista você confere a seguir:

TMDQA!: Há algumas semanas, aconteceu a pré-estreia de Delphine e o público reagiu super bem ao curta. Da mesma forma que você joga a pergunta para a plateia, como você definiria a sua protagonista?

Fábio Brandão: Eu acho que a Delphine é uma menina que me define de muitas maneiras. Ela é intensa e é uma menina que gosta de viver e sentir as coisas. Quando ela resolve escrever um conto de terror, ela na verdade está querendo viver aquele terror, não sabendo que já vive um terror.

É difícil definir Delphine, estou aqui quebrando a cabeça. Ela quer viver um grande amor que talvez ela não tenha vivido, ela quer ter a coragem que talvez ela não tenha, ela quer viver experiências diferentes que talvez ela não tenha vivido. Tudo isso é algo que vai aterrorizando a cabeça dela.

Essa experiência com esses personagens cria uma espécie de alter ego para Delphine. Ela entra em parafuso nesse processo e os personagens vão ficando maior que ela. Delphine é sonhadora, mas frágil, ela tem medo de não conseguir as coisas e não tem muita confiança em si mesmo. Por outro lado, é extremamente talentosa e sensível.

TMDQA!: Durante o debate deu pra perceber que você tem ótima relação com o elenco, o quão importante é essa troca com os atores?

Fábio Brandão: Quando você faz um trabalho de guerrilha tudo o que você pode dar para as pessoas é carinho e amizade, porque trabalho você já dá, e muito. As pessoas colaboram com o trabalho dos outros, não só com o seu.

Você tem um outro ser humano ali do lado que se abre pra você e você se abre pra ele também, e isso gera conexões eternas. A energia e o amor que você troca com essas pessoas fazem toda a diferença.

As pessoas dão mais de si, elas superam aquilo que elas acham que tem um limite. Quando você dirige atores por um longo prazo, você se torna parte deles e eles são parte de você.

TMDQA!: Como você mesmo mencionou, seu trabalho é um “cinema de guerrilha”, de que forma você encara o panorama do mercado atual brasileiro?

Fábio Brandão: Eu tenho muito orgulho do termo “cinema de guerrilha”, porque é um grupo de pessoas que não está preocupada em ter espaço em editais ou ganhar dinheiro. São pessoas que estão preocupadas em produzir, em fazer arte e aprender.

Você aprende a lidar com as dificuldades e a resolver problemas que normalmente em projetos maiores tem pessoas que resolvem pra você. A gente vive um momento horroroso no audiovisual brasileiro, a gente está sendo esmagado por uma política artística que faz com que a gente não produza ou que dificulte a produção de filmes

A gente entrou em um mar de ignorância que acabou com a indústria. Essas pessoas do cinema de guerrilha acreditam muito no que fazem para que aquele trabalho, por menor ou mais simples que seja, se torne um trabalho notável.

TMDQA!: Seu filme é uma trama que mistura terror com questões existenciais, você gosta de fazer o espectador refletir?

Fábio Brandão: Eu não gosto de histórias lineares, mas eu também não gosto de histórias muito abertas, pois se você abre muito a história, ela acaba se tornando dispersa. Delphine é um projeto que te dá mil possibilidades, mas ao mesmo tempo você não leva o seu raciocínio para fora dali.

Eu gosto muito de fazer as pessoas refletirem, eu acho que o cinema está aí para isso, para conquistar as pessoas ou para contar histórias para que elas absorvam alguma coisa a partir daquilo. Quando você faz um projeto desses, você precisa ter na cabeça algo certo para passar para as pessoas.

Não dá para perder o tempo delas. Eu gosto que as pessoas deixem a sessão lembrando do nosso filme, que ele tenha tocado as pessoas de alguma forma. Eu gosto de tratar temas que sejam universais e que atinjam todas as classes, sexo, raça, religião, independente de qualquer julgamento.

TMDQA!: Quais são as suas inspirações no cinema, seus filmes preferidos ou cineastas?

Fábio Brandão: Contar histórias sempre foi uma coisa muito latente na minha vida, e o cinema surgiu como uma demanda desse processo. Eu gosto de histórias que me fazem pensar, que me surpreendam. Em termos de linguagem, um cara que admiro muito é Woody Allen. Ele não gosta de interromper as cenas, você vê muito pouca diferença com relação a mudanças de planos porque ele acredita que o crível está no tempo real.

Eu gosto do Stephen King, aí falando mais para o lado de roteirista. Ele é transgressor às vezes, ele arrisca e não tem medo de ser taxado disso ou daquilo. As histórias são sempre surpreendentes, ele tem uma pluralidade, uma marca muito forte. Você consegue identificar quando a história é dele, com o sobrenatural, com as coisas que não se explicam e te prendem de uma forma incrível. Eu comecei a gostar do Stephen nesse momento em que eu comecei a me voltar pra histórias de suspense e terror. Isso foi trazendo inspirações para mim.

Mas o filme da minha vida é O Segredo dos seus Olhos. Eu acho que o Juan José Campanella construiu uma história maravilhosa, ele tem atuações incríveis e personagens maravilhosos. Ele tem uma caracterização única, você vê ali uma fotografia linda, uma proposta narrativa incrível, ele acertou em muita coisa e se tornou pra mim o melhor filme da história do cinema.

É um longa que me representa muito artisticamente, é aquilo que a gente procura quando cria uma dramaturgia. Para mim, O Segredo dos seus Olhos é aquele objetivo no cinema, um espelho que a gente tenta sempre fazer algo parecido, com o nível de perfeição que esse filme tem.

TMDQA!: Para encerrar, ao final do debate você mostrou um teaser do seu próximo curta, gravado por inteiro em plano-sequência. Como surgiu a concepção do filme e é possível adiantar algum detalhe da trama?

Fábio Brandão: Ele se chama Story Telling e eu queria realizar um trabalho que fosse diferente de tudo aquilo que a gente está acostumado a ver. Mas que ao mesmo tempo brincasse com tudo aquilo que a gente já viu, sendo bem criativo no sentido das referências. E o Story Telling é esse projeto, ele é um plano-sequência de 26 minutos.

A gente no cinema até tem filmes assim, como Birdman e o candidato ao Oscar 1917, mas a ousadia do Story Telling é trabalhar dois mundos paralelos, com seus time lapses e suas cenas de ação. O filme explica como se conta uma história, de uma maneira muito divertida. O que eu posso adiantar é que ele é um trabalho lindo de se ver, e com certeza é a coisa mais louca que eu já fiz na vida, e a mais incrível.

Assim como em Delphine, a gente usa bastante a metalinguagem em Story Telling, mas em uma proporção maior. A gente planeja lançar o filme no segundo semestre de 2020. Aguardem.