Nathi
Foto: M. Cameron Crew
 

Chegue para a sua família e diga que vai seguir seu sonho de viver de música. Em boa parte dos casos, eles olharão para você com uma mistura de medo, pena ou até desprezo. Mas a culpa não necessariamente vai ser dos seus parentes, já que infelizmente a impressão que fica é a de que viver de artes no geral não é algo financeiramente viável ou “sério” diante dos olhos da sociedade.

Nem todas as famílias são como a de Nathi, que apoiaram a jovem cantora a perseguir seus sonhos e estudar música a fundo. Aliás, hoje eles devem estar cheios de orgulho, já que, dona de um talento singular, a jovem tem gravado com vários artistas internacionais.

Nathi mora, desde meados de 2014, nos Estados Unidos, onde iniciou seus estudos na Musicians Institute, em Hollywood. Hoje com 25 anos de idade, a importante decisão já era uma sementinha em sua cabeça desde que se graduou na escola. Hoje, vemos uma bela árvore, cheia de frutos belos e com um disco com previsão de lançamento para o fim deste ano ou início do próximo.

Ela atua como compositora, cantora e produtora musical, além de ter em seu currículo parcerias com o premiado compositor Timothy Gloom (com quem lançou o single “Comfort Me” em 2018) e a coprodução das trilhas dos filmes “Honor Up” (2018) e “The List” (2017). Espetacular, né?

 

“Sorte em ter uma família que sempre me apoiou muito na minha curiosidade”

Após um ano agitado em estúdios gringos, Nathi foi passar o fim de ano com sua família em São Paulo. Foi quando surgiu a oportunidade de conversarmos com ela. Tivemos que ligar para o telefone da mãe dela (já que o da cantora é um número internacional), mas isso não nos impediu de batermos um bom papo com esse nome que tende a crescer ainda mais, seja lá fora ou aqui.

Nathi conversou conosco sobre sua decisão, sobre os perrengues e sobre o choque cultural de se viver longe do país natal. Confira abaixo:

TMDQA!: Como surgiu essa decisão de ir para fora?

Nathi: Eu sempre quis ir para Los Angeles. Quando eu estava no colegial, eu fiz dois cursos nessa faculdade chamada Musicians Institute, em Hollywood. Me apaixonei pela escola e pelo dia-a-dia sempre escutando música. Quando me graduei, isso já era uma decisão que estava sendo plantada há tempos. Eu me mudei com tudo para lá.

TMDQA!: A sua história é muito inspiradora para um brasileiro. Acredito que muitas pessoas tenham o sonho de viver da música, mas se sentem desencorajados a seguir isso, talvez por conta de uma cultura de que “música não dá dinheiro” e afins. É muito legal ver que você teve a proatividade de realmente querer correr atrás desse sonho.

Nathi: Eu também tive muita sorte em ter uma família que sempre me apoiou muito na minha curiosidade com a arte. Desde pequena, sempre fiz muitas aulas de arte, dança, teatro… Na cabeça deles, eles sabiam que era isso que eu queria fazer, então queriam me apoiar na educação de tudo isso. Aliás, música também é algo para se aprender.

TMDQA!: Que dicas você daria para alguém que esteja disposto a estudar música para entrar de cabeça nesse mundo?

Nathi: Uma coisa que eu sempre falo é a prática diária. Você precisa praticar todos os dias e se aventurar em grupos de pessoas que também fazem isso. Você precisa sempre estar ao lado de pessoas que são melhores que você, com mais experiência e talento do que você. Isso, no fundo, dá aquele empurrãozinho e inspira você a querer melhorar. Hoje em dia, com as ferramentas proporcionadas pela internet, existem muitas formas de aprender. Até hoje eu faço aulas de canto e violão pelo Youtube. Violão foi um instrumento que eu nunca fiz aula com um professor; foi tudo estudando online. Se você realmente quiser aprender, você dá um jeito.

 

“Passei a sentir falta da família e de outras questões culturais”

TMDQA!: Como foi, para você, ir para os Estados Unidos, e lá encontrar esse grupo de pessoas que têm os mesmos objetivos que você?

Nathi: A faculdade realmente criou uma base de contatos para mim. Tínhamos, além dos mesmos interesses, a mesma rotina. Logo que eu me formei, eu comecei a estagiar em um estúdio em Long Beach. Foi uma experiência que me ajudou a mergulhar mais ainda no “mundo real”, de ver como é o funcionamento de um estúdio e de artistas que vão gravar. Sempre postei bastante nas minhas redes sociais profissionais que iam ao estúdio tocando. Meus amigos, incluindo a pessoa que mora hoje comigo, me encontraram assim. Ela comentou comigo que também queria trabalhar e produzir comigo, e aí foi mais uma conexão. Ela me apresentou aos amigos dela. Uma vez que você entra no flow, no ciclo, você consegue se locomover entre vários grupos.

TMDQA!: Enquanto brasileira, como foi, para você, mergulhar na cultura norte-americana? Apesar do interesse na música, certamente existem algumas diferenças culturais.

Nathi: Quando eu tinha 5 anos, eu e minha família nos mudamos para Miami. Ficamos lá durante 3 anos, o que me proporcionou essa imersão cultural. Foi assim que eu aprendi inglês. Depois disso, estudei em escola americana, o que me ajudou. Quando fui novamente, aos 17, não senti esse impacto a princípio, até porque o Instituto contava com pessoas de vários outros lugares. Quanto mais fui ficando lá, mais passei a sentir falta da família e de outras questões culturais que não pude exigir dos Estados Unidos. Existe essa tensão. Por causa disso, eu acabo sempre voltando para o Brasil, porque sinto saudades da família e dos demais detalhes daqui.

TMDQA!: Nesse tempo morando lá, você sentiu alguma dificuldade? Consegue lembrar de algum momento em que você não se sentiu confortável?

Nathi: Muitas vezes. O fato de eu ter morado sozinha durante alguns anos foi difícil. É bom, mas ao mesmo tempo é ruim porque você acaba ficando muito sozinha. Às vezes também sentia a pressão da necessidade de estar sempre fazendo músicas novas. Acabei vendo, nesse tempo, que a valorização de certos artistas é maior do que a valorização da sua arte, o que traz muita insegurança. É difícil encontrar alguém, na música, que tenha valores alinhados com os seus, porque eu começo a pensar que preciso pensar de tal maneira para me inserir neste mundo. Mas no geral, são mais questões de cabeça do que do lugar em si. Lá eu me sinto muito bem fisicamente, mas em relação à espiritualidade, a cabeça fica meio comprometida às vezes.

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“Fico sempre tentando juntar esses dois mundos”

TMDQA!: A sonoridade solar de suas músicas revela uma mistura entre R&B, reggae, soul e MPB. Imagino que, apesar de a sua carreira ter se consolidado só nos EUA, você acabou incorporando na sua musicalidade referências brasileiras. Que artistas você daqui mais fizeram você acreditar na música?

Nathi: Meus pais ouvem muita música brasileira, então acabei ouvindo muito Marisa Monte, Elis Regina, Tim Maia, Cazuza… Essas músicas meio que estão no meu sangue já. Eles com certeza tiveram muita influência. Mas também tem artistas mais novos que me inspiram, como a Maria Gadú. Gosto muito dessa mistura do brasileiro com o americano, já que sempre fui muito conectada com a música de lá também. Fico sempre tentando juntar esses dois mundos, que é justamente o que eu sou.

TMDQA!: E referências norte-americanas? Já se deparou com algum ídolo nos Estados Unidos?

Nathi: Quando me mudei para lá, eu era muito fã da Disney (risos), então no início eu pensava “Ah, a Miley [Cyrus] mora aqui!”. Aos poucos, eu fui crescendo e isso foi mudando um pouco. Na real, hoje eu percebo o quanto essas pessoas são normais, que vivem vidas normais, com família e com dificuldades.

TMDQA!: Morando em Los Angeles, você já teve a oportunidade de trocar ideia pessoalmente com algum artista que você admira ou até tocar com um?

Nathi: Ainda não tive essa benção de tocar com um artista que eu admito muito, mas já toquei com muitos músicos incríveis. Já tive a oportunidade de tocar com o Timothy Bloom, por exemplo.

TMDQA!: Como se deu esse contato com o Timothy Bloom?

Nathi: Foi durante o estágio que fiz no estúdio de Long Beach. Em um dia de evento, ele foi ao estúdio para fazer uma jam session. No dia, eu não pude ir, mas meu chefe me contou sobre, e sugeriu que eu o seguisse. A gente acabou se conectando por Instagram, e ele me chamou par ir ao estúdio dele para tocar piano. A gente se deu bem e, a partir daí, começamos a trabalhar juntos em várias músicas.

 

“Meu maior objetivo é ter um álbum bilíngue”

TMDQA!: Desde 2014, ano em que você foi para os Estados Unidos, aconteceu muita coisa na música brasileira. Vários artistas e movimentos musicais explodiram, por conta da maior facilidade de produção proporcionada pelas novas tecnologias. Nesse tempo em que você está morando fora, existe algum artista dessa nova cena que chamou a sua atenção ou com quem você gostaria de gravar uma parceria?

Nathi: Existem muitos artistas brasileiros interessantes surgindo. Uma artista na qual estou bem grudada é a Luedji Luna. Estou viciada e ouço ela todo dia. Eu tive a oportunidade de conhecê-la pessoalmente, e eu até chorei. Eu fiz uma pergunta em um dos paineis do evento do qual estávamos participando, e ela me deu uma resposta incrível. Ela não apenas é uma baita artista, como também é uma baita mulher, com muita espiritualidade. Outra artista que eu curto muito é a Liniker [Barros].

TMDQA!: É plano seu, em algum momento, voltar ao Brasil para desenvolver pelo menos um pouco de sua carreira aqui? Lançar um álbum em português talvez?

Nathi: Com certeza! Já recebi propostas de gravar parcerias com músicas em português. Existe alguma resistência em mim que, é tão natural para mim escrever nas duas línguas, que eu não sei se conseguiria focar só em uma. Tenho escrito mais em inglês ultimamente, mas está fazendo muita falta para mim escrever em português. Acho que existe uma conexão. Mas meu maior objetivo é ter um álbum bilíngue, com parcerias e produtores tanto daqui quanto de lá. É uma forma de tentarmos fechar esse gap de idiomas. Muitos artistas latinos têm feito isso. Eles fazem com facilidade porque já é um movimento que acontece. Os brasileiros possuem esse bloqueio ainda. Quero fazer um álbum cujas músicas vão se conectar com ambos os lugares. Aliás, eu tenho vida nos dois países, e me prender a um deles vai me fazer mal, seja artística ou espiritualmente.

 

“Quero que o disco represente todo um mundo”

TMDQA!: Quais são os próximos passos de sua carreira? Novo álbum? Mais singles?

Nathi: Vamos lá, vou me manifestar (risos). Além dessas três músicas do projeto, pretendo lançar mais músicas em 2020, com clipes. Meu plano, ao voltar para Los Angeles, realmente trabalhar mais as colaborações, com produtores e compositores de lá. Quero fechar esse álbum e lançar entre o final de 2020 ou no início de 2021. Quero também sair em turnê para expor esse trabalho, porque penso muito nos shows e nos vídeos. Além de fazer música, eu gosto muito de dançar. Quero que o disco represente todo um mundo.

TMDQA!: É interessante essa sua visão multi-artística. Com a facilidade tecnológica dos dias de hoje, precisamos usar as possibilidades a nosso favor. É uma maneira de conta a história de uma maneira mais rica e imersiva.

Nathi: Como a produção está mais acessível, é preciso ter algo para levar isso para outro nível de excelência mesmo, de arte. É por esse caminho que quero seguir. O meu primeiro EP foi um começo, um experimento para mim. Já agora, para o álbum, eu quero que seja mais impactante.

TMDQA!: Você fez basicamente tudo no seu primeiro EP sozinha, né?

Nathi: “Sozinha” porque eu produzi, escrevi as música e tal. Mas é claro que também contei com o apoio de muitas pessoas, desde o operacional do estúdio até os membros da minha banda. Hoje temos um número maior de pessoas dando apoio e se oferecendo a ajudar, então podemos dizer que estamos em um nível muito superior.

TMDQA!: O que a Nathi de agora diria para a Nathi de anos atrás que tomou a decisão de estudar em outro país?

Nathi: Eu diria para não tentar ser que nem outros artistas. É bom se inspirar, é claro, mas não tentar se vestir ou fazer o som de forma igual. Eu diria também para praticar, muito mais do que eu pratiquei (risos). É necessário.

TMDQA!: Você sente que acabou se inspirando muito em algum artista específico?

Nathi: Acho que até hoje existe essa pressão comercial, de “esse tipo de música vende e esse, não”. Lá eu sinto, mais do que aqui, que é preciso ser fisicamente de um jeito, falar de um certo jeito e ter determinada atitude e determinado som para “dar certo”. Sempre existe aquela pressão de “Preciso ser igual àquela artista”, porque todo mundo gosta dela. Eu tive muito disso. Eu queria muito ser outra coisa que não eu mesmo, e acabava não me aprofundando na minha própria essência. Estou valorizando mais a minha história agora, inclusive as minhas raízes brasileira. Estou mais velha e sinto mais essa coisa da ancestralidade, de entender de onde eu vim e qual a mensagem que eu tenho que passar.