June
Foto: Duda Dalzoto

Tentar carreira internacional pode ser algo muito difícil para um artista brasileiro. Enquanto falantes do português, nós não estamos exatamente no meio dos interesses mundiais do mundo da música, já que concretizou-se que a língua com maior abrangência cultural no mundo é o inglês. Mesmo com esforços de artistas como Anitta e com a visibilidade alcançada por nomes como Liniker Barros, ainda há uma barreira muito grande a ser contornada.

Nascida em Florianópolis, Julia Sicone (conhecida artisticamente como JUNE) tem investido nesse trabalho de traçar uma carreira internacional. Tendo lançado recentemente alguns singles em inglês, ela conquistou, em 2017, uma das categorias do International Songwriting Competition, o maior prêmio de música autoral de todo o mundo. Ela venceu por votação popular a categoria “People’s Voice” graças à faixa “Cup of Water“.

Como prêmio, ela teve a oportunidade de gravar algumas faixas no estúdio Dark Horse Institute, em Nashville, nos EUA. Da experiência de gravar em um estúdio gringo, foram gravadas três faixas, que estarão presentes no próximo EP da cantora. A primeira delas foi “Crazy“, e agora começou a divulgação da segunda, intitulada “Summer Day“, que conta com a participação especial de Franky Hill.

 

“Foi uma loucura”

Mas se engana quem pensa que Julia nega suas raízes brasileiras. Em 2017, a cantora se aventurou em composições em português, e o resultado foi o disco Diz, que mescla MPB com influências pop e folk.

Conversamos com ela logo após seu último ensaio antes do lançamento oficial de “Summer Day”. Ela nos contou sobre influências (que também passeiam muito pela música nacional), sobre o machismo na indústria fonográfica e, é claro, sobre a experiência de ter gravado no exterior.

Confira abaixo:

TMDQA!: É muito interessante o fato de que você, enquanto artista brasileira, está gravando em um estúdio nos Estados Unidos. Como surgiu essa oportunidade?

JUNE: Eu tinha inscrito uma música minha em um concurso internacional de música autoral. Acabei ganhando a categoria “People’s Voice”, de voto popular. Minha música estava entre as dez finalistas, e para essas finalistas, existiam alguns prêmios. Eu ganhei dois meses de gravação nesse estúdio.

TMDQA!: Nesse tempo, você gravou todos esses seus singles recentes? Como foi essa experiência? Todos as faixas fazem parte desse novo projeto?

JUNE: Eu lancei dois singles. O primeiro foi “Crazy” e, agora, “Summer Day”. Depois vou lançar mais um. São três músicas que eu gravei lá, e todas fazem parte do EP. Eu ainda não sei a data de lançamento do novo single, mas deve sair até Março.

TMDQA!: Toda relação é uma espécie de troca. Eu acredito que você deve ter aprendido muito com essa experiência internacional de estúdio, mas conhecer você deve ter agregado algo neles, com toda a certeza. O que você acha que seria?

JUNE: Eles sempre me falaram que normalmente o material que chega a eles costuma ser muito genérico e simples. Os músicas comentaram que foi muito gostoso tocar minha música e criar junto. Eu cheguei com duas músicas prontas, só que a gente precisou desenvolvê-las juntos. Eu levei os acordes e as ideias, mas no final todos ficaram muito livres para tocar. Eles estavam muito acostumados a seguir um padrão, de seguir uma base sem muito espaço para criar por cima.

Para mim, foi uma experiência muito doida. Foi a primeira vez que gravei musica em conjunto. Foi como uma jam, só que com tudo sendo gravado. Geralmente, eu estou acostumada a cada músico tocar seu instrumento separadamente. Só a voz oficial foi a única coisa gravada só no dia seguinte. Foi uma loucura. A forma pela qual eles fazem as coisas é diferente. Eu achei interessante também o fato de estar em uma estrutura enorme. Soava tudo muito bem. Conseguimos, com menos orçamento e menos estrutura, fazer um trabalho incrível. Eu acho que o rolê não era nem por ser muito melhor, é sonoramente bem interessante.

 

“Eu sempre cantei, desde novinha, mais em inglês”

TMDQA!: Vamos falar agora sobre a música em si. Você lançou em 2017 um disco com composições em português, mas ao mesmo tempo, tem um EP e vários singles em inglês. É super interessante ver um artista transitando entre dois idiomas. Como é concilar isso? Você sente que se expressa melhor em um dos idiomas?

JUNE: Eu sempre cantei, desde novinha, mais em inglês. Eu comecei compondo em inglês. Para mim, compor em português foi um desafio. Eu pensei que precisava pelo menor ver como era. Assim, eu descobri todo um novo universo de possibilidades, completamente diferente. É uma questão não apenas de composição. Existem sentimentos que, pra mim, vêm em português e outros em inglês.

TMDQA!: Como foi o desafio de gravar um disco inteiramente em português?

JUNE: Eu fui me acostumando. Eu queria no meu repertório um disco totalmente em português, justamente pelo fato de eu ser brasileira. Muitas pessoas me questionavam sobre isso. Não é bem o caminho que eu queria seguir, porque quero traçar uma carreira internacional para que a minha música atinja o maior número possível de ouvintes. Eu senti, por outro lado, que queria mostrar esse meu lado “brasileiro”.

TMDQA!: Como é o seu processo de composição? Como nasceu e o que inspirou “Summer Day”?

JUNE: Eu escrevi ela de forma muito rápida. A inspiração veio enquanto estava deitada no sofá vendo um clipe do Daniel Caesar. Do nada, eu peguei o violão e escrevi a música. O meu processo de composição normalmente vem do sentimento. Eu estou sentido uma parada, sento e escrevo. Às vezes, escrevo algumas coisas no celular antes de dormir, pensando um monte de coisa. Às vezes, quando é uma parada mais comercial, do tipo “vamos fazer algo desse jeito”, eu falo com o Lucas, meu produtor, e peço para ele me mandar um beat, algo meio pronto, e tenho uma ideia nova por cima. Não é uma parada que apenas vem. É algo mais estudado.

TMDQA!: Nesse tempo em que você ficou gravando lá, consequentemente tendo muito contato com a cultura norte-americana, o que você tem ouvido de música brasileira? Como a música brasileira influenciou nas ideias que você apresentou no estúdio? Como ela impacta “Summer Day”, por exemplo?

JUNE: Eu tenho ouvido mais a galera com quem tenho mais proximidade: Tuyo, Jaloo… Uns “funkzão” também… Além disso, ouço os clássicos também, por experiência da família. Minha mãe me fez ouvir muito Cássia Eller, Marisa Monte, Chico Buarque, Milton Nascimento…

TMDQA!: Você sente que isso influencia, mesmo que indiretamente, suas composições, inclusive as em inglês?

JUNE: Eu acho que a gente vai amadurecendo na questão da composição. Tudo que a gente ouve acaba fazendo parte da gente, então acaba influenciando, mesmo que a gente não queira. Não sei dizer de que forma, mas com certeza influencia demais. A gente ouve muita música diferente e acredito que tem várias coisas que contribuem nas criações. Tem uma questão de acordes que eu percebo um pouco na sonoridade. Acho que acaba entrando inconscientemente. Aquilo tudo ficou gravado em mim.

TMDQA!: Por falar em influências, com que artistas você teria interesse de gravar, se tivesse oportunidade? Vale qualquer um!

JUNE: Eu penso diretamente em dois artistas: o Daniel Caesar e o Tyler [the Creator]. Acho que priorizaria o Tyler (risos). Seria o sonho da minha vida.

 

“Hoje eu vejo muito mais mulheres fazendo as coisas”

TMDQA!: A indústria musical sempre foi muito machista. No entanto, sinto que a última década, por conta das novas possibilidades tecnológicas, ajudou a emplacar mais artistas mulheres. É claro que ainda existe um preconceito muito grande, especialmente em termos de produção, mas você viu alguma evolução nesse patamar ao longo de sua carreira? O que, na sua opinião, deve ser feito para resolver esse problema?

JUNE: Eu comecei a carreira muito nova, então não tinha toda essa visão. Hoje em dia, eu procuro mulher em tudo. Esses projetos que existem atualmente são muito importantes para incentivar a participação da mulher na indústria, até para nós conseguirmos nos achar. O que eu mais ouço é que “não existe mulher que faça tal coisa”. Não é que não exista, é porque não conhecemos mesmo. Precisamos ir atrás e sair da zona de conforto. Ir atrás é a única forma de resolver isso. É muito difícil encontrar uma menina guitarrista, baixista ou que toque percussão.

TMDQA!: Algumas bandas chamaram atenção justamente por causa de mulheres nos instrumentos. Dedé Teicher (Scracho), Larissa Conforto (Ventre)… Acho que quanto mais pessoas participando disso, mais pessoas vão se sentir inspiradas.

JUNE: Eu acho que a situação melhorou, sim. Hoje eu vejo muito mais mulheres fazendo as coisas, tocando e produzindo. Ainda é uma parcela muito pequena, e talvez eu esteja muito influenciada por minha própria bolha, mas tenho visto muitos incentivos. As pessoas estão indo atrás mesmo, muito por conta da consciência de que precisamos acabar com esse machismo. Tem um outro pensamento que essa discrepância gera. Eu costumo pensar que, se tem uma mina tocando em um show, é porque ela é muito foda. Não se dá muito destaque para a mulher, então, para ser notada, ela precisa ser incrível.

TMDQA!: Quais são seus planos futuros?

JUNE: Nada muito específico. A gente quer fazer um álbum com bastantes feats legais do mundo inteiro. Estou procurando pessoas de fora para conseguir levar meu trabalho, fazendo diferente do que a maioria da galera normalmente faz. Estou tentando esse rolê de levar o som para fora. Muitos falam sobre fazer canções em português primeiramente para só depois tentar se exportar. No mundo todo a galera fala inglês, sabe?
Tem alguns artistas que eu encontro pelo Instagram. Tem muita gente boa que não é conhecida ainda. Por lá, a gente consegue umas parcerias bem legais. É usar a globalização ao nosso favor.