Paramore e Racionais MC's

É interessante pensar que uma mesma palavra pode ter vários significados. Da subjetividade, surgem discursos lindos e completamente imprevisíveis.

Há pouco mais de um ano, fizemos a seguinte brincadeira: selecionamos 20 músicas para montar uma lista de canções que, dentro das variáveis possíveis, compartilham títulos de canções em Inglês e em Português. Agora, resolvemos retomar a ideia com mais 20 faixas. As seleções desta vez dão nome desde cores até países!

Confira abaixo! E, se tiver mais ideias de títulos que ainda não destacamos, deixe nos comentários. Quem sabe não conseguimos material suficiente para uma terceira lista?

 

10 – “Brazil” (Declan McKeena) e “Brasil” (Cazuza)

Em seu aclamado álbum Ideologia, de 1988, Cazuza deu voz à canção “Brasil“. Composta durante a transição da ditadura militar para o regime democrático, a faixa faz severas críticas ao congresso e à mídia, diante da eleição indireta de Tancredo Neves como novo presidente.

Versos como “Brasil, mostra a tua cara” evocam a participação do povo nas decisões políticas do país. Apesar do contexto diferente, a mesma faixa foi escolhida para ser a primeira gravação de Rodrigo Suricato como vocalista do Barão Vermelho, em 2017. É basicamente uma canção atemporal.

Por falar em contextos diferentes, o jovem compositor britânico Declan McKeena se inspirou no Brasil para lançar seu primeiro single no fim de 2014. “Brazil” é, na verdade, uma música de protesto, que critica a FIFA e todos os escândalos envolvendo a Copa do Mundo realizada naquele ano nas nossas terras. Um detalhe é que, na época, Declan tinha apenas 15 anos.

 

9 – “No Air” (Jordin Sparks feat. Chris Brown) e “Sem Ar” (D’Black)

Em 2008, Jordin Sparks ganhou visibilidade internacional com o single “No Air“. A canção, que conta com parceria de Chris Brown, foi para o pódio da Billboard Hot 100. A letra romântica, sobre uma camada pegajosa de R&B, compara a ausência da pessoa amada à vivência em um mundo onde não existe ar. De fato, fica difícil de respirar.

Exatamente no mesmo ano, o cantor D’Black também alavancou sua carreira. O hit “Sem Ar“, na época, tocou em todas as rádios e programas musicais e o fez ser visto como a grande revelação daquele ano. O R&B também foi a base escolhida para a letra, que também ressalta o desconforto da solidão.

Mas se você pensa que D’Black aproveitou a carona de Jordin para emplacar o sucesso, pensou errado! Apesar do timing de lançamento, o cantor brasileiro compôs sua faixa em 2005, época em que lançou seu primeiro álbum. A versão lançada em 2008 surgiu após ele ser contratado pela Universal para fazer seu segundo disco. A gravadora viu o potencial da música e sugeriu uma nova versão, com direito a uma banda completa.

 

8 – “Sunday Morning” (Maroon 5) e “Domingo de Manhã” (Marcos & Belutti)

No mundo todo existe a cultura da “domingueira”, ou seja, de um domingo para descansar após um sábado bem aproveitado. É o dia da preguiça, do relaxamento e dos filmes.

Isso ficou claro quando o Maroon 5 lançou “Sunday Morning” em seu disco de estreia Songs About Jane. Inspirado pelo soul e pelo jazz, a faixa foi a primeira impressão que o grande público teve de que a banda carrega consigo uma ótima capacidade de flertar com outros gêneros musicais. A letra descreve um dia calmo e sereno, com direito a chuva, passeio de carro e uma boa companhia.

Uma década depois, a dupla sertaneja Marcos & Belutti usou a mesma temática. Com o mesmo título, “Domingo de Manhã“, composta pelo baiano Bruno Caliman, vai além dos clichês de músicas românticas. A canção fala de amor sem usar efetivamente o verbo amar. Não à toa, a canção foi uma das mais tocadas nas rádios brasileiras em 2014.

 

7 – “War Pigs” (Black Sabbath) e “Porcos Fardados” (Planet Hemp)

A faixa “War Pigs” é responsável pela abertura de Paranoid (1970), um dos álbuns de rock mais importantes da história. Mas a que exatamente se referem os “porcos de guerra”?

Em entrevista concedida em 2010, o baixista e letrista Geezer Butler explicou que a faixa não diz respeito à política. Na verdade, o título original da faixa era “Walpurgis”, que é uma espécie de Natal para os satânicos. No entanto, em uma outra ocasião, o próprio Ozzy Osbourne falou que se trata de uma canção anti-guerra. O timing do lançamento com a Guerra do Vietnã também ajudou a sustentar essa teoria.

Já em 1995, o Planet Hemp trouxe um conceito mais claro para uma expressão semelhante. “Porcos Fardados” fala sobre a polícia corrupta, que mata inocentes ao invés de proteger a todos. “Seus dias estão contados”, ameaça o grupo no refrão da música.

 

6 – “Fire” (The Jimi Hendrix Experience) e “Fogo” (Capital Inicial)

Todas as culturas sabem o que é o fogo e o que ele simboliza. Agitação, calor, movimento…

Fire“, gravada pelo grupo The Jimi Hendrix Experience em 1967, reflete bem isso. A canção foi composta durante uma friorenta véspera de ano novo, e tem em sua estética um mix de gêneros que promovem movimento, desde o rock psicodélico até a bateria inspirada pelo jazz.

Cerca de 20 anos depois, a banda brasileira Capital Inicial usou o mesmo nome para dar vida a uma canção mais lenta e reflexiva. Voltando a metáfora para o universo do amor, “Fogo” fala sobre as certezas e incertezas da vida. “É tão certo quanto o calor do fogo”, diz o refrão.

 

5 – “Because of You” (Kelly Clarkson) e “Por Causa de Você” (Kelly Key)

Durante a metade da década de 2000, Kelly Clarkson era um dos mais importante nomes do pop internacional. “Because of You“, do álbum Breakaway (2004), foi um de seus maiores sucessos. Melancólica, a canção traça fortes similaridades com a proposta de “My Immortal”, do Evanescence (por sinal, ambas as faixas contam com os compositores Ben Moody e David Hodges).

Exatamente no mesmo ano, aqui no Brasil, a temática do relacionamento abusivo estava sendo divulgada também pela cantora Kelly Key. “Por Causa de Você” é diferente de tudo que a cantora havia feito antes, como os hits “Baba”, “Adoleta” e “Cachorrinho”. Foi bem avaliada pela crítica e também ganhou espaço importante nas rádios do país.

Quem veio antes? Acredite se quiser, mas a cantora brasileira lançou a versão dela em 2003. A versão que ficou famosa no ano seguinte foi lançada como single de um disco ao vivo da cantora.

Em tempo, uma teoria conspiratória: repararam que são duas Kellys?

 

4 – “Heavy” (Linkin Park) e “Pesadão” (IZA part. Marcelo Falcão)

Cá temos outra comparação que, apesar dos títulos semelhantes, não possuem NADA a ver uma com a outra.

Heavy” foi o primeiro single do disco One More Light, o último do Linkin Park. Foi a última música de trabalho da banda antes da morte do vocalista Chester Bennington. Apesar das críticas negativas que a canção (e a nova orientação da banda) receberam na época, é uma faixa bonita que traz à tona um tema muito importante para a nossa sociedade: saúde mental. “Por que é tudo tão pesado?”, questiona a canção.

Talvez por uma mera coincidência, foi com uma variação da mesma palavra que a diva pop IZA se projetou no Brasil inteiro. Apesar de ter lançado anteriormente ótimas músicas, parece que foi só com “Pesadão” (parceria com o ex-O Rappa Marcelo Falcão) que a cantora conseguiu com que seu nome se tornasse constante na cultura pop brasileira. No entanto, o contexto é completamente outro se comparado ao single do Linkin Park. O peso desta vez diz respeito à vivência da cantora, trazendo uma mensagem de superação e empoderamento.

 

3 – “Hard Times” (Paramore) e “Tempos Difíceis” (Racionais MC’s)

É difícil relativizar o tempo. Cada época uma possui seus próprios prós e contras. Tudo depende do referencial. Mas existem tópicos atemporais cuja discussão merece sempre um espaço.

Em 1990, no álbum de estreia Holocausto Urbano, o Racionais MC’s lançou a ótima “Tempos Difíceis“. A letra da canção entrega uma visão da vida dura do jovem negro da periferia paulistana. A injustiça social e a criminalidade acabam, muitas vezes, se relacionando. Enquanto isso, a fome, as armas e as doenças também contribuem para tirar a vida de várias pessoas.

Outra visão de tempos difíceis foi contada pela banda Paramore. Single principal do álbum After Laughter (2017), “Hard Times” descreve a depressão pela qual a vocalista Hayley Williams passou. “Tempos difíceis vão derrubar você e rir quando você chorar”, diz o refrão.

Obs: por falar no After Laugher, poderíamos ter comparado também “Told You So” com “Eu Te Avisei” (Alice Caymmi e Pabllo Vittar). Vamos deixar essa anotada aqui.

 

2 – “Yellow” (Coldplay) e “AmarElo” (Emicida part. Majur e Pabllo Vittar)

A simbologia por trás das cores também é um interessante objeto de estudo cultural. Aliás, vermelho pode ser, ao mesmo tempo, a cor do amor e a cor do comunismo (?).

Brilho, devoção e esperança são o que a banda Coldplay promove com o hit “Yellow“, lançado em 2000. Desde então, os shows da banda têm um momento especial onde tudo fica amarelo. É, basicamente, uma música melancólica sobre amor não correspondido.

A cor tem outro significado para Emicida, que fez de seu álbum mais recente, AmarElo, o melhor do ano. A faixa título, que conta com as participações de Majur e Pabllo Vittar, fala sobre a importância de acreditar em si mesmo. Carregada de grande valor social, a canção enche o ouvinte de esperança com dizeres como “figurinha premiada, brilho no escuro” e “te vejo no pódio”.

Não à toa, a capa do single enfatiza o amarelo dos semáforos e sua mensagem de “Atenção”. Tenha calma, porque ainda há tempo.

 

1 – “The Show Must Go On” (Queen) e “O Show Tem Que Continuar” (Fundo de Quintal)

Nem tudo acontece da maneira que planejamos. Foi assim com Freddie Mercury, que certamente não esperava ser diagnosticado com AIDS enquanto estava no auge de sua carreira. Esse episódio motivou a composição de “The Show Must Go On“, faixa final do disco Innuendo (1991) e um dos maiores sucessos do Queen.

A letra diz respeito, entre várias metáforas e figuras de linguagem, à determinação e ao desejo pela vida. De tão inspiradora, até Celine Dion regravou a canção.

No entanto, a mensagem de esperança e fé já tinha sido passada com o mesmo nome anteriormente por um grupo brasileiro. “O Show Tem Que Continuar” foi responsável por dar nome ao oitavo disco do Fundo de Quintal, em 1988, e é um dos maiores sucessos do grupo até hoje.

“Se a gente nota que uma só nota já nos esgota, o show perde a razão. Mas iremos achar o tom, um acorde com lindo som, e fazer com que fique bom”, diz um dos trechos do inspirador pagode. É uma letra para todos que precisam de uma motivação para continuar em frente.