Japinha, do CPM 22
Foto: Arquivo Pessoal
 

Depois de dois anos rodando o país com a turnê de seu disco mais recente, o Suor e Sacrifício, de 2017, Japinha, baterista do CPM 22, revelou que a banda está numa grande incógnita sobre seu futuro. Ele conversou com o TMDQA! sobre esse e outros assuntos.

Já é certo que o CPM 22 entra em estúdio em 2020 para gravar novas músicas, mas eles ainda não sabem se vão lançar alguns singles no decorrer dos meses, se apostam num EP de cinco faixas ou fecham um álbum de vez.

A questão envolve a forma como a música tem sido consumida hoje em dia, inclusive por ele, que diz gostar de ter um CD físico na mão, mas que confessa que há tempos já não ouve um trabalho na íntegra. “Não peguei para ouvir o último do Foo Fighters e do Iron Maiden. Eu ouço as músicas de trabalho,” revelou.

Para ele, a velocidade do clique é avassaladora e, de certa forma, prejudica o trabalho das bandas de consolidar um disco, porque as pessoas trocam de música e até de artista muito rápido. E tem ainda o fato do rock, do reggae e até da MPB terem perdido espaço para nomes de outros gêneros que têm um apelo mais forte de TV. “Nós, a Pitty, o Natiruts, o Planta e Raiz e outras bandas grandes e importantes, e até novas bandas, estamos tendo muita dificuldade para poder promover um trabalho,” lamenta, apesar de celebrar a internet como um espaço democrático.

CPM 22 na estrada e nos festivais

O grupo fez neste ano shows em dois grandes festivais: o João Rock em junho e o Rock in Rio em setembro. Segundo Japinha, isso ajuda a agenda a ficar forrada por um período por conta da mídia espontânea que se gera, e a balança acaba se equilibrando.

Ele classifica a experiência de tocar para grandes públicos, de quase 100 mil pessoas no caso do festival carioca, e 60 mil no caso do evento no interior de São Paulo, como uma adrenalina incrível. “Tocar no Palco Mundo do Rock in Rio e abrir para o Foo Fighters para nós é uma bênção,” comemora.

A emoção é tão grande em casos como estes que Japinha confessa não se sentir tão bem nos dias anteriores ao show. “Só depois da terceira ou quarta música que eu começo a curtir,” revela. A tensão, porém, é compensada com essas mega apresentações serem lembradas por ele como os melhores shows da carreira, inclusive pelo feedback do público e da mídia. Um show no Paraguai há aproximadamente três anos também foi lembrado como um dos mais memoráveis por conta do público cantando as músicas da banda com o sotaque do país.

Artista também tem ídolo

Questionado sobre quais foram os melhores shows que já assistiu ele lista várias apresentações. A do Iron Maiden, no Morumbi, em São Paulo, que ele foi assistir neste ano pela quarta vez, o surpreendeu: “Eu fiquei de cara como os caras chegaram com 65 anos e com um avião no palco, e o Bruce Dickinson pulando o show inteiro e cantando perfeitamente”, respondeu. Kiss, Ramones e Green Day também foram citados, além de um dos Paralamas do Sucesso, que ele viu quando ainda tinha 15 anos.

 

O melhor dos anos 10

O CPM 22 foi um dos nomes mais importantes do rock nacional no começo dos anos 2000, como ele mesmo cita, junto com Pitty, Detonautas, Nx Zero e até Charlie Brown Jr. Quisemos saber então quem são os melhores dos anos 10 e ele lembra de nomes como Supercombo, Scalene e Far From Alaska, ressaltando, porém, que nenhuma conseguiu atingir as mesmas proporções das antigas: “não por culpa deles, mas pela situação do mercado,” reflete.

Na década passada as bandas de rock tinham mais espaço: “a gente ia no Faustão, no Caldeirão do Huck, na Bandeirantes, na Record, no SBT. Eu fui no programa do Gugu,” recorda, falando ainda da força que a MTV tinha e do maior número de rádios rock que existiam.

E ele vê sentido em bandas como a Ego Kill Talent e a própria Far From Alaska conseguirem ir além da fronteira do país, mas não serem tão populares por aqui: “a gente teve mais facilidade de atingir um público maior por causa da língua,” lembrando das letras em inglês de ambas.

Polêmicas

Japinha falou também sobre sua relação com a banda Raimundos, com quem o CPM 22 dividiu o palco do Rock in Rio, e que tem hoje uma posição não muito segura na cena nacional devido às suas letras “escrachadas e debochadas”.

Ele lembrou da saída de Rodolfo do grupo justamente por este motivo, mas atentou para o fato de nos anos 90 e começo dos 2000 esse tipo de conteúdo ser aceito pelo público, exemplificando a explosão dos Mamonas Assassinas, idolatrado até pelas crianças. “Hoje em dia o Mamonas talvez não durasse. Talvez eles tivessem que escrever letras pensando nas consequências,” diz.

A opinião do baterista é que hoje nós temos mais consciência sobre o impacto que músicas sexistas e machistas causam na realidade das pessoas e que, querendo ou não, o Raimundos, que “já foi a maior banda de rock do Brasil, são como uma faca de dois gumes,” que provoca repulsa em uma parcela da sociedade, mas que continua sua carreira sem se importar com o conteúdo de suas letras escritas há duas décadas e se apresenta para o público que ainda lhe segue.

Ele finaliza falando que não dá para brigar contra o momento da realidade social e que, olhando para trás, letras de nomes como Planet Hemp e Charlie Brown Jr. estavam inseridas no contexto daquele tempo, e que jamais seriam escritas atualmente. “Vamos mudando. Faz parte,” conclui.

Composições

Questionado se tem uma música favorita do CPM 22, ele escolhe a que compôs em seu violão no próprio quarto: “Irreversível”, um dos maiores clássicos do grupo, do álbum Felicidade Instantânea, lançado em 2005.