Emicida
Foto: Julia Rodrigues
 

Sabe a cena atual do rap brasileiro, que possui uma quantidade cada vez maior de artistas e que conquista cada vez mais pessoas? Se ela se encontra onde se encontra hoje, é porque devemos muito ao trabalho de Emicida.

Conhecido por suas rimas “matadoras”, o rapper paulista não apenas tem uma carreira admirável como também ressignificou a nossa produção musical independente com a gravadora Laboratório Fantasma. Desde de que assumiu este nome artístico, ele lançou dois discos solos que impactaram muito a cena: O Glorioso Retorno de Quem Nunca Esteve Aqui (2013) e Sobre Crianças Quadris, Pesadelos e Lições de Casa… (2015). Além disso, lançou em 2017 o projeto Língua Franca, em parceria com Rael, Capicua e Valete.

Este ano, em meio ao caos político e social que estamos vivendo, Emicida voltou a dar as caras (ainda bem). Ele foi preparando terreno com singles e tudo chegou ao lançamento de AmarElo, disponibilizado na noite do último dia 30 (quarta).

 

Lançamento em horário nobre

Que contextos de tempo um artista normalmente usa para lançar um disco? Virada do dia? Sexta-feira? Que nada! Emicida resolveu ir além e lançar seu disco novo em pleno horário nobre de quarta-feira.

Conforme anunciou previamente em seu Twitter, o rapper disse que o álbum seria lançado pontualmente às 20h30, durante o intervalo comercial do Jornal Nacional. Lá foi apresentado o clipe de “Silêncio“, faixa que inicia o disco e foi lançada com exclusividade para os assinantes da Deezer.

 

“No vínculo de todas as cores, dizem que o amor é amarelo”

Em um tempo em que cores ainda são associadas a sentimentos (e até mesmo a vestimentas) eis que chega Emicida e associa o amor, sentimento normalmente representado pela cor vermelha, à cor amarela.

O amor cuida com carinho
Respira o outro, cria o elo
O vínculo de todas as cores
Dizem que o amor é amarelo
É certo na incerteza
Socorro no meio da correnteza
Tão simples como um grão de areia
Confunde os poderosos a cada momento

O nome do disco brinca com a sonoridade da palavra, que em sua escrita releva a união das palavras “amar” e “elo”.

Eu descobri o segredo que me faz humano
Já não está mais perdido no elo
O amor é o segredo de tudo
E eu pinto tudo em amarelo

Amarelo também é um pedido por atenção, e por calma, por otimismo. Emicida revela detalhes de nossa sociedade que muitas vezes são despercebidos pelos mais poderosos. “Você vai sair dessa prisão. Você vai atrás desse diploma com a fúria da beleza do sol, entendeu?'”, encoraja o rapper. A vida tem coisas negativas e positivas, mas são as positivas que precisam ter mais força. São os amigos, é a paisagem relaxante, é o sexo, é a liberdade. Todos esse temas estão contidos nesse disco. Basta ter paciência. “O sol só vem depois”, canta em uma das novas faixas.

O segredo, vale reforçar, é o amor. O amor pelo o que você faz, pelo o que te motiva por quem você sente afeto. É essa a essência do disco!

 

Chuva de participações brasileiras e internacionais

Desde o início de sua carreira, Emicida está acostuma a colocar boas participações em suas músicas. Ele vai além do esperado sempre, em um gênero já conhecido por ricas trocas. Já teve parcerias com nomes do funk (MC Guime), rock (Pitty), MPB (Caetano Veloso) e por aí vai.

Em AmarElo, o cantor provou que sua capacidade de inovação não tem limites. Para acompanhar sua própria evolução musical, ele buscou as mais diferentes vozes. Isso tudo prova que Emicida sabe onde está e com quem se relaciona. Todas as participações potencializam as mensagens de cada música, e é incrível reparar isso ao longo do álbum.

Essa ideia de um álbum com várias participações já estava se desenhando desde o início de sua divulgação, quando apresentouEminência Parda” com as participações de Dona Onete, Jé Santiago e do português Papillon. Depois, chegou a vez de Emicida impactar um público ainda maior, chamando as artistas pop Pabllo Vittar e Majur para cantar a faixa-título do disco. Para fechar essa “santíssima trindade” de singles, conhecemos “Libre“, com participação das encantadoras irmãs do duo Ibeyi (com quem tivemos a oportunidade de bater um papo). Por sinal, foi com elas que Emicida fez seu elogiado show na última edição do Rock In Rio.

Mas é claro que o lançamento do disco em si nos apresentaria a novas parcerias. A faixa “Principia“, logo de cara na abertura do álbum, já conta com Fabiana Cozza e com versos do Pastor Henrique Vieira, além do belo canto das Pastoras do Rosário. A talentosíssima MC Tha canta em “A Ordem Natural das Coisas“.

A serena “Quem Tem Um Amigo (Tem Tudo)” conta com a participação inusitada de Zeca Pagodinho. Enquanto isso, o instrumental conta com o apoio dos japoneses da Tokyo Ska Paradise Orchestra (e cá temos mais uma participação internacional).

Retomando a parceria feita em seu disco de estreia, Drik Barbosa foi convocada por Emicida para cantar na faixa “9nha“, a mais romântica do disco. Para encerrar o time de parcerias incríveis, Larissa Luz canta o refrão de “Ismália“. O fim da faixa ainda conta com uma leitura do poema de mesmo nome (escrito por Alphonsus de Guimaraens), na voz da querida Fernanda Montenegro.

 

Mais do que referências, conceitos!

A história da cultura hip hop foi marcada pela utilização de samples, isto é, amostras de outras músicas. No início da popularização do gênero, por exemplo, muitas canções disco foram utilizadas para servir de base para os versos dos rappers.

Uma característica muito benéfica da nova cena do gênero é fazer com que os samples se voltem a favor do contexto da música, tanto em termos estéticos quanto em termos líricos. Na previamente divulgada “AmarElo”, por exemplo, temos sample da faixa “Sujeito de Sorte”, de Belchior. Mas o que ele fala (que se tornou justamente o refrão na voz de Majur) traz todo o contexto da canção à tona, falando sobre resistência. “Belchior tinha razão”, exalta Emicida.

O mesmo acontece em “Eminência Parda”, onde Dona Onete faz do refrão de um dos cantos presentes no ótimo O Canto Dos Escravos, álbum que ressalta as nossas heranças africanas. Um outro exemplo de obra usada para tornar a narrativa de AmarElo ainda mais rica foi o poema “Ismália”. A emoção da voz de Fernanda Montenegro nos ajuda a entender melhor o dilema enfrentado pela personagem principal.

Isso sem citarmos outras referências ricas inseridas no disco. Se pensamos para pensar, trazer as vivências de artistas não brasileiros reforça a ideia de uma afirmação de existência. Não importando o idioma, a luta é de todos! Seja nas Américas, seja na Ásia ou seja na Europa. O que o disco nos mostra é mais do que o clichê de que “música é a linguagem universal”.

“Um sorriso ainda é a única língua que todos entendem”, afirma o rapper.

     
 
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