Por Alexandre Bezzi

Elas não cansaram de ser sexy! O Cansei de Ser Sexy, ou CSS, vai retornar para um grato e aguardado show dentro do Popload Festival no dia 15 de novembro na capital paulista. O atual quarteto formado por Lovefoxxx, Ana, Luiza e Carol retorna após oito anos de hiato para uma única apresentação… por enquanto.

(Foto por Mariana Juliana)

Quatro álbuns, mudança de gravadora, formação e polêmicas cercam a carreira da banda que entrou na lista de uma das mais bem sucedidas saindo do país desde o Sepultura, e de lá pra cá todas tomaram outros rumos nos últimos tempos e se envolveram em diversos projetos com fotografia, culinária, artes, além de música, claro!

Parte da banda fixou endereço nos Estados Unidos e a vocalista Lovefoxxx foi dedicar-se fortemente a mutirões agroecológicos em comunidades campesinas do Sul do país que lutam para conscientizar sobre reflorestamento e preservação de áreas verdes.

Todas estão com saudades dos fãs e amigos brasileiros e a apresentação promete uma saraivada de hits que vão mexer com a memória afetiva de quem era adolescente ou estava na casa dos vinte e poucos anos quando o grupo estourou.

 

Retorno do Cansei de Ser Sexy

A banda está animada e em sua conta do Instagram, tem inclusive mobilizado os fãs como na campanha em que pediu por vídeos dos seguidores que serão exibidos no telão durante a performance de “City Grrrl” no show.

Além disso, eu não poderia deixar de falar que a homenagem que a banda fez para este que vos escreve, “Bezzi”, completa quinze anos e vai ganhar um re-edit assinado por mim e pelo produtor Murilo Mac.

Você pode ouvi-lo aqui mesmo, ao final dessa entrevista exclusiva que fizemos com a banda.

Bezzi: Sobre o show de retorno do Popload Festival, como pintou o convite? Vocês aceitaram de primeira ou deram uma pensada? Lembro que no dia do cancelamento do Beirut ficou um burburinho sobre o nome de vocês e me segurei para não falar nada sem confirmação.

Luiza: Acho que a Ana tem mais informações já que o email veio pra ela. Foi meio inesperado mas nós sempre pensamos em tocar no Brasil ao longo dos anos, simplesmente porque não tocamos muito por aí e é nosso país, então sempre tem uma motivação maior. Pensamos se faria sentido e achamos uma situação que fez.

Ana: O Popload já tinha entrado em contato para um possível show no Brasil que não deu certo por questões logísticas, mas a gente disse que se fosse no momento certo a gente se interessava. O Beirut cancelou, eles ofereceram o slot pra gente e foi meio que o momento perfeito num festival super legal.

Bezzi: Como está a rotina de ensaios após tanto tempo longe? Vocês têm se encontrado regularmente? Vinham tocando e vivendo a música de alguma outra forma nesse período? Não precisam dar spoiler, mas tem alguma surpresa para o show do dia 15 de novembro?

Luiza: Nos falamos por WhatsApp todos os dias desde que existe WhatsApp. Fazemos enorme parte da vida da outra e tirando a Lovefoxxx, que mora no Brasil mas já veio nos visitar umas vezes, nós moramos na mesma cidade e nos vemos com frequência. Eu continuo discotecando em alguns eventos (que é algo que fazia antes da banda) mas nada muito regular. Não tem nada bombástico pra esse show, acho que tocar um show depois de tanto tempo sem tocar no Brasil já é uma coisa inesperada.

Ana: A gente tá voltando pra esse show. Talvez role um projeto ou outro no futuro, mas não há nada muito certo porque a banda não é mais o centro das nossas vidas, apesar de sermos praticamente irmãs e nos falarmos todos os dias. A ideia do show é matar as saudades tanto dos palcos quanto dos nossos fãs. Quanto ao nosso público, estamos tentando viabilizar uma tour com valor mais amigável. Ainda não temos nenhuma ideia de quando isso pode acontecer.

Bezzi: Lovefoxxx, você está se dedicando a um estilo de vida mais sustentável e saudável. Como você conheceu o Multiplica!? Conte como tem sido essa experiência e como isso impactou positivamente na sua fase atual.

Lovefoxxx: Comecei a me envolver com eles em setembro do ano passado no primeiro mutirão de transição agroecológica na comunidade São Domingos de Itaperucu. Uma comunidade campesina a 3 horas de Curitiba. Eles já produziam orgânicos porém na maneira tradicional (monoculturas). O Multiplica! chegou lá pra ajudar nessa transição e fortalecer a relação deles com as sementes tradicionais da comunidade.

O objetivo do Multiplica! é criar/fortalecer uma rede de guardiões de sementes. Um banco descentralizado de sementes proporcionando a soberania alimentar para as comunidades e as pessoas. Fazemos essas trocas de sementes em assentamentos do MST também. Eu fiz o PDC (permaculture design certificate) na Austrália com o cara que começou todo esse movimento nos anos 80, mas como a permacultura é algo muito local foi participando dos mutirões do Multiplica! onde eu mais aprendi sobre plantio e manejo. Agora estou desenvolvendo murais pra escola Namastê Agroflorestal do Namastê Messerschmidt, ele é um grande professor e agrofloresteiro…

Estou muito realizada de desenvolver uma imagem pra algo tão foda quanto uma escola de agrofloresta. É assim que quero usar meus talentos, trabalho, energia, em algo que acredito. E isso é ser punk em 2020: fortalecer escolas, fortalecer assentamentos do MST, mostrar pros trabalhadores do campo que o trabalho deles é essencial; sem o campo a cidade tá fodida e sem comida.

Bezzi: Ana, Luiza, Carol, o que vocês ficaram fazendo nesses últimos anos? Se envolveram em projetos paralelos? Eu sei, mas os leitores ainda não sabem (risos).

Luiza: Eu tenho trabalhado com filmagens fazendo som direto. Foi algo que veio de uma forma um pouco natural. Fiz algumas festas e uma de quando eu morava em San Francisco (acontece em Oakland) cresceu e continua ativa, apesar de eu ir pouco, se chama “No Sé” e acontece uma vez por mês.

Fiz outras coisinhas tipo fotografia mas nada “grave” (risos) e nada diretamente com música além de discotecar. A Carol tem uma banda de covers do Lou Reed/Velvet underground que eu amo, o Lou Man Group.

Ana: Eu nunca vou ter outra banda que não seja o Cansei. Tô trabalhando com produção em Los Angeles, na parte mais logística das artes.

Carol: Durante esses cinco anos desde o nosso último show eu trabalhei com música de diversas formas, fazendo remixes compondo e produzindo para TV e comerciais. Também tenho um outro projeto com a Donita Sparks do L7, Bryan Brown do Bluebirds e Holloys, Patricia Klein do Patsy e Evan Louis Weiss do Junk e Sparks, a banda se chama Lou Man Group, a gente toca músicas do Lou Reed pintados de azul. E nos últimos dois anos eu também tenho trabalhado como private chef.

Bezzi: Quando vocês surgiram, a mídia tentou classificar a banda como Electro Rock, New
Rave… isso incomodava vocês? Muitos artistas que começaram na mesma época não
conseguiram fugir desses rótulos e, salvas raras exceções, lançaram o terceiro álbum. Vocês se consideram sobreviventes do hype? E o que acham dessa volta dos anos 2000 que está novamente viva na cultura pop?

Luiza: Sempre tem revivals de anos passados, da juventude das pessoas que agora são mais velhas e tudo bem, isso não é de hoje. Acho que nós somos difíceis de classificar, assim como muita coisa da nossa época em diante, mas nunca levamos essas coisas muito à sério. Jornalismo de música raramente é algo que se possa levar muito à sério, tirando algumas exceções. O próprio nome da banda comprova que nunca esperávamos que isso viraria algo sério, um trabalho, uma coisa a se responder em entrevistas, então tudo que veio foi lucro. Acho que essa falta de expectativa sempre foi boa pra gente e por isso continuamos indo, sempre fazendo porque estávamos afim e da forma que estávamos afim. Paramos pra viver outras coisas e esse show estamos fazendo porque ficamos afim e porque é divertido.

Ana: Só incomodava quando colocavam a gente pra tocar num palco cheio de DJs sendo que nosso show sempre foi bem mais do rock… então sempre houve uma desconexão do que a banda é, e a ideia do que a banda é. Acho que a dificuldade de classificar era porque é uma banda de meninas que sempre ocupou o espaço LGBTQ com uma estética não muito convencional.

Nós lançamos quatro álbuns. Isso é porque existe uma certa competência em relação ao que a gente faz. É isso que você quer dizer sobre “sobreviver ao hype”? Acho que talvez se entenda por hype, pra gente foi o sucesso que conseguimos no começo da banda e com o nosso primeiro disco, que viabilizou uma carreira muito mais longa do que imaginávamos. Toda banda que tem um certo sucesso tem um momento de “explosão”.

Bezzi: Quais artistas estão presentes em suas playlists atualmente? O que não pode faltar e quais nomes inspiram sua nova fase de vida?

Luiza: Ouço muito Metronomy, Christine and the Queens, BaianaSystem, Robyn, acho que talvez mais do mesmo. A gente ouve de tudo. Atualmente estou assistindo a um documentário de 16 horas sobre música Country e ficando mais imersa nisso.

Apesar de não gostar de muita coisa ainda adoro Dolly Parton, Townes Van Zandt, Lucinda Williams. A gente ouve de tudo, coisa nova, coisa velha, só vai adicionando e sempre vamos ter aquele passado roqueiro de ouvir Pixies, Bikini Kill, PJ Harvey e também Caetano e house, pop, etc…

Bezzi: Com tanto ódio sendo destilado nas redes sociais e na vida real, vocês acham que há espaço para amor e artistas que não foquem tanto na tristeza, uma vez que a cena pop está tomada por músicas artistas que têm como foco temas como o lado melancólico da vida e a alienação social?

Lovefoxxx: Como manter letras leves e otimistas quando vivemos o apocalipse? Acho que a gente tem que chutar o pau da barraca mesmo. Ser sincera e nos expressar. Eu quero ver a galera acordar, então o circo pegar fogo. O que mais precisa acontecer? Vamos acordar para as prioridades! Sem solo não se tem comida. A separação do humano com a natureza não faz o menor sentido. Então ela (a natureza) que se expresse mesmo e passe o rodo. Não tem capital ou religião que salve quando a ela gritar. Só agrofloresta salva!

Ana: A melhor arte sempre foi feita em momentos macabros – vide ditadura militar. Se a arte é feliz ou triste, acho irrelevante, sinceramente. Acho que tem espaço pra tudo em todos os momentos, mas é mais fácil achar inspiração em momentos difíceis.

Bezzi: Que recado vocês dão para os fãs que estão contando os dias para ver a volta do CSS? O que eles podem esperar futuramente?

Lovefoxxx: Meu recado é: Queridos fãs, passem menos tempo na internet! Vai te trazer mais qualidade de vida! E para aqueles que vão ao show, estamos muito animadas, com saudades…

Vocês, fãs brasileiros nos fazem rir muito com os comentários no instagram! Vocês são muito engraçadas. Um bando de bicha linda e esquisitonas. Com amor, Lóvi.

Ana: A nossa volta por enquanto se resume a esse show. Por enquanto não existem muitos planos concretos pro futuro, mas uma das coisa que queremos fazer é viabilizar uma tour no Brasil.