Marcelle
Foto: Patricia Araujo
 

Por mais objetivo que o questionamento “Quem É Você?” pareça, é evidente que a resposta nunca está na ponta da língua. Aliás, somos mais do que apenas nossos nomes. Somos uma mistura complexa de sentimentos, peculiaridades e vivências.

O esclarecimento sobre quem somos vem com o tempo, já que o cotidiano influencia fortemente a nossa personalidade e nossa visão de mundo. Então, tente imaginar o quão difícil é para um artista se afirmar como tal. Um artista, caro leitor, não é apenas seu trabalho. Poucos são aqueles que aceitam suas mudanças e tentam transcrevê-las para suas canções. Poucos fizeram como a sergipana Marcelle, que, em meia a um processo de entendimento sobre si mesma, incorporou novas faces de suas vivências em seu terceiro disco de estúdio.

Após lançar estrear em 2012 com o disco One Oh 1, ela se assumiu como compositora experimental em 2017, com o lançamento de Equivocada. Atualmente, ela divulga seu terceiro disco cheio, intitulado DiscoNeXa. Nele, ela mostra um lado mais pop, mas sem deixar de lado suas referências musicais e o experimentalismo que a catapultou na cena alternativa.

 

“As referências vão se encontrando, né?”

Tivemos a oportunidade de conversar com Marcelle por telefone. No papo, conversamos sobre sua nova fase, onde se reconhece, de fato, desconexa. A compositora nos falou sobre sua evolução enquanto artista desde o início de sua carreira. Também ouvimos um pouco sobre o caldeirão de referências musicais que dá origem à sua rica sonoridade.

Confira a entrevista logo abaixo:

Capa de "DiscoNeXa" (Marcelle)
Foto: Divulgação

TMDQA!: O seu novo disco é, por assim dizer, “desconexo”. Vejo que são músicas difíceis de seres rotuladas ou colocadas em uma caixinha. Hoje, mais do que nunca, a produção musical brasileira tem essa característica de não se restringir mais a gêneros específicos. Você também tem essa visão?

Marcelle: Muito! Acho que, no meu trabalho, eu sempre dialoguei com essa parte mais regional da coisa mesmo, porque é o que cresci ouvindo, já que sou nordestina. Ouvindo forró, arrocha… Isso foi muito influente para mim, apesar de eu ser muito pop, agregando muito do que ouvi ao longo dos anos 90. Também tem muito das referências dos meus pais: Queen, Rod Stewart… Acho que isso tudo deu origem ao meu trabalho.

Mas eu concordo que a música brasileira também atravessa um momento interessante. O mundo, de uma maneira geral, está bem menor. Acho que as referências vão se encontrando, né? Estamos em um momento de “colheita” desse encontro, que é muito frutífero.

TMDQA!: Eu vejo que o disco tem um lado mais experimental, que carrega um pouco a época do Equivocada, mas sinto que, dessa vez, você trouxe elementos mais pop para a sua sonoridade. Como foi desenvolver essa estética para o disco?

Marcelle: Isso era uma questão que eu tinha para resolver. Eu acho que era o som que eu queria atingir, mas eu ainda não sabia como. Quando encontrei o Samuel Fraga (produtor do disco), a gente também começou um outro projeto, o Olympyc. Nesse projeto, a gente já brincava muito com timbres mais pop. Quando comecei a compor as músicas novas, conforme mostrava para ele, a gente já transferia isso para essa linguagem. Fomos montando esse quebra-cabeça. Acho que a ordem do disco faz toda a diferença para se ter essa impressão, sabe? Eu penso muito nessas coisas.

TMDQA!: Como você desenvolveu a ordem do disco. Como a narrativa foi pensada?

Marcelle: Rapaz, foi muito tempo pensando, viu? Eu quebrei muito a minha cabeça. As duas primeiras músicas que gravamos foram “Memória” e “O Affair“. Depois gravamos “Pé N’Areia Pa Sereia“. A partir dessas faixas, eu já comecei a entender que a coisa ia ser meio desconexa. Então, esse nome já estava há bastante tempo na minha cabeça.

Aí eu comecei a imaginar a estética do disco. Eu não queria que fosse nada muito chocante. Eu queria que fosse mais minimalista, mais diferente do que o Equivocada. Eu queria que fosse algo mais sofisticado. As coisas foram se clareando na minha cabeça desta maneira. Aos poucos, passei a entender mais sobre o contexto. Por exemplo, uma coisa que eu não conseguia entender era onde entraria “Disconexa“, que é uma música que não tinha nada a ver com o disco. Passei a pensar em um lugar que seria justamente disconexo. E esse contexto teria que pairar o disco inteiro. “Pé Na Areia” já trazia isso da introdução. Eu já coloquei isso na minha cabeça e passei a trabalhar baseada nesse contexto, sabe?

 

“… esse lance de poder existir em outra persona”

TMDQA!: Eu cheguei a uma conclusão aqui. Me corrija se eu estiver errado, mas comparando com seus dois últimos álbuns, eu sinto uma evolução de personagem. Enquanto, em 2017, existia essa questão do “Equivocada” talvez como algo mais experimental, de não seguir as regras à risca, eu sinto que agora você se assumiu enquanto uma personalidade desconexa. Assumiu estar fora do padrão. Enxerga isso também?

Marcelle: Você entendeu, e eu também sinto dessa forma, até porque me sinto mais segura para existir enquanto um personagem. Eu entendi que eu gosto mais do palco do que eu imaginava. Gosto muito da possibilidade de fazer qualquer coisa no palco. As pessoas têm um carinho muito maior por quem está lá em cima, sabe? Por mais que seja aquele lugar onde está todo mundo se olhando, eu acho que é um lugar de escuta muito generoso, que me permite, particularmente, muitas coisas. Fui entendendo isso e desenvolvendo esse lance de poder existir em outra persona, sabe? Aprendi a gostar disso, e me ajuda muito a chegar na personagem desconexa que quero ser agora.

TMDQA!: Isso que você falou é verdade! A questão do ao vivo, da contemplação… Existe um calor diferente nisso. Vai além de simplesmente escutar um disco.

Marcelle: Parece que é muito glamour, mas não tem muito disso. Eu vejo exatamente o contrário. Assim, eu me permito muito mais, porque percebo que se alguma coisa der errado, as pessoas não vão necessariamente me julgar. Atualmente, é um dos poucos lugares onde eu sinto essa liberdade. Esse disco é um refúgio para mim. É uma benção poder existir desta forma. Sou muito felizarda em poder estar fazendo isso.

TMDQA!: Ainda sobre essa questão do ao vivo, como as novas músicas vão se encaixar nos repertórios dos seus novos shows? Você pode adiantar algo sobre?

Marcelle: A gente vai incluir músicas antigas no novo repertório. Vai ser esse disco na íntegra, mas vai ter também coisas do Equivocada em momentos bem pontuais. Eu sempre gosto de pensar que o ao vivo é melhor do que o disco. Não fico satisfeita enquanto não sentir isso. Tem também um outro tesão em montar esta setlist, que é uma outra viagem, uma outra narrativa… As variações de arranjos que são boas e meramente humanas. A gente fica criando mais em cima disso, e o disco começa a criar vida. É muito gostoso esse processo.

TMDQA!: O disco tem participações de nomes como Ava Rocha, Léo Monstro, Julia Valiengo… Como essas parcerias foram surgindo, e o que elas acrescentaram ao álbum?

Marcelle: A Ava é minha parceira de composição na sétima faixa, “Embate“. Ela é uma cantora que admiro muito, e uma pessoa muito generosa. Eu tinha a harmonia, mas não conseguia colocar a letra. Ela fez isso muito rápido. O Léo Monstro, que é meu tecladista, é meu parceiro de composição em “Disconexa”, que fizemos enquanto estávamos fazendo os shows do Equivocada. Eu lembro de ter bolado o riff, e então começamos a tirar essa onda. Virou até o nome do disco!

Manuel Cordeiro deveria entrar como compositor de “Malibu“, porque a gente gravou a guia da música e depois ele gravou as guitarras oficiais. Ele criou um novo universo para a música, com aquele arranjo disco, e fiquei muito maravilhada. É um cara incrível, uma lenda da música. Quando ele topou participar, eu nem acreditei. Tem também o Guilherme Held, que gravou umas guitarras bem especiais para “Carnaval de Estrelas“. Não dá nem para explicar. E tem a Julia Valiengo, que participa de “Desconcentração“. Ela é uma grande parceira.

 

“Eu não sou uma compositora de músicas muito difíceis”

TMDQA!: Uma coisa muito legal no mundo da música é quando ouvimos um álbum e sentimos que ele é mais do que puramente canções. Eu gosto daquelas músicas que te permitem fechar os olhos e viajar para algum contexto. O DiscoNeXa me passou essa sensação. Gostei muito que ele brinca também ao evocar sonoridades, como você fez ao citar George Michael em uma música e nomear outra “Kelly Key”. Isso me fez pensar: o que você usou mais como referência para inspirar a sua música?

Marcelle: Amo essa sensação também. Eu sou da geração da MTV, então clipes são maravilhosos para mim. Me apaguei muito à música por causa disso. Eu era uma adolescente. Até hoje eu lembro daquela coisa anos 90. “Baba Baby“, da Kelly, foi uma das primeiras músicas que toquei no violão. De repente, me surgiu o nome dela enquanto estava compondo uma canção. É um grande caldeirão de influências sonoras e estéticas. Acho que, em 2019, eu não consigo mais imaginar a pretensão de criar algo que seja completamente novo. O que eu posso fazer é ser muito esperta na colagem mental que eu faço das coisas. Essa é a minha arte. Eu não sei se vou, algum dia, criar algo novo ou que seja tão bom ao ponto de merecer ser repetido. As coisas passam muito rápido. São pequenos recortes de momentos. É tudo muito efêmero.

TMDQA!: Essa questão do “caldeirão” costuma resultar em algo muito satisfatório. Eu consigo considerar a mistura das suas influências algo original. Você pescou de diversas águas, o que é ótimo.

Marcelle: Eu não sou uma compositora de músicas muito difíceis. As minhas músicas são simplórias, sem arranjos muito mirabolantes. A gente tem espaço para pirar ali. Também temos esse lance de sermos imagéticos, o que nos dá mais liberdade sem parecer cafona. São coisas que a gente vai evoluindo.

TMDQA!: Como você encara a sua evolução enquanto artista nesse tempo? Como você mesma disse, tem muita coisa acontecendo, e chegamos no momento em que não tem como criar algo novo, mas você já ouviu muita coisa e, com certeza, aprendeu com tudo isso.

Marcelle: Eu me sinto muito mais segura e livre de pré-conceitos. Eu acho que essa evolução pessoal é a grande chavinha que me permite falar essas coisas que estão nas letras. Existem coisas completamente confessionais… São coisas que, há pouco tempo, eu não teria coragem de fazer. Quanto mais livre eu me sentia, mais evoluía a minha sonoridade. Quando fui de Equivocada para DiscoNeXa, quem já me conhecia nem me perguntou o porquê da mudança. Acho ótimo poder confessar mais coisas para que as pessoas se identifiquem mais, aprofundando cada vez mais esse diálogo. É esse o lugar que eu miro, de me aproximar e de ter um lugar que as pessoas entendam sem julgamentos. Quero que aquilo sirva de espelho para elas de alguma forma.

Show em São Paulo

Na sexta-feira, 25 de Outubro, Marcelle se apresenta com Jonnata Doll & Os Garotos Solventes.

Você pode ver todas as informações logo abaixo.

Serviço

Marcelle discoNeXa + Jonnata Doll & Os Garotos Solventes
Dia 25 de outubro – sexta feira
Casa abre as 21h / show as 23h
$ 20 – aceitam cartões
Cia Pessoal do Faroeste / rua do Triunfo, 301 – Luz

     
 
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