Green Day - American Idiot
 

Em 20 de Setembro de 2004, o Green Day dava um de seus passos mais ambiciosos na carreira. American Idiot era oficialmente apresentado ao mundo, e trazia uma série de quebras de padrões por parte da banda e vinha carregado de mensagens políticas.

A decisão veio depois do guitarrista e vocalista Billie Joe Armstrong ter optado por aumentar a quantidade de conteúdo político em suas letras e também de contar uma história através de um novo formato para o trio. A vida adulta parecia ter alcançado o cara, à época com dois filhos pequenos, e a necessidade de expor suas visões de mudança ao mundo veio com força.

Além disso, o grupo vinha escrevendo um novo álbum chamado Cigarettes And Valentines no formato “padrão”, mas suas fitas foram roubadas, e aí veio a vontade de começar tudo do zero.

A banda também apresentou diversas novidades no processo de composição instrumental por si só. Definido por eles como um disco conceitual e uma “ópera punk rock”, o American Idiot passeava entre canções rápidas como “St. Jimmy” até as épicas “Jesus of Suburbia” e “Homecoming”, com respectivamente 9:08 e 9:19 de duração.

A concepção da ópera punk rock

Mais inusitado do que ter faixas de 9 minutos, só o processo de composição destas e a forma como foi tomada a decisão de fazer um álbum conceitual.

Originalmente, os membros do Green Day estavam fazendo uma espécie de competição. Billie Joe, Mike Dirnt (baixo) e Tré Cool (bateria) foram desenvolvendo pequenos trechos de 30 segundos, um tentando ser melhor do que o outro. Daí, os caras foram ligando esses pequenos trechos até formar as longas canções.

Foi assim que surgiram as duas músicas citadas acima, “Jesus of Suburbia” e “Homecoming”. A primeira, aliás, carrega o nome do personagem principal da ópera – Jesus do Subúrbio era ainda acompanhado pelo Santo Jimmy e pela Whatsername (que, em tradução, seria algo como Qualéonomedela.

Depois dessas aventuras, a concepção do disco passou a girar em torno disso. Músicas passaram a ser movimentos de uma apresentação, e assim surgiram outros capítulos; mas não sem antes o vocalista viver algumas aventuras em Nova Iorque que também trouxeram novas nuances ao álbum.

Green Day e Nova Iorque

As histórias contam que, em uma tentativa de individualizar mais suas ideias, Billie Joe resolveu passar algumas semanas sozinho em Nova Iorque.

Neste período o frontman esteve em contato com compositores como Ryan Adams Jesse Malin, além de supostamente ter participado de várias jams no subsolo de um bar em Manhattan chamado Hi-Fi.

Esse período acabou nos presenteando com algumas das canções mais diferentes e marcantes do disco, como as excelentes “Boulevard of Broken Dreams” e “Are We the Waiting”.

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Ambas possuem claramente uma ambientação mais “classuda”, com uma pegada um pouco mais distante do punk rock clássico e com letras mais voltadas a conflitos internos e batalhas pessoais cotidianas, situações comuns na cidade americana.

Temática sociopolítica e relevância atual

É impossível falar do American Idiot sem citar a faixa-título, um dos maiores hinos de contracultura dos EUA.

Como citamos no começo, a necessidade de Billie Joe de falar sobre temas relevantes à sociedade impulsionou a composição do disco – e em especial da música em questão.

“American Idiot” abre o trabalho já como uma introdução e ao mesmo tempo um resumo de tudo que vem após. Os versos da canção são inesquecíveis: “Não quero ser um idiota americano/Não quero uma nação sob a nova mídia/E você pode ouvir o som da histeria?/A América que fode nossas mentes subliminarmente”.

Consequentemente, o disco fala muito sobre a situação dos EUA no início dos anos 2000. Com George Bush no poder, uma série de fatos com os quais os membros não concordavam se desencadearam – como a perspectiva de guerra nos EUA e a massificação de paranoias pela “nova mídia” – e tudo isso foi abordado na obra.

Uma das maiores preocupações da banda, no entanto, era de fazer músicas que transcendessem o tempo em que viviam. Segundo entrevista à revista SPIN:

Billie Joe Armstrong: ‘Nós sempre quisemos que nossa música transcendessem o tempo. Até as coisas políticas que estamos fazendo agora. Eu nunca pensaria em ‘American Idiot’ como sendo sobre a administração Bush especificamente. É sobre a confusão em que estamos agora.’

Mike Dirnt: ‘O mundo está em um estado confuso. Eu estou puto, estou bravo, e eu sinto que não sou totalmente representado.’

Billie Joe explica ainda na mesma entrevista que ele e sua mulher planejavam votar em Al Gore, candidato do Partido Democrata à época, mas de última hora mudaram de ideia e votaram no político de esquerda Ralph Nader.

A polarização, antes uma quase exclusividade do sistema bipartidário dos EUA, é um problema que definitivamente vem atingindo cada vez mais sociedades no mundo. Sobre tudo isso, os caras disseram:

Billie Joe Armstrong: ‘[Votar em Ralph Nader] Foi uma questão de consciência. Eu pensei que se 5% da população pudesse votar nesse cara, teríamos outro partido. Você pode imaginar nos EUA com três partidos? Mas agora você não pode votar com sua consciência. Você tem que votar em quem quer que vá tirar a direita do poder. E isso é o que me deixa louco – não tem outra opção.’

Tré Cool: ‘Sangue ou ketchup. Você vota em sangue, ou você vota em ketchup. Eu voto no ketchup.’

Definitivamente o objetivo dos caras de fazer essa música atemporal foi alcançado, já que no ano passado a faixa-título disparou nas paradas após a eleição de Donald Trump nos EUA.

O legado de American Idiot

Além de toda a questão política que segue fazendo o disco relevante até hoje, o álbum rendeu material ao Green Day por muitos anos.

De musical na Broadway que teve até Davey Havok (AFI) em um de seus elencos a um filme da HBO que, aparentemente, ainda está em produção, o trabalho ganhou diversas versões e adaptações.

American Idiot pode até não ser o disco mais bem sucedido comercialmente do Green Day (Dookie ainda leva o título), mas certamente foi a obra que fez com que eles transcendessem do status de famosos para absolutos rock stars.

Nas palavras de Courtney Love: “O Billie Joe está lindo. Sabe quando as pessoas ficam super VIPs, a cara delas fica mais bonita? Eu acho que é percepção. É algo que acontece no seu subconsciente”.

Mais bonito ou não, Billie Joe e seus dois colegas de banda certamente marcaram uma geração com American Idiot. Vale a pena relembrar essa obra prima no player logo abaixo!

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