Rael
Foto: João Wainer
 

O hip-hop ganhou bastante visibilidade ao longo da última década, sendo aos poucos incorporado na nossa música popular. Um dos nomes de destaque nesse cenário emergente é o rapper paulista Rael. Ao longo do lançamento de seus três discos, ele viu sua popularidade crescer, conquistando cada vez mais fãs e espaço nas rádios.

Nesta quinta-feira (12), Rael lançou seu quarto disco, mantendo a sua já característica atmosfera good vibes que mistura elementos do hip hop com o reggae. O nome do disco, Capim-Cidreira, remete à erva medicinal de mesmo nome, que costuma ser ingerida em formato de chá. Ela tem propriedades calmantes e um aroma agradável. A metáfora é um claro spoiler da sonoridade do disco, que conta com 10 faixas e com as participações de Thiaguinho e do trio Melim.

“A música é um diálogo”

Em seu novo trabalho, Rael assumiu não apenas a composição das faixas, como também a produção. Isso marca uma mudança em seu processo criativo, além de provar o amadurecimento de um artista que se mostra a cada dia mais experiente.

O disco também traz mudanças sutis na sonoridade do rapper. Após visitas ao continente africano, Rael absorveu experiências locais que contribuíram fortemente para a atmosfera sonora de Capim-Cidreira.

Entrevistamos ele por telefone, e perguntamos sobre esse “novo” Rael, sobre as novas referências, novos processos e mais. Confira abaixo o papo:

Capa de "Capim-Cidreira" (Rael)
Foto: Divulgação

TMDQA!: Palavras têm poder de cura. Podem ser como um abraço para quem estiver ouvindo. Considerando que vivemos tempos estranhos, é importante sentir esse abraço, esse poder curador e reconfortante da música. Como você enxerga isso? Como é produzir tendo em mente esse poder das palavras?

Rael: Eu acredito muito nisso. Por exemplo, eu apelidei o meu estúdio de “Horta”. Eu comecei a falar direto isso e, quando fui ver, já estava plantando (risos). Agora tem uma hortinha na frente. O poder da palavra fez com que eu me conectasse mais com a natureza, já que comecei a me interessar mais por plantas. Uma coisa que é repetida, uma coisa mântrica, começa a fazer parte do seu dia-a-dia.

Pensando por esse ponto, a música é um diálogo. Você está jogando várias palavras, mas elas não estão indo só ao vento ou trafegando pelas ondas de rádio. Elas estão se comunicando diretamente com as pessoas. Eu já recebi vários depoimentos de pessoas que comprovam isso. Uma pessoa falou uma vez que gostava de uma menina com quem estudava que se mudou para Natal. Ele falou que uma música minha o inspirou a meter o louco e ir atrás dela. Recentemente, ele mandou uma foto do filho dele, que ganhou o nome Rael. Você acaba percebendo, assim, que está transformando vidas através das palavras.

TMDQA!: Enquanto artista, você deve receber muitos feedbacks como esse. É como se você conversasse com a pessoa, mesmo que não seja direta ou pessoalmente. Parece que a música funciona mais do que uma conversa de bar, por exemplo.

Rael: É o que os Racionais (MC’s) fizeram na minha vida. O diálogo deles me deu auto-estima e me ajudou a encontrar a minha identidade. Foi uma mudança de vida. Eu acho que a música tem esse papel também.

“Só o amor consegue fazer essa conexão”

TMDQA!: O disco partiu de um período depressivo para você. Como foi transformar isso em um repertório leve e com uma carga energética tão positiva?

Rael: Acho que era um momento pelo qual eu precisava passar. Eu só consegui me conectar com essa calmaria que existe nas músicas porque precisei passar por esse processo, sabe? Assim, você começa a entender que tudo faz sentido. Às vezes é algo que precisa ser vivenciado. É algo que precisava acontecer, mas que vai passar. Acho que essas músicas refletem muito a calmaria que eu queria viver naquele momento. Hoje, ouvindo mais as músicas, eu consigo ficar nessa brisa mesmo. As músicas ficaram calmas, para cima, good vibes.

Eu acho também que o mundo está precisando disso. Acho que agora é hora de respirar e de acalmar um pouco, no sentido de ter uma brecha para pensar o que precisa ser feito. Estão acontecendo várias coisas no mundo, e sinto que as pessoas estão meio perdidas e desconectadas. Eu acho que só o amor consegue fazer essa conexão. A internet surgiu do sonho de unir pessoas, mas de uns anos para cá tem nos afastado cada vez mais, com discursos de ódio, polarizações e etc… Em shows, vejo que as pessoas se confortam e se encontram, como se fosse uma forma de terapia. É algo que nos alimenta de certa forma.

TMDQA!: O calor do ao vivo remete também a essa questão do poder de cura da palavra. Se você escutar negatividades o tempo inteiro, isso pode prejudicar a pessoa. Precisamos de alguém falando coisas positivas, nos dando esperança com esse “abraço”.

Rael: Quando começamos a ser gratos pelas coisas, começamos a ver a beleza delas. Às vezes a gente começa a ser bombardeado por essas informações e esquecemos que existe uma vida acontecendo. Não é só a negatividade que precisa dominar o ambiente. Quando eu me vi assim, com a cabeça meio “bad vibes”, vi que estava normal, porque quem não estiver mal neste momento está louco (risos). A gente, que trabalha com criação, começa a sentir as coisas. Parece que você absorve um pouco da dor e acaba ficando meio para baixo.

TMDQA!: Em Capim-Cidreira, você mudou o seu processo criativo, passando a compor o instrumental e a estrutura das canções. Como foi isso?

Rael: Foi um aprendizado muito bacana! Fiz tudo do começo para ir encontrando o caminho de cada faixa. Participei de todos os processos enquanto cada música ficava pronta. É um trabalho grande. Para quem veio do processo de apenas compor letras, é um trabalho pesado. Mas quando as coisas começam a tomar forma, você ouve exatamente o que queria ouvir. Se você divide o processo com alguém, às vezes as coisas acabam tomando um outro rumo.

TMDQA!: Você coloca mais a sua cara nas músicas dessa forma, certo?

Rael: Exato! O [Daniel] Ganjaman me aconselhou a arrumar um PC para conseguir fazer sozinho. Tive umas aulas e a partir daí, desenvolvendo minha intimidade com a máquina, passei a fazer meu próprio estilo de som. O [Carlos Eduardo] Miranda também me incentivou muito nisso! Ele que produziria este disco, mas ele acabou falecendo nesse tempo. A partir daí, decidi fazer por conta própria.

“Eu sempre misturei muito”

Rael
Foto: João Wainer

TMDQA!: Em termos estéticos, o disco consolida ainda mais a sua expertise ao misturar elementos do hip hop com o reggae. Desta vez, no entanto, sentimos a adição de mais elementos, inspirados especialmente pelos ritmos africanos. Suas recentes visitas ao continente devem ter contribuído para isso. Como foi somar essas novas influências à produção das canções?

Rael: Essas viagens com certeza ficaram impressas nas músicas. Começou com “Flor de Aruanda“, quando fui para Angola fazer o clipe. Eu já tinha ido para a África antes, onde aprendi muito sobre o afrofusion, que é algo que começou com o afrobeat e que hoje vem se misturando com timbres mais atuais. Isso me pegou também. Como curtia a sonoridade, achei que seria algo que eu conseguiria imprimir no disco. Existem essas influências africanas, referências que vêm do reggae e do boom bap. Tem uma pouco de Vinicius de Moraes também, já que fala de santidades. Quando eu estava rodando fazendo o show de covers de Vinicius, você acaba repetindo aquelas coisas e fazendo com que aquilo faça parte da sua vida também.

TMDQA!: Nessa sonoridade cada vez mais elaborada, a gente sente que seu som não consegue ser colocado em uma caixinha. Isso é muito rico.

Rael: Eu sempre misturei muito, e senti que agora eu estava mais experiente para fazer essa mistura, sabe? Eu queria fazer isso, mas não conseguia dar vida a isso já que não tinha esse conhecimento todo. Essas viagens me ajudaram muito! Fui para Zimbábue, depois para a Tanzânia… É uma coisa contagiante. Tudo que você vê no disco, no final das contas, é África: afrofusion, hip hop, reggae…

TMDQA!: O que mudou para você nesses últimos três anos? O que acha que aprendeu ou desenvolveu mais ainda enquanto artista além das questões técnicas?

Rael: Eu acho que mudou o meu ritmo de trabalho. Eu estava vivendo três turnês: uma violão-e-voz, outra do Vinicius de Moraes e a turnê do Coisas do Meu Imaginário. Foi um período muito intenso musicalmente. Eu acho que foi isso que fez com que eu me sentisse mais criativo para elaborar o projeto e terminá-lo, embora eu tenha me atrasado um pouco. Queria ter lançado o disco em Junho, mas as coisas foram acontecendo. Mudou o ritmo de trabalho também, já que me comprometi a fazer um disco por inteiro e também a estar na estrada.

 

“O rap ainda não é tão popular quanto deveria ser”

TMDQA!: O disco conta com as participações de Thiaguinho (em “Beijo B”) e do trio Melim (em “Só Ficou O Cheiro”). São parcerias que fogem da zona do hip hop, e é muito legar ver esse contato. De onde surgiu a ideia dessas parcerias?

Rael: Eu já estava em contato com o Thiaguinho. Colei na “Tardezinha”, que é uma festa que ele faz no Rio de Janeiro. Juntos, cantamos “Envolvidão” e alguns sambas que nós dois gostamos. Fomos pegando essa sintonia. Cantei em uma música dele chamada “Miopia Ocular“. Eu decidi mandar para ele “Beijo B“, para ver se ele topava gravar comigo. Ele curtiu para caramba e abraçou a ideia. Já a Melim tinha me chamado para fazer um som há muito tempo, mas eu estava no meio do processo do disco e tive que dizer que não conseguiria fazer, mesmo gostando muito do som. Com o tempo, acabamos pegando uma sintonia de estrada. Eles são um grupo com uma vibe muito boa e, como era isso que eu queria transmitir no disco, decidi chamá-los.

Eu nunca tinha experimentado antes gravar com alguém que não fosse do rap. Gravei com vários artistas como Rincon [Sapiência], Emicida, Sombra, Edi Rock, Djonga… Eu queria dialogar mais ainda com o púbico brasileiro, porque acho que o rap ainda não é tão popular quanto deveria ser. Foi uma questão de afinidade musical também. Depois que ouvimos a música pronta, concluímos que tinha tudo a ver.

TMDQA!: Com que outros artistas você teria interesse em gravar?

Rael: Com vários! Essa é uma pergunta difícil, mas acho que chamaria a Céu. Consigo imaginar ela cantando “Espacial Naya”. Se fosse para pegar alguém do rap, escolheria o Mano Brown, que está com esse projeto incrível com o Boogie Naipe.

TMDQA!: Alguma contribuição final?

Rael: Acho que é isto! A partir de agora, a galera também pode consumir capim-cidreira através de música (risos).

     
 
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