Paula Abreu SummerStage
Foto por Jack Vartoogian/FrontRowPhotos
 

Por Fabiane Pereira

Faço minha estreia no TMDQA! em grande estilo. Somos parceiros de longa data. Este portal sempre esteve presente na minha vida profissional divulgando e ampliando o alcance dos projetos que participo. Desta vez, fui convidada a assinar o perfil de Paula Abreu, diretora associada de programação do SummerStage, maior festival de música gratuito de Nova York, e membro do conselho consultivo da SIM SP – uma das maiores feiras de negócio da música da América Latina – que acontecerá entre os dias 4 e 8 de dezembro.

Radicada em Nova York há quase dez anos, Paula Abreu já entrou no mercado com o pé na porta. Ela foi responsável pela liberação de direitos autorais de todos os artistas que participaram do álbum compilação histórico, Red Hot + Rio2, lançado em 2011. “Estava fazendo um mestrado na NYU, e a oportunidade surgiu durante este período. De lá pra cá, já trabalhei promovendo e produzindo turnês internacionais de alguns artistas como a banda Casuarina, fui Public Programming Intern no Lincoln Center nos festivais de verão Midsummer Night Swing e Lincoln Center Out of Doors”, relembra.

Uma das poucas mulheres à frente da programação de um grande festival de música, Paula está sempre atenta as novidades sonoras mundo afora porque é muito importante que a programação do SummerStage represente as mais diversas culturas presentes em Nova York.

Todos os anos a programação dos shows que acontecem no Central Park tem aproximadamente 40% de artistas internacionais que representam o que há de mais interessante musicalmente em seu país de origem. Já a programação dos parques locais espalhados em diversas regiões da cidade, promove artistas que tenham uma conexão mais próxima com aquela vizinhança. Somos um festival gratuito em parques públicos, um espaço democrático. Temos a preocupação de dar visibilidade aos artistas que não têm oportunidade no circuito comercial e artistas que enfrentam barreiras de classe, raça ou gênero. A questão da justiça social também é uma grande diretriz curatorial. Nunca orientamos os artistas em relação ao que dizer no palco, mas a escolha do artista passa também pelas ideias que eles representam.

Paula é uma mulher empática e consciente de seus privilégios. Branca e oriunda de uma família de classe média carioca, precisou rever seus valores ao se deparar com outra realidade. “Aqui sou uma imigrante. E ser uma profissional imigrante, mesmo em uma cidade cosmopolita como Nova York, não é nada fácil. As barreiras culturais fazem parte do dia a dia e isso acaba adicionando uma camada de complexidade ao trabalho. Mas ao mesmo tempo, isso é um diferencial muito valorizado numa cidade em que o mercado da música é tão saturado”, pontua.

Talvez o legado da música brasileira no mundo seja um dos únicos pontos inquestionáveis quando se trata de “Brasil 2019”. Por isso, o SummerStage tem uma noite dedicada exclusivamente a nossa música sob a curadoria de Paula. Este ano, o festival reuniu três grandes artistas (Alceu Valença, Cordel do Fogo Encantado e Labaq) no Central Park, com lotação esgotada e David Byrne na plateia. “Meu principal critério para trazer um músico brasileiro aos Estados Unidos é sua relevância no contexto atual da música e da atualidade do Brasil”, dá a dica.

Apesar de parecer moderninho, o universo musical ainda e extremamente machista. Para se ter uma ideia, 97% das composições musicais continuam sendo de homens cis e apenas 2% são produzidas por mulheres (leia mais aqui). Para evitar que no palco também haja mais homens que mulheres, Paula se preocupa em propor uma programação equilibrada entre os gêneros e este ano, pela primeira vez, o SummerStage conseguiu essa proporção, em grande parte, graças ao esforço da profissional.

Essa é a primeira temporada do festival em que houve um investimento de grande porte para a renovação do espaço no Central Park. Desde o início da temporada 2019 existia uma grande expectativa de que essa seria uma temporada histórica. Este ano, todos os shows foram bem sucedidos, a noite brasileira foi esgotadíssima e tivemos um equilibro de artistas masculinos e femininos no festival, em parceria com a KeyChange. Esse foi um marco muito importante pra nós, que direcionou as nossas escolhas porque reconhecemos a desigualdade de gênero globalmente nos festivais e a importância de dar o exemplo. Temas atuais e ligados a questões sociais como esse são sempre parte crucial da linha de curadoria e do impacto que buscamos levar ao contexto cultural da cidade.

Não existe formula. Para mudar a realidade do mercado da música, precisaremos arregaçar as mangas. Mulheres, uni-vos!