Três décadas separam o início da trajetória musical da banda de Carlos Santana e seu maior sucesso comercial, o envolvente Supernatural, de 1999. Décimo oitavo lançamento da discografia do grupo, o álbum surgiu num contexto de renascimento para o (grupo) Santana na década de 90 e quebrou recordes da própria banda.

Em 1991, chegou ao fim o contrato que o grupo tinha com a Columbia Records desde 1969, ano de sua estreia e participação no histórico festival de Woodstock, e o Santana, que já seguia por um caminho de fracassos em vendas e pouca repercussão na mídia desde o fim da década de 70, decidiu colocar o pé no freio.

A banda ainda se arriscou em mais dois discos com a Polydor/Island Records, Milagro (1992) e Sacred Fire: Live in South America (1993), sendo este gravado na Cidade do México (pois é, na América do Norte). Ambos também tiveram um desempenho fraco nas vendas e nos charts, e a situação acarretou na quebra de contrato e um hiato de sete anos do Santana, período em que os músicos se distanciaram do estúdio e das turnês.

Nesse meio tempo, Carlos Santana correu atrás de um novo contrato para que a banda voltasse a trabalhar com mais segurança, mas diversas gravadoras o achavam velho demais, às vésperas dos 50 anos, para ser contratado novamente. Foi quando, em 1995, ele viu uma nova chance.

Renascimento do Santana

Naquele ano, o músico foi convidado para participar de um documentário sobre a trajetória de Clive Davis na música, um notório executivo, produtor musical e fundador da Arista Records, e também responsável por assinar o Santana na Columbia nos anos 60. Nada teria acontecido se Deborah King, então esposa do frontman, não tivesse incentivado que Carlos procurasse por Davis para conversar sobre uma possível contratação.

O incentivo deu certo: o guitarrista conseguiu se reunir com ele para alinhar seus desejos de voltar a produzir e sua necessidade de um novo contrato. E foi enfático: queria que o Santana tivesse músicas com maior apelo para que o público se identificasse, e para que fossem tocadas facilmente nas rádios. A ideia era atingir um público que não estivesse familiarizado ainda com o trabalho do Santana. O produtor concordou em acompanhar a produção e assinou com a banda na Arista Records no fim de 1997.

A intenção de Carlos era que o novo projeto fosse um sucesso de vendas e ultrapassasse o número de Abraxas, álbum de 1970 do Santana que vendeu mais de 4 milhões de cópias apenas nos Estados Unidos. Para isso, buscou unir o som característico que deu fama à banda três décadas antes com influências contemporâneas. Davis trouxe grandes nomes como Eric Clapton, Dave Matthews, CeeLo Green e Lauryn Hill para colaborar no disco, inicialmente chamado de Mumbo Jumbo e trocado para Supernatural já nas vésperas de lançamento.

A expertise de Clive Davis e seu histórico como hitmaker foi o que possibilitou que Supernatural fosse um sucesso estrondoso. Lançado em 15 de Junho de 1999, o álbum estreou no 19º lugar da Billboard 200, a principal parada dos Estados Unidos.

Em pouco tempo, subiu para a primeira posição, impulsionado pelo single “Smooth”, o maior sucesso de Supernatural. A colaboração com Rob Thomas (Matchbox Twenty) é uma das músicas mais lembradas da década, e ficou por 12 semanas no primeiro lugar das paradas. Foi o último single a alcançar a posição nos anos 90, e o primeiro em 2000. 

“Maria Maria”, com participação do The Product G&B, foi o segundo single a chegar ao primeiro lugar, feito que não voltou a se repetir com os lançamentos seguintes. Embora não tenha emplacado mais nenhum single na primeira posição, os números de Supernatural ainda impressionam: foram mais de 15 milhões de cópias vendidas apenas nos Estados Unidos, totalizando mais de 30 milhões em todo o mundo. Carlos Santana conseguiu bater o recorde de Abraxas e emplacar o primeiro Disco Número Um em 28 anos; seu último disco a chegar nessa posição foi Santana III, em 1971.

O desempenho do trabalho conjunto de Carlos e Davis se refletiu no Grammy Award daquele ano, que premiou Santana em nove categorias, incluindo as principais de álbum do ano, gravação do ano e canção do ano, para “Smooth”. Foi a recompensa para o grupo após anos de declínio e fracasso em vendas, sem o sucesso que os primeiros anos do flower power renderam.

Supernatural foi um verdadeiro renascer para o Santana, como grupo e no sentido individual para o frontman que dá nome ao projeto. O encontro com o know how de Clive Davis e a intenção de fazer daquele o maior disco da carreira longeva da banda foram fundamentais em sua concepção. Mesmo sem intenção de promover um álbum repleto de participações estelares, foi a fórmula perfeita para que o encontro do rock com o tempero latino de Carlos Santana ganhasse o mundo e fosse a trilha sonora que encerrou os anos 90.