Rodrigo Lima (Dead Fish)
Foto: Diego Castanho
 

– Pô, cara! Você chutou a minha cara!
– Ih, irmão! Desculpa aí. Machucou?
– Que nada! Vou correr ali para me jogar também. Segura meu celular?
– Claro, mano! Sobe por aquele ponto ali porque tá mais fácil.

Ok, já ia me esquecendo. Precisamos situar você antes, né? Pois então: imagine um lugar cheio, três bandas que não economizam no peso e um contexto social e político favorável a enlouquecer você a qualquer momento.

A junção destes três elementos foi o que aconteceu no Circo Voador na última sexta (09). Dead Fish, Surra e Black Pantera fizeram shows trazendo o melhor do hardcore, do punk e do heavy metal. E, para extravasar, teve muito mosh também!

Vale enfatizar que as vertentes mais frenéticas e pesadas do rock não possuem essa estética à toa. É uma necessidade para alguns, espelhada em determinado contexto geográfico e social. O instrumental mais violento, além de ambientar e dar sentido às letras, também incita o movimento. Essa noite, caro leitor, foi um exemplo disso.

 

Black Pantera e seu importante discurso

Chaene da Gama (Black Pantera)
Chaene da Gama. Foto: Diego Castanho

A banda mineira Black Pantera, a primeira da noite, pegou um público ainda não tão grande, mas que foi gradativamente crescendo. No final, já estavam todos rodando na parte central da lona mais famosa do Rio de Janeiro.

Eles fizeram um show impressionante, com destaque para o baixista Chaene da Gama. Quem ouvisse de fora, nem pensaria que aquele som todo pertencia ao talento musical de um power trio. Mas eles também tinham coisas importantes a dizer. Descaracterizando o estereótipo de bandas de rock compostas por homens brancos, a Black Pantera usou algumas passagens entre músicas para falar sobre intolerância, racismo e responsabilidade social.

De quebra, ainda colocou todo mundo para pular ao som de uma versão “porrada” de “A Carne“, canção eternizada na voz de Elza Soares. A setlist passeou entre os dois discos lançados pelo grupo até então, com destaque para a performances arrasadora de “Abre a Roda e Senta o Pé“. Foi tão bom que até Rodrigo Lima, vocalista da Dead Fish, resolveu dar uma averiguada através da perspectiva do público.

 

Surra apresentando novo álbum

Leeo Mesquita (Surra)
Leeo Mesquita. Foto: Diego Castanho

Depois foi a vez da banda paulista Surra. Talvez eles tenham tocado no melhor momento da noite. Por um lado, o público já estava aquecido após o ótimo show da Black Pantera e, por outro, estava cada vez mais ansioso pelo Dead Fish.

Com a casa um pouco mais cheia, a banda se sentiu confortável como em outras vezes quem que foi bem recebida pelo público carioca. Desta vez, o foco estava na divulgação do mais novo disco do grupo, intitulado Escorrendo Pelo Ralo. Sem surpresas: foi ótimo!

O show começou justamente com a faixa-título do álbum e apresentou bem as novas músicas. No entanto, a setlist ainda contou com outros sucessos como “Parabéns Aos Envolvidos” e “Daqui Pra Pior“. E enquanto isso, é claro, o público se divertia em meio às rodinhas.

 

“Ei, Dead Fish, vai tomar no c*” (entendedores entenderão)

Rodrigo Lima (Dead Fish)
Rodrigo Lima. Foto: Diego Castanho

Após dois shows incríveis, é chegado o momento mais esperado da noite: o lançamento do álbum Ponto Cego no Circo Voador. O público voltou a se aglomerar na parte da frente do palco, quando, de repente, começou a introdução instrumental de “Asfalto“. Pronto: a partir daquele momento o Circo Voador se tornaria uma incessante roda punk.

A ocasião pedia as músicas do politicamente engajado novo disco da banda. Foi quando, em uma tacada só, a banda apresentou as incríveis “Sangue Nas Mãos” e “Não Termina Assim“. Mas aqueles que não tiveram tempo de decorar todo o disco puderam ficar despreocupados. Das 26 canções do repertório, oito eram de Ponto Cego.

Enquanto isso, a diversão rolava solta nos moshs. E estava liberado também o stage diving por parte do público. Aproveitando que o palco do Circo não é tão alto, uns ajudaram outros a subir. Lá de cima, a pessoa dançava, via os ídolos de perto e, é claro, se jogava aos braços dos outros fãs, em uma troca de energia que somente o hardcore é capaz de explicar. Parafraseando o famoso meme, “só quem vive sabe”.

Se parecia que a situação estava descontrolada, era apenas impressão. Estava tudo organizado na medida do possível. É claro que teve gente que não soube fazer direito, mas isso faz parte. No início do show, uma pessoa chegou a se machucar feio em meio à brincadeira, chamando a atenção da banda e fazendo com que o som parasse por alguns minutos. Antes de voltar ao repertório, Rodrigo pediu para que as pessoas tomassem cuidado (especialmente com seus pescoços). Mas a festa punk continuou, o que fez com que diálogos como o citado no início do texto fossem absolutamente normais.

Os depoimentos de Rodrigo, o inquieto e incrível vocalista da banda, não se restringiram apenas a isso. Sem desacelerar o clima do show, ele trouxe a seu público mensagens de esperança e, é claro, xingamentos bem justificados ao atual presidente da república. “Eu sei que vocês estão cansados. Nós também estamos, mas a luta continua. A luta é pra sempre”, afirmou. Ele também falou sobre isso em nossa entrevista exclusiva, publicada na época do lançamento do disco.

Devemos destacar a ótima montagem de setlist, que prestigiou o álbum mais recente sem faltar com respeito com os quase 30 anos de história do grupo. Para ilustrar isso, alguns dos momentos mais marcantes ficaram com as performances de clássicos como “Queda Livre“, “A Urgência” e “Bem-Vindo Ao Clube“. Vale lembrar também o já consagrado momento, durante a performance de “Mulheres Negras“, em que Rodrigo dá seu microfone para que garotas fiquem com a palavra.

Foi ótimo! Aliás, precisamos de noites assim para extravasarmos, certo?

Confira abaixo mais algumas fotos da noite, tal como a setlist do Dead Fish:

Setlist – Dead Fish no Circo Voador (09/08):
1. “Asfalto”
2. “Sangue Nas Mãos”
3. “Não Termina Assim”
4. “Proprietários do Terceiro Mundo”
5. “Selfegofactóide”
6. “Sombras da Caverna”
7. “Messias”
8. “Mulheres Negras”
9. “Doutrina do Choque”
10. “Rei de Açúcar”
11. “Fragmento”
12. “MST”
13. “SUV’s (Stupids Utility Vehicle)
14. “Jogojogo”
15. “Zero e Um”
16. “Queda Livre”
17. “A Inevitável Mudança”
18. “Autonomia”
19. “Descartáveis”
20. “A Urgência”
21. “Tão Iguais”
22. “Venceremos”
23. “Receita pro Fracasso”
24. “Sonho Médio”
25. “Bem-Vindo Ao Clube”
26. “Afasia”