Foto: Rodolfo Magalhães
 
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O que, afinal, significa ser brasileiro? Há tempos, muito se discute sobre a identidade do brasileiro, mas é difícil chegar a uma resposta. Aliás, somos um povo miscigenado, fruto de trocas entre brancos, negros e indígenas.

A confusão fica clara quando falamos, por exemplo, sobre música. O que é a música pop no Brasil? Temos o sertanejo, mas temos também o funk e uma crescente vertente inspirada no R&B norte-americano. É um panorama que não pode ser colocado em uma caixinha, tal como tudo que diz respeito ao nosso país.

Mas, para sabermos onde estamos, precisamos entender também o que nos levou até aqui. Existiram contextos para a criação dos diversos estilos musicais que moldam a nossa música popular contemporânea. Música criada a partir de ritmos africanos? Modas de violão dos sertões? Batidas eletrônicas com versos que remetem ao movimento? Melhoremos a pergunta inicial: o que é ser brasileiro e o que aconteceu para sermos assim?

Refletindo sobre a nossa identidade e ressaltando nossos valores ancestrais, o cantor Caio lançou recentemente a ótima “Sente o Tambor“, seu primeiro lançamento pela Sony Music. A música foi disponibiliza com um clipe oficial, dirigido pelo renomado Felipe Sassi, que ilustra bem a incessante busca identitária do brasileiro (que, muitas vezes, acaba sendo deixada de lado).

Conversamos com Caio e Felipe sobre questões estéticas que dizem respeito à produção musical nacional. Confira abaixo:

 

“Somos instrumentos”

Caio se iniciou musicalmente graças ao samba. Seu pai tinha uma banda de pagode onde tocava pandeiro. As referências da infância o levaram a explorar o samba raiz no projeto autoral Baú Novo, na época em que morou em Goiânia. Agora com a nova sonoridade, o cantor reflete sobre crenças espirituais. “É o som mais espiritual que já compus, inclusive sinto que apenas canalizei algo,” explica em entrevista ao TMDQA!. “Somos instrumentos,” conclui.

Agora, em uma postura mais dançante e percussiva, Caio mostra o potencial de ser um grande nome pop brasileiro, cenário em que se enquadram outros homens como Jão, Mateus Carrilho e Vitão. Ele enxerga essa cena pop masculina como uma crescente, mas deixa claro que o segredo para o reconhecimento é a sinceridade:

Acredito que passa por esse processo de achar seu próprio caminho, sabe? Que não há um padrão a ser seguido, em termos de moldes musicais, visuais, performáticos etc. Quando encontramos nossa própria verdade, o público também sente. E isso é o que importa, afinal: a verdade.

 

Ancestralidade e heranças culturais

O clipe de “Sente o Tambor” aborda temas como fé e resistência. Aliás, vivemos no Brasil, um país marcado pela miscigenação e que tem em seu DNA traços de brancos, negros, índios e muito mais. A ideia de enaltecer nossas heranças negra e indígena surgiu da própria vida de Caio, filho de pai negro e de mãe de descendência indígena. A coreografia do vídeo é baseada em danças indígenas tribais e africanas.

Enquanto isso, os figurinos utilizados na direção de Sassi exaltam seres do nosso folclore, como o Saci, o Boitatá, Iara e outros. A inspiração para isso veio do filme “As Boas Maneiras”. Ao assistir o filme, que conta de forma moderna o mito do Lobisomem, Caio e Felipe logo pensaram na desvalorização dada a nossas lendas e histórias, e concretizaram a ideia de explorar o folclore.

“Foi – e tem sido – um grande processo de auto-encontro, de resgate cultural para nós mesmos,” conta Caio. Ele lembra que existem padrões estrangeiros de moda, cultura e linguagem, o que acaba nos afastando de nossas próprias origens. No entanto, o cantor acredita que essas referências a nossas raízes culturais podem ter um impacto positivo na cena pop:

Mas há um movimento crescente em direção a esse resgate. Nesse sentido, o pop tem um papel educativo, informativo e reflexivo, diria até. Só podemos pensar sobre aquilo que está disponível, na pauta. Então essa é a missão: tornar público e acessível aquilo que precisa ser dito, revisitado e integrado.

Reforçando a ideia (e a importância do reconhecimento) da ancestralidade, foi disponibilizado também um conteúdo documental sobre o tema. Foi resultado de uma vontade de contar ao público, de forma didática, que a história da vida de cada um é algo muito valioso:

Internamente discutimos sobre como contar essa narrativa ancestral brasileira, que começava com uma representação dos povos originários, depois dos povos africanos e por fim dos seus descendentes mestiços. Foi quando notamos que as histórias deles e a minha se entrelaçavam, como a história da maioria dos brasileiros.

As referências ficaram claras no vídeo. Sassi, a mente pro trás do clipe, já trabalhou anteriormente na canção “Ginga” de IZA e Rincon Sapiência, outro clipe que traz essa questão. Questionado sobre suas influências, Sassi comenta se considerar uma pessoa de muita fé e gosta de enfatizar isso em suas direções. “Para videoclipes que homenageiam essas culturas tão importantes, sempre busco referências em filmes, livros, matérias jornalísticas e fotografia”, explica.

 

O clipe

Como, então, fazer um bom videoclipe pop? Coreografias? Cenários vibrantes? Sensualidade? Não existe um certo, mas, caso existisse, seria algo próximo dos trabalhos do diretor Felipe Sassi. Felipe já trabalhou com nomes como Gloria Groove e Ludmilla, algumas das atuais divas pop brasileiras. Para ele, as conquistas com esses grandes nomes vieram a partir de uma questão de identificação:

Sou aquela gay que cresceu consumindo e acompanhando as divas do pop. Posso até dizer que sou formado em Lady Gaga (assim como a IZA e a Gloria). Naturalmente, trago as referências desse universo pra dentro do meu trabalho. E sobre discurso, compactuamos das mesmas lutas e mesmos posicionamentos, sempre tentando trazer algo nos videoclipes que tenha uma importância social e que gere uma atenção sobre assuntos que precisam ser falados.

Ao longo de sua carreira, Felipe teve a oportunidade de experimentar diversas linguagens até criar a sua própria. “Isso também se dá por essa mistura de duas das minhas paixões: o cinema e o pop”, explica o diretor, que sempre consumiu muito desses dois universos.

Felipe e Caio já se conheciam antes de “Sente o Tambor”, o que facilitou muito as coisas. Para Caio, “a sensibilidade humana e artística dele (de Felipe) não deixa dúvidas sobre escolhê-lo para trabalhar junto”. O cantor conta que conselhos dados por Sassi o ajudaram muito a moldar o caminho da canção. Ele conta que a parceria foi um dos elementos que o ajudou a descobrir sua própria voz artística. “Ele é peça chave, sem dúvidas”, enfatiza.

Já Sassi, mesmo mais acostumado a trabalhar o universo feminino, não teve problemas para trabalhar com o colega. Afinal, como todos os seus trabalhos, o resultado foi um trabalho sensível e com verdade. Ele conseguiu extrair o melhor de Caio para “Sente o Tambor”.

Acredito que trabalhamos pra desconstruir essas diferenças. Os artistas que trabalho são muito bem posicionados. Sempre trazemos propostas que jogam a favor dessa quebra dos padrões sociais.

E aí? O que achou do vídeo? Deixe sua opinião nos comentários!

     
 
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