Carine-Wallauer
Foto: Carine Wallauer
 
Ouça o novo single da Majur!

O mundo da música tem se apropriado cada vez mais de recursos eletrônicos para dar vida a suas obras. Apesar de não ser um fenômeno recente, o uso de elementos como beats e sintetizadores tem sido cada vez mais explorado. E isso se aplica a todos os gêneros.

Mas o mundo da eletrônica não se restringe apenas ao que estamos acostumados a classificar como tal. Às vezes, parece que dissociamos o pop, o hip-hop e até algumas vertentes recentes do rock desses elementos, como uma impulsiva mania de querer classificar tudo.

Bebendo da MPB e de influências no rock, no trap e no lo-fi, o compositor e produtor musical Felipe Feffer resolveu dar vida ao projeto mibbi. A experimental e intrigante sonoridade é apresentada no homônimo EP de estreia, lançado recentemente.

 

“may I be I is the only prayer”

Com mibbi, Feffer conseguiu, pela primeira vez, englobar suas visões musical, filosófica e humanística em um projeto só. As várias referências foram acumuladas ao longo de sua vida desde os anos 90 até hoje. De Beatles e Queen a Tom Jobim e Adriana Calcanhoto (quem, por sinal, homenageia com a faixa “devolva-me“), o compositor moldou uma paleta musical variada. Tal paleta ficou ainda mais ampla quando ele decidiu ir para os Estados Unidos, onde cursou Filosofia e Música em Massachusetts.

Fizemos umas perguntas para Felipe a respeito do interessante projeto e suas principais referências. Também conversamos sobre a frutífera cena eletrônica nacional, e sobre o preconceito que o gênero sofre.

Vale lembrar que um segundo EP já está em fase de produção, e Felipe nos deu até um pequeno spoiler sobre. Confira abaixo:

Capa de EP1 (mibbii)
Foto: Divulgação

TMDQA!: Começar o EP com uma versão completamente original de “Devolva-me” foi algo bem interessante. Ouvindo isso de primeira, ficamos nos perguntando que surpresas mais a sonoridade nos reserva. Acredito que Adriana Calcanhoto seja uma grande influência para você, mas de onde surgiu a ideia de fazer uma versão justamente desta canção?

Felipe Feffer: Essa resposta vai ser longa! Então, a música não é da Adriana, é de uma dupla dos anos 60 que chama Leno e Lilian. A Adriana também fez uma releitura, quase uma descoberta, ao interpretar essa música. O disco Público dela foi um marco na minha infância, eu ouvi muito e amo todas as músicas. Sobre minha decisão de reinterpretar a canção, eu já tinha feito uma releitura de outra música do “cânone” da MPB, de “Sozinho”, uma composição do Peninha que ficou muito famosa na voz e violão do Caetano (Veloso). Quando mostrei minha versão dessa música pro Alê Siqueira, grande produtor brasileiro que mixou o disco, ele pirou e falou “você devia fazer mais um cover desses pro seu disco”.

Voltei pra casa e fiquei com essa missão. Minha primeira intenção era fazer uma cover de “Eu Só Quero um Xodó” do Dominguinhos. Eu queria fazer uma versão dançante e eletrônica dela, mas não consegui. Eu quero muito fazer música dançante, mas sinto que eu ainda não acertei a mão nisso. Fiquei meio frustrado e fui caminhar pelo bairro. Ai eu estava ouvindo esse disco da Adriana Calcanhotto, e percebi que “Devolva-me” tinha uma agressividade que eu não percebia na versão dela, e voltei pro meu estúdio pra tentar explorar isso.


TMDQA!: Você encontrou a frase “may I be I is the only prayer — not may I be great or good or beautiful or wise or strong”, de E. E. Cummings, durante seus estudos em Boston. De que forma a frase te ajudou nesse projeto musical e, de forma geral, na sua forma de ver a vida?

Felipe: Essa frase é uma coisa muito forte na minha vida. Eu tenho a sensação que eu não escolhi gostar dela, mas que ela precisa estar na minha vida e eu preciso descobrir como ela entra. Eu tenho vontade de dizê-la de jeitos que não só em palavras, sabe? Dizer em atitudes, caminhos de vida, jeito de andar, pensar, falar… “may i be i” mostra que o jeito de jogar o jogo dessa vida não é querendo ser grande, sábio, bonito, forte etc. É buscando ser você mesmo. Difícil!

 

“Essa estética saiu muito naturalmente de mim”

TMDQA!: Você também tem em seu currículo estudos de Filosofia. Esses conhecimentos contribuíram no desenvolvimento do álbum de alguma maneira?

Felipe: A faculdade de filosofia foi muito importante porque, logo de cara, me colocou em contato com textos e pensamentos que eu precisaria conhecer mais cedo ou mais tarde. Eu sinto que o maior impacto que essa faculdade teve em mim foi uma coisa abstrata, de ter me feito pensar e aprender a passar pelo processo de sentir profundamente um aprendizado. Sinto que isso se revela na profundidade que existe nas minhas músicas. Eu não consigo te explicar porque isso não é um processo racional consciente, mas nada ali é por acaso.

mibbi
Foto: Carine Wallauer

TMDQA!: Suas primeiras influências vieram do rock. Como você traçou o caminho até chegar a essa sonoridade tão experimental e intrigante? O que exatamente fez de Felipe Feffer o projeto mibbi?

Felipe: Fico feliz que você achou a sonoridade experimental e integrante! A primeira banda que eu amei muito profundamente e sobre a qual me debrucei foi o Red Hot Chili Peppers. Ouvi tudo, vi shows no Youtube repetidamente e li muitas entrevistas. Fiz aquela coisa de ir atrás das influências deles, e descobri que o John Frusciante ouvia muita música eletrônica. Tanto que ele saiu da banda justamente para focar em música eletrônica! Eu pensei que, ao invés de tentar explorar essas sonoridades em uma banda de rock, eu poderia simplesmente buscar a fundo o mundo eletrônico. Essa estética saiu muito naturalmente de mim. Fui descobrindo-a enquanto a fazia, a partir de anos de experimentos, aprendizados e vontades acumulados.

TMDQA!: O disco começa e termina com canções com letra, mas o meio é essencialmente instrumental. Como acha que a ausência de letra contribui com a mensagem do EP? Foi algo pensado de forma narrativa?

Felipe: Eu não pensei em uma narrativa específica pra esse EP. Eu tinha feito muita música, mais de 20. Depois sentei com o Béco Dranoff, quem me ajudou a organizar e pensar o lançamento, e agrupamos as músicas em conjuntos que faziam sentido, músicas que fluíam bem entre si. Mas no fim o ser humano sempre cria sentido, e eu adoro ouvir o que as pessoas sentem e imaginam da narrativa do EP.

 

“Rola um certo preconceito quando se fala sobre música eletrônica”

TMDQA!: A cena eletrônica no Brasil tem ficado cada vez mais forte, e com artistas cada vez mais criativos. Você tem alguma inspiração nos nomes do cenário?

Felipe: Minhas maiores inspirações são de fora do Brasil, mas eu tenho muito respeito por vários artistas daqui. O último disco da Luiza Lian (Azul Moderno, de 2018) me deixou maluco, ela atingiu um som muito brasileiro e com vários elementos eletrônicos, mas ainda preservando uma organicidade. Eu aprendi bastante com o VAntonio, um cara de música de pista que faz muito live. Com o Wendel da Beatmasters também. E tem todo o lado de festas underground, com gente como o Teto Preto.

TMDQA!: Que contribuição, na sua visão, o projeto mibbi vai deixar para a música eletrônica nacional?

Felipe: Eu tenho o objetivo de fazer muita coisa com música, de jeitos muito diferentes. Hoje eu me enxergo primariamente como produtor, e quero muito trabalhar com artistas em expandir a paisagem sonora brasileira. Rola um certo preconceito quando se fala sobre música eletrônica. Quando falo que faço isso, as pessoas entendem que eu faço EDM, e é uma limitação que não é verdadeira. Hoje essa estética eletrônica é muito disseminada. Artistas como Post Malone e Maroon 5 fazem uma música tão eletrônica quanto a minha. Mas ninguém fala que eles fazem música eletrônica, e limitam eles desse jeito. Seria lindo desconstruir essa noção fazendo música pop, rap, rock.

TMDQA!:  O que pode nos adiantar sobre os dois próximos EPs? Já tem data de lançamento confirmada? Teremos mais releituras ou mais canções autorais como “pra que chorar”?

Felipe: Uma parte do projeto mibbi que ainda não divulguei é que cada EP terá remixes, por produtores relevantes do mercado. Dia 7 de agosto eu vou lançar um remix de “Devolva-me” feito pelo Thomas Bartlett, que toca com a St. Vincent e o The National. E depois em setembro começa o lançamento dos singles do EP2. O primeiro é uma canção minha! E tem o cover de “Sozinho” que eu já falei lá em cima, que sai no ano que vem.