Fabiana Lian e Vladimir Safatle
 

Alguma vez você já sentiu que teve uma ótima ideia mas, por algum motivo, não a levou adiante? Teve uma ideia genial de apresentação de trabalho, mas o professor não deixou? Ou planejou um roteiro de viagem, mas não pode levar adiante por conta de compromissos de trabalho?

Isso aconteceu com Fabiana Lian e Vladimir Safatle ao longo dos anos 90. Eles gravaram um álbum juntos, mas não chegaram a lançar oficialmente. A justificativa? A estética do álbum, que explorava diferentes formas de acompanhamento e arranjo, fugiam do “formato clássico” de uma canção. Como trazia algo fora do comum ao explorar os lugares estruturais da voz e do piano, um lançamento desse tipo acabava sendo arriscado e até inviável para uma gravadora.

Vinte e cinco anos depois, no entanto, Fabiana e Vladimir voltaram a se encontrar e redescobriram as canções. No entanto, como muita coisa mudou no mundo da música desde então, eles acharam válido lançar, finalmente, o álbum Músicas de Superfície. Aliás, uma ideia boa não pode ficar engavetada para sempre, certo?

 

“Queríamos quebrar a estrutura clássica de acompanhamento”

Fabiana é uma conhecida figura no showbiz brasileiro e atua como produtora artística, também sendo uma das fundadoras do On Stage Lab e do grupo musical Mawaca, além de ser a mãe de Luiza Lian. Já Vladimir, além de músico, também é professor universitário, filósofo e colunista cultural da Folha de São Paulo. Apesar das rotinas cheias, eles encontraram tempo em suas respectivas agendas para se dedicar ao projeto e à sua divulgação.

Antes de um dos ensaios começar, a dupla concedeu ao TMDQA! uma entrevista por telefone. Conversamos sobre a mudança que a indústria fonográfica vem sofrendo e sobre suas consequências nos nichos musicais.

Confira:

Capa de "Músicas de Superfície" (Fabiana Lian & Vladimir Safatle)
Foto: Divulgação

TMDQA!: Como vocês se conheceram? De onde surgiu a ideia de compor em parceria?

Fabiana Lian: Antes disso, a gente já trabalhava bastante com música. Na época, eu tinha um amigo que era vizinho do Vladimir, e ele nos apresentou.

Vladimir Safatle: Esse trabalho foi resultado de um momento do qual eu estava me perguntando sobre o que ainda era possível de se fazer a respeito da forma de uma canção. Eu tinha essa ideia de tentar explorar limites, trabalhando com hibridismo entre música clássica, jazz, elementos do rock… Foi assim que esse trabalho nasceu.

TMDQA!: Esse hibridismo é perceptível no disco de vocês. As composições soam de forma diferente do habitual, mas mesmo assim são boas de se ouvir. Como que vocês pensaram as composições para explorar esses limites musicais?

Vladimir: Existem duas maneiras de se criar diferença. Uma delas é mudar de plano, sair do sistema tonal e explorar novas dinâmicas. Outra maneira é deslocar as formas. Você empurra as formas para seus limites. Esse foi o horizonte que guiou o trabalho. Eu aproveitei o fato de a Fabi ter uma característica vocal muito marcante, de tradições não-ocidentais. Ela tinha um agudo muito límpido, o que me permitiu fazer uma série de experiências que eu queria para dar novas texturas. Tudo isso acabou entrando na personalidade desse trabalho.

TMDQA!: O que vocês costumavam ouvir na época?

Vladimir: Na época, eu estava passando por uma fase de transição. Eu estava descobrindo a música erudita do século XX, mas eu ainda tinha muita referências desses trabalhos do meio do caminho, entre o pós-funk e outras referências. Mas a Fabi também tinha as referências dela.

Fabiana: Eu ouvia bastante jazz por conta do trabalho, mas sempre gostei também bastante de coisas fora do lugar. Eu estava pesquisando bastante na época por conta do Mawaca e estudava bastante canto lírico. Eu tinha uma dupla com a Magda (Pucci), em que fazíamos música brasileira e jazz, e sempre fazíamos umas inserções com música clássica. Essa ausência de fronteira, com o Vladimir, foi ainda mais além. Óbvio que eu ouvia muito rock dos anos 80: (David) Bowie, The Clash, New Order… Tudo isso faz parte do meu DNA.

TMDQA!: E a gente percebe influências do jazz e da música clássica no álbum. Tudo isso junto gera um resultado muito interessante, já que não conseguimos colocar dentro de uma caixinha. É uma coisa que parte da nova cena está propondo: fugir da zona de conforto.

Vladimir: Até a estrutura musical tinha uma visão não hierárquica. Queríamos quebrar a estrutura clássica de acompanhamento. Tem músicas onde a voz é mais baixa do que o piano, e isso foi proposital.

 

25 anos depois…

TMDQA!: É um projeto de cerca de 25 anos. O que os levou a redescobrir as canções e lança-las em 2019?

Fabiana: Nós nos reencontramos no ano passado, porque o Vlad estava fazendo um disco e me chamou para gravar um poema. Naturalmente, começamos com o papo sobre o nosso projeto. Voltamos a olhar para ele. Este ano, eu acabei fechando algumas apresentações para nós, e percebemos que fazia sentido lançar ele agora. Tem uma coisa interessante nisso que você falou de que esse trabalho não conseguir ser colocado em uma caixinha. Talvez exatamente por isso ele só possa ser ouvido agora, porque hoje talvez precisemos menos rotular as coisas.

TMDQA!: Vocês enfrentaram alguma dificuldade nesse sentido há 25 anos?

Vladimir: Há 25 anos, a gente já tinha gravado o CD, mas não lançamos porque o horizonte das gravadoras não comportava muito esse tipo de trabalho. Eu acho que o modelo de produção hoje permite que você tenha mais liberdade. Eu fiquei em crise durante muito tempo com esse trabalho, porque eu mudei bastante a minha linguagem musical. Em dado momento, anos depois, eu percebi que ele tinha um lugar interessante que era justamente conseguir dialogar com certas referências de circulação maior, mas produzindo certo estranhamento. Esse referência de diálogo se quebrou depois, então achei que valesse a pena recuperar isso para ver o que mais era possível fazer dentro dessa estratégia.

TMDQA!: Qual foi a reação ao reouvir as parcerias?

Vladimir: Ih, rapaz, essa é uma pergunta difícil mesmo (risos). Por um lado, algumas faixas me impressionaram, já que tinha até esquecido. É uma experiência interessante, porque você escreve as músicas e 20 anos depois leva um susto quando relembra. Você não reconhece mais as próprias formas de escrita. Algo me diz que isso ocorreu, o que era de se esperar. Seria problemático se isso não acontecesse, porque mostraria que você ficou no mesmo lugar o tempo todo.

Fabiana: Para mim, foi meio parecido. Comecei a ouvir as coisas e tive um pouco de crise, porque existem ali algumas coisas que eu não faria hoje. Fui lembrada que a gente gravou tudo ao vivo em um estúdio, então não tinha como tirar algum trecho meu sem comprometer o piano do Vladimir. Eu tive que aceitar isso, e comecei a ouvir bastante, e foi bem gostoso o processo de rever as canções. O Vladimir teve que tirar várias delas novamente, tinham letras que eu nem entendia mais, já que ele foi gravado em várias línguas… Olhar para esse repertório de novo e tentar dar um significado para ele depois de 20 anos foi bem bacana.

Fabiana Lian e Vladimir Safatle
Fabiana Lian (esq.), Dão Areias (centro) e Vladimir Safatle (dir.)

TMDQA!: Considerando a história do álbum, me bateu um questionamento ao ouvi-lo. Se vocês tivessem se unido hoje, em 2019, para compor pela primeira vez, em que sentidos vocês acham que as músicas seriam diferentes? Vocês provavelmente teriam outros pensamentos ou outras influências, até considerando as adaptações da indústria como um todo.

Vladimir: Com certeza, se fizéssemos hoje, ele não existiria (risos). Eu estou em outro momento na minha relação com a linguagem musical. Hoje, eu dificilmente faria canções desta forma. Por outro lado, acho que, por causa disso, ele ganha o interesse singular de uma espécie de fóssil conservado. Ele ficou lá, meio perdido nesse tempo e com isso, guardou um elemento surpresa. Tem uma coisa interessante nisso tudo que é a importância de explorar o que ainda não foi explorado na música brasileira. Ainda mais em um momento como agora, que tem um tipo de configuração e produção muito específico em que existem muitos trabalhos interessantes que saíram da circulação central porque ainda existe um centro que é ocupado por um tipo de produção muito industrializada, no sentido de tirar qualquer singularidade possível.

TMDQA!: É a configuração pop da nossa música. Ao mesmo tempo, existem várias cenas musicais em emergência no Brasil, mas que não têm tanto divulgação.

Vladimir: É uma situação de regressão, porque talvez seja um efeito colateral do modelo de circulação. Tudo aquilo que não se adequa imediatamente ao padrão estabelecido acaba tendo uma circulação limitada. O que é margem acaba ficando em um espaço completamente isolado.

TMDQA!: Vocês acreditam, considerando toda a revolução da produção digital e do streaming, que as produções marginais, em algum momento, vão conseguir um papel mais centralizado na indústria?

Vladimir: Como dizia Oswald de Andrade, “a massa ainda comerá o biscoito fino que fabrico”. Tudo isso vai chegar.

Fabiana: Eu sou otimista em relação a isso! Eu acho que existe nicho para todas as coisas que a gente produz. De alguma maneira, se começarmos a ter ouvidos mais educados para ouvir coisas diversificadas, cada nicho vai ter seu mercado.

Vladimir: Eu acho que existe um bloqueio industrial em relação à sensibilidade, mas esse processo não consegue bloquear por tanto tempo. Eu não acredito que a solução seja funcionalizada. As pessoas se revoltam com a funcionalização, inclusive da audição. Acho que essa revolta é um elemento importante para a criação.

 

“A música é muito ciumenta, né?”

TMDQA!: Além da música, vocês tem carreiras profissionais em outros meios. Fabi tem grande experiência no showbiz brasileiro, enquanto Vladimir tem atuação como professor universitário e como filósofo. Como, na época, vocês transmitiram essa vivência cultural e profissional que vocês têm para as músicas?

Fabiana: Hoje, talvez, eu nem conhecesse o Vladimir, já que ele está afastado deste meio do showbiz. Tudo aconteceu naquele período: eu estava começando a trabalhar com isso e me especializei na área. Do meu ponto de vista, com a bagagem que tenho hoje, está sendo um momento muito rico e importante. De 20 anos para cá, também encontrei referência em outros artistas musicais. E acho que boa parte da sensibilidade deste trabalho também se deve a essas duas carreiras tão diferentes.

Vladimir: Foi engraçado, porque eu tinha como projeto na faculdade fazer música mesmo, só que, um ou dois anos antes, ao invés de me preparar para a prova técnica de instrumento, eu achei que precisava fazer um trabalho teórico sobre o que eu queria expressar com música. Isso me levou para a filosofia, e por isso que deu no que deu. De uma certa maneira, em algum lugar da minha cabeça, tudo era muito interligado. Sempre entendi a estética como uma forma de prática social, mesmo que seja esquecida como tal.

Fabiana Lian e Vladimir Safatle

TMDQA!: Foi complicado conciliar a volta desse foco na música com as respectivas carreiras de vocês?

Vladimir: A música é muito ciumenta, né? Música exige tempo, um tipo de horário completamente apático da vida social. Acho que isso é muito típico da música.

Fabiana: Hoje mesmo eu estava olhando a minha agenda e vi que tinham muitas coisas acontecendo na minha vida. Quando vi o que ainda não tinha o “check”, deu até medo. É um desafio para as nossas agendas conseguir tempo para ensaio e encontros. Mas conseguimos encontrar um espaço semanal para isso.

TMDQA!: A repercussão do disco levou vocês em algum momento a considerar gravar mais álbuns? Vocês já conversaram sobre ou isso nunca foi uma ideia?

Vladimir: A gente deve continuar a exploração por esse modelo de formato. Depois, devemos explorar de outra maneira. O que eu não acharia interessante seria ficar repetindo isso.

Fabiana: Na verdade, a gente está experimentando outras coisas nos shows, com essa nossa nova bagagem que acumulamos. Dá uma felicidade fazer isso. É animador.

TMDQA!: Alguma consideração final?

Vladimir: Acho que esse é o momento onde seria interessante, para o Brasil, voltar para a sua produção artística. Muitas vezes vemos um momento como esse como uma espécie de “paralisia da imaginação”. São nessas horas que a experiência artística ganha mais importância. Ela nos ajuda a pensar aquilo que, nas outras esferas da vida, é difícil pensar.

Fabiana: Eu concordo bastante com o Vladimir. Eu tenho certeza absoluta de que esse momento para o Brasil vai ser muito rico em termos de produção artística. Mas eu também tenho um comentário mais de mercado para fazer. Nesses tempos, a gente começa a ver o papel de todo mundo: do público, das casas que nos recebem, dos formadores de opinião… Essas pessoas vão começar a ter seus papeis potencializados.