Tuyo - Pra Curar
 

Vivemos todos no mesmo mundo, mas nem todos pensam igual. Culturalmente, estamos bem divididos, o que é natural considerando o desenvolvimento da humanidade até então. Ferramentas de aproximação global, como a internet e seus benefícios, são relativamente bem recentes.

Falamos idiomas diferentes, temos hábitos diferentes e, não raro, pensamos de forma diferente. Mas existe a ideia (um tanto clichê, não podemos negar) de que a música é a linguagem universal. Mesmo que você não entenda inglês, pode ser que se emocione com uma canção neste idioma, por exemplo. O trio paranaense Tuyo também tem essa característica, e já impressionou gringos com seus performances.

Com um som muito característico que mistura vocais melódicos e suaves com beats eletrônicos, o grupo é dono de um dos melhores álbuns nacionais do ano passado. E mesmo com pouco tempo de formação, a Tuyo já tem shows na Europa na conta.

 

Shows na República Tcheca e em Portugal

Ainda sendo parte da turnê de divulgação do ótimo Pra Curar, a banda atravessou o Oceano Atlântico para se apresentar no festival tcheco Colours Of Ostrava. O evento, que acontece entre os dias 17 e 20 de Julho, contará também com a presença de grupos como The Cure, Florence + The Machine, Years & Years e Rosalía. A Tuyo se apresentará na sexta (19).

Aproveitando a viagem, a banda se apresentou recentemente em uma casa de shows em Portugal e o TMDQA! conversou com Lio Soares, uma das integrantes do trio, sobre a repercussão do disco de estreia e sobre como surgiu a oportunidade de fazer shows na Europa.

Confira abaixo:

TMDQA!: Vários artistas recentemente tem encontrado um público interessante em Portugal. Com a internet e todos esses avanços de aproximação global que vivenciamos ultimamente, é como se o público português tivesse tanto contato com a sua arte quanto os brasileiros. Como você vê essa troca cultural entre Brasil e Portugal? Vocês consideram ter uma base boa de fãs por lá?

Lio Soares: Acho que ainda está tudo muito cedo para a Tuyo. Se a gente fosse pensar em um plano, a gente jamais iria para a Europa nesse momento. Eu não tenho ideia de como as coisas funcionam por lá. Tenho muitas amigas que foram fazer a vida por lá, mas eu nunca tive delírios burgueses de ir para a Europa. Acho que ninguém da banda. A gente está curtindo demais esse fator surpresa, de isso ter aparecido na nossa vida agora.

Eu imagino que a proximidade da língua faça com que as pessoas nos entendam. Demos entrevista no ano passado para uma rádio de Lisboa, e eu mantenho certo contato com uma galera de Portugal que nos acompanha. O que eu recebi de retorno das casas que sondei para tocarmos é que eles têm um comprometimento muito grande com o artista que está vindo de fora. A gente foi hiper bem tratado por todos com quem conversamos. Não sei muito bem o que está acontecendo, porque não foi algo como “A gente fez tanto barulho no Brasil que já estamos tocando fora”. Foi uma parada que caiu no nosso colo e fomos administrando do melhor jeito possível. Estou feliz.

TMDQA!: Segundo a turnê, no próximo dia 19, vocês se apresentarão no Colous of Ostrava, na República Tcheca. O line-up conta com nomes como The Cure, Florence + The Machine, Rosalía e muito mais. Como surgiu a oportunidade?

Lio: A Tuyo é rata de feira. Adoramos ir a uma feira de música. Certa vez, estávamos em uma feira trampando com a turma do Rec-Beat. Foi em Goiânia e, após o evento, estávamos muito bêbados, quando alguém nos mandou o link da Música Mundo, que é uma feira muito foda de Belo Horizonte. Nos inscrevemos, mas eu nem lembrava se tinha dado certo ou não. No fim das contas, nós passamos e fomos para lá, pela Rec-Beat.

Eu fiz uma burrada gigante, por sinal. Estávamos em Belo Horizonte e eu tive a ideia de agendar um show para nós em Vitória, que é “do lado”. Na verdade, eram 10 horas de viagem. Todo mundo da banda queria me matar. De volta à feita, fizemos o último show, e aí o Philipp Maly, curador do Colours of Ostrava, esta lá. Não trocamos uma palavra sequer, mas ele gostou do show. Passados dois dias, tinha um email dele na nossa caixa de entrada, escrito metade em inglês e metade em tcheco. Não entendi nada, tirando a parte em que ele perguntou quanto custaria um show da Tuyo. Ficamos o dia inteiro berrado de felicidade. Foi muito divertido o jeito que recebemos a notícia. Passamos um orçamento para ele e deu tudo certo!

TMDQA!: Qual suas expectativas para o show? Provavelmente, será o primeiro contato de muita gente com o som e com a performance ao vivo da Tuyo. Como você descreveria um show do grupo para o público que nunca teve a chance de vê-los ao vivo?

Lio: Eu acho que não importa a cultura, não importa quem você é ou onde você está, todo mundo tem umas tretas mentais muito fodidas. A gente assiste filme e os roteiros são os mesmos. A gente lê livro e as angústias são as mesmas. Eu acho que a Tuyo, por ter um show com mais apelo contemplativo, tem aquele clichê de que a música é a linguagem universal. Decorei umas coisas em inglês e vamos ver qual é, mas é bom que as pessoas estejam preparadas para olhar para dentro. Não sei se existe alguma outra boa maneira de aproveitar o que a gente pode oferecer. Nós subimos no palco e começamos a provocar as pessoas a olhar para olhem o que existe dentro delas. Eu estou confiando de que não é uma exclusividade nossa, como brasileiros, de ter que ser estimulado a refletir sobre si mesmo.

Acho que no show o que fica mais em evidência é a brincadeira que a gente faz com a sutileza dos vocais e a agressividade dos beats. Talvez isso provoque as pessoas. Algo mexeu com o Philipp naquele dia, que não fala uma palavra de português. Quando ele foi conversar com a gente, ele falou sobre sermos espontâneos. Não sei a que tipo de banda ele costuma assistir, mas ele ficou muito impressionado com a gente ficando à vontade no palco. Ele achou que é um tipo de performance que o público do Colours costuma consumir. Então, eu estou confiando no olhar dele. No fim das contas, eu estou feliz, mas vai ser uma experiência antropológica tão incrível que, mesmo que todos assistam o show de costas, eu vou ficar muito feliz.

 

“Vivemos em um tempo em que as pessoas estão um pouco desesperadas por legitimidade”

TMDQA!: Vindo agora para as terras nacionais, vocês cresceram muito e com todo o mérito do mundo. A que você associa o crescimento rápido do grupo e de seu público em todo o Brasil?

Lio: Cara, eu não sei. Acho que existe uma equação muito complexa que tem a ver com muito trabalho, oportunidades, sorte… Devem ter várias bandas fodas por aí que ninguém nunca vai ouvir porque o mundo é injusto pra caralho. A gente teve a sorte de estar no momento e no lugar em que a gente estava. Mas também não foi só sorte, porque trabalhamos muito e abrimos mão de muita coisa. Passamos por falta de grana, tivemos que provar para família que a gente tinha algum valor, sentimos o medo de nunca conseguirmos nada na vida… Essas paradas que passam na cabeça de todo artista independente.

A gente está na música há uns 10 anos. Nisso, parece que já deu tanta coisa errada que sobraram poucas alternativas para fazer dar certo (risos). Eu também não quero transformar a nossa história em uma história de meritocracia. Não existe uma fórmula. Só sei que, da mesma forma que aconteceu, pode “desacontecer”, e estamos tentando aproveitar o máximo possível de todos os momentos que temos vivido, e tentando fazer durar o máximo possível.

TMDQA!: Vocês foram muito elogiados pelo EP “Pra Doer”, de 2017. A visibilidade passou a crescer cada vez mais desde então. Remixes, parcerias com Bruna Mendez e até com a Fresno. Isso tudo em pouco mais de dois anos. É como se a Tuyo entregasse um tipo de sonoridade, ou um tipo de mensagem, que as pessoas necessitavam.

Lio: Vivemos em um tempo em que as pessoas estão um pouco desesperadas por legitimidade. Acho que a única coisa que somos capazes de fazer, como Tuyo, é ficarmos nus. A gente só sabe escrever sobre a nossa nudez, sobre como encaramos as mais diversas situações… A gente não é muito bom em bancar personagens, performar sensualidade ou agito. A gente é “emo”, gótico. Só falamos sobre sentimento. Acho que talvez seja tão difícil para as pessoas organizar os sentimentos dentro de si mesmos que, quando se encontra algum objeto de arte que ajuda a colocar as coisas no lugar, elas se identificam. Elas só querem se organizar emocionalmente, dar nome para as coisas e entender seus próprios sentimentos. Sinto que, de alguma forma, a única coisa que sabemos fazer é estimular esses movimentos.

Lio Soares no Podcast Pós-Jovem
Foto: Divulgação Pós-Jovem

TMDQA!: Hoje em dia, estamos todos sujeitos a muita informação. Parece que isso faz com que nos percamos, que não encontremos respostas sobre o nosso interior. Quando nos sentimos representados ao ouvir um disco, por exemplo, nos sentimos mais confortáveis. Isso pode até salvar vidas.

Lio: Sim! Recebemos esses depoimentos todos os dias. O inbox da Tuyo sempre tem algo sobre como alguém se apropriou do disco ou de uma música específica para se organizar. Acho muito foda que as pessoas pegam as músicas para elas. Eu adoro isso.

TMDQA!: Isso deve ser muito bom para vocês enquanto artistas, certo?

Lio: É bonito porque a gente só chega e aperta um botão. Não protagonizamos efetivamente a coisa. Não gosto muito dessa ideia do Messias, da pessoa que salvou. Eu gosto de dar ferramentas para elas se salvarem. Isso é bonito.

 

“Tenho vontade de trocar com o máximo possível de pessoas”

TMDQA!: Ir para a Europa é uma realização em tanto, creio eu. Mas, falando de sonhos, o que você considera ser seu maior objetivo enquanto artista? Alguma parceria com algum artista específico? Tocar em um festival específico?

Lio: Eu tenho vários sonhos! O primeiro é me tirar, e tirar a minha mãe também, do aluguel com o dinheiro da música. Vai ser tão prazeroso fazer isso. Meu objetivo número dois é conhecer o máximo de pessoas possível. Ter contato com essas pessoas que idealizei a minha vida toda: Milton (Nascimento), Caetano (Veloso), Alcione, Zezé Di Camargo & Luciano

Eu, Lio, morro de vontade de fazer alguma coisa com o Akira Presidente. Sou apaixonada por ele. Quero fazer mais coisas com o Baco (Exu do Blues), e tenho vontade de fazer coisas com a Gabz, com a Xênia (França)… Tenho vontade de trocar com o máximo possível de pessoas, sejam elas do meu tempo ou de outro tempo.

TMDQA!: Isso é algo super enriquecedor para a cena. No ano passado, por exemplo, o Baco, super influente na atual cena do rap, lançou uma parceria com vocês. Foi um “crossover” interessantíssimo.

Lio: É gostoso ver essas histórias se costurando. Ele tem as coisas dele e nós temos as nossas, mas de alguma forma elas se entrelaçam. Eu sinto a mesma coisa com o Lucas (Silveira, da Fresno). Eu sinto que a gente está aberto para receber o que tiver que receber. A ideia é que a gente troque o máximo possível, para fundir esses universos. Eu estou doida para mostrar uma música nossa para o Rubel. Eu acho que ele vai curtir. Acho que vai rolar, tomara! Estou feliz também em ter encontrado a Bruna (Mendez). Ela é muito descritiva, e eu gosto muito disso. Eu sinto que tivemos sorte ao encontrarmos pessoas que falam com o nosso universo de alguma forma. Foram boas parcerias.

TMDQA!: Os trabalhos da banda têm narrativas muito concisas. Enquanto o EP foi feito justamente “Pra Doer”, o álbum de estreia tem realmente essa coisa confortável da cura. Mas isso me levou a uma indagação: como será daqui pra frente? Vocês já possuem planos de novos lançamentos?

Lio: Cara, tem uma espécie de movimento que é essa do artista ficar se negando. Ele vai lá, escreve um bagulho, o bagulho acontece e aí parece que, no próximo, ele precisa negá-lo de alguma forma. Eu estou lendo umas paradas que estão desgraçando a minha cabeça, e eu não consigo escrever sobre outra coisa. Recentemente aconteceu uma parada na minha vida que deu uma reviravolta no meu cérebro. Fui casada durante 9 anos, e acabou. Está sendo muito bom, porque estou sendo obrigada a olhar para muitas coisas que eu desprezava. Para eu me manter saudável, não tem outro lugar para colocar isso do que em um disco. Então, acho que vai ser mais disco de muita nudez. Minha alma está diferente, então vai ser outro tipo de tema.

TMDQA!: Buscar novos temas, baseado especialmente em acontecimentos pessoais, entregam um lado mais humano do artista. Quanto mais diferente forem as coisas, mais o público vai ver o lado humano de quem está compondo aquilo. Aliás, o artista é um ser como qualquer um.

Lio: Se, de repente, o que lançarmos não conquistar os outros, tudo bem. As pessoas mudam. A ideia é que a gente vá vivendo outras experiências e catalogando elas. Tais experiências sempre passam pelo mesmo corpo e pelo mesmo olhar, mas são outras experiências. Não sinto uma necessidade de me manter fiel e de atender uma demanda. Acho que a demanda que temos que atender é a de sermos honestos da maneira que pudermos.