A década de 1980 foi para Paul McCartney um período de queda e redenção em que o ex-Beatle pôde experimentar de tudo um pouco como músico. Juntou uma coleção de hits, colaborou com Stevie Wonder e Michael Jackson, lidou com o luto pela morte de John Lennon, teve depressão, álbuns massacrados pela crítica, lançou um clássico, ficou fora da mídia e se lançou numa turnê mundial pela primeira vez em mais de dez anos.

E Flowers in The Dirt, oitavo disco lançado por McCartney em 1989, fecha com chave de ouro essa década com um registro de Paul se redescobrindo nos 40 e tantos anos de vida, mais próximo dos 50 e cada vez mais distante da figura esguia eternizada como um dos quatro Beatles

Em 1986, as coisas não estavam indo bem para a carreira solo do ex-Beatle. O disco Press to Play, sexto lançamento após o fim dos Beatles e do Wings, teve uma recepção morna e um fraco desempenho em vendas, além de não deixar nenhum hit memorável entre as 10 faixas que compõe a tracklist. A repercussão fraca foi um choque de realidade para McCartney, que viu que poderia fazer muito melhor que aquilo e decidiu investir no álbum sucessor.

Outro fator que serviu como combustível para que Paul fizesse uma sequência melhor para Press to Play foi o sucesso de Cloud Nine, de George Harrison, em 1987. Décimo primeiro álbum do Beatle mais novo, é considerado um dos melhores da carreira solo de Harrison e o que ofuscou o desempenho de Press to Play na mídia.

Em 1988, foi lançado CHOBA B CCCP, disco de covers lançado apenas na antiga União Soviética, único vislumbre de Paul por um período de três anos. Depois de incansáveis anos constantemente na mídia construindo sua carreira como artista solo, o baixista se recolheu para trabalhar em Flowers in The Dirt e se preparar para o que viria a seguir.

Foram 18 meses aperfeiçoando o que seriam as composições e melodias que compõe o álbum. Paul reuniu os produtores musicais Neil Dorfsman, Trevor Horn, Mitchell Froom e Steve Lipson, e chamou David Gilmour (Pink Floyd) para tocar guitarra em “We Got Married”. Mas uma importante peça na produção foi a parceria consolidada com Elvis Costello, proeminente músico que emergiu da cena punk de Liverpool em meados da década de 70, construindo uma carreira para si na música ao longo da década.

O trabalho conjunto de McCartney e Costello foi produtivo, resultando nas faixas “That Day Is Done”, “You Want Her Too”, “Don’t Be Careless Love”, “Back on My Feet” e “My Brave Face”, maior sucesso de Flowers in The Dirt e faixa que abre o disco. Elvis agiu como produtor inicialmente, sendo substituído pelo time de produtores contratados por Paul devido a desavenças. A dinâmica da dupla chegou a ser comparada com a relação Lennon-McCartney por fins publicitários, pelo modo de composição olho no olho e por Costello ter sido a pessoa que convenceu Paul a voltar a usar o famoso baixo Hofner, instrumento que o baixista não tocava desde a época dos Beatles. 

O lançamento de Flowers in The Dirt, em 5 de Junho de 1989, foi precedido pelo primeiro single, “My Brave Face”. Esse retorno de Paul lhe rendeu bom desempenho nos charts musicais, tanto britânico quanto norte-americano. O disco alcançou o primeiro lugar no Reino Unido e o 21º na Billboard, além de permanecer nas paradas por um ano e ganhar disco de ouro nos Estados Unidos. Reino Unido e Espanha lhe renderam disco de platina — além do sexto lugar nos melhores dos charts espanhóis daquele ano. Uma volta por cima depois do desempenho morno de Press to Play, em 1986.

Em Setembro de 1989, Paul embarcou numa turnê mundial, algo inédito desde a turnê Wings Over The World, de 1976. A Paul McCartney World Tour foi sucesso de público e durou quase um ano inteiro, passando por 16 países e totalizando 103 apresentações. O setlist variou entre hits de sua carreira solo e diversas canções eternizadas pelos Beatles nunca antes tocadas ao vivo. 

E duas datas dessa turnê foram bem aqui no Brasil, marcando a primeira passagem de um Beatle pelo país. Com apresentações memoráveis em 20 e 21 Abril de 1990, no Estádio do Maracanã, no Rio de Janeiro, Paul deixou sua marca em 185 mil pessoas que lotaram o famoso estádio e deu início à longa relação apaixonada com o público daqui, que perdura até hoje, 2019.

Flowers in The Dirt é um bom exemplo de como um artista, mesmo com trajetória consolidada e já tendo passado por todo tipo de experiência musical desde sua estreia, ainda consegue explorar o melhor de sua capacidade. Paul McCartney concebeu um clássico a partir de expectativas frustradas e a ambição de superar sua própria obra. Talvez esse seja um dos segredos para a longevidade de sua carreira na música.