BRVNKS
Foto: Rodrigo Gianesi
 

Nasceu! Finalmente está no mundo o aguardado álbum Morri de Raiva, estreia do projeto BRVNKS, encabeçado por Bruna Guimarães.

Apesar de estar lançando seu primeiro disco cheio, BRVNKS já é conhecida do underground há algum tempo e começou a lançar músicas em 2016, alcançando visibilidade significativa com o EP Lanches. A interessante sonoridade que mescla elementos do indie e do punk à suave voz de Bruna foi o que arrastou o grupo para festivais grandes sem sequer ter um disco lançado. O currículo conta com participações em festivais como Bananada, Popload, Lollapalooza e também o nosso, o Festival TMDQA!. Vale citar também que o novo disco está saindo pela Sony Music Brasil.

 

“Eu tive a ideia de não escrever mais sobre coisas relacionadas a amor”

Morri de Raiva fala sobre, pasmem, raiva! Aborda temas como indignação e cansaço. É um álbum com o qual qualquer jovem pode se identificar.

Algumas músicas do álbum já eram de conhecimento do público, seja por conta do EP ou mesmo por conta de suas apresentações. Mas, juntando tudo em um disco só, as canções parecem frases de uma mesma mensagem. Na primeira audição, já entendemos a tal raiva e suas motivações.

Tivemos a oportunidade de conversar com Bruna por telefone. Ela nos contou sobre o processo de composição das músicas, sobre influências e sobre sua raiva.

Capa de "Morri de Raiva" (BRVNKS)
Foto: Rodrigo Gianesi

TMDQA!: O primeiro elemento do álbum que chama a nossa atenção é o título “Morri de Raiva”. De onde surgiu esse nome? De onde veio tanta raiva?

BRVNKS: Desde novinha eu sou muito estressada. Já que o disco não falava mais sobre as coisas que eu falava antes, eu resolvi colocar esse nome. E em português mesmo, para as pessoas compreenderem melhor. Eu decidi deixar esse nome por falar mais com sentimentos que eu tenho bastante.

TMDQA!: O álbum é bem palatável para o jovem moderno por conta de temáticas comuns como não pertencimento, cansaço, pressões sociais… Até referências à cultura pop estão presentes. Como foi o desenvolvimento das letras, da ideia do álbum e afins?

BRVNKS: Tem algumas letras que são mais antigas e tiveram algumas que eu mudei. “Grey Eyes”, por exemplo, falava sobre nada. Mudei tanto nomes de música quanto a letra em si. Mas eu acho que, primeiro de tudo, eu tive a ideia de não escrever mais sobre coisas relacionadas a amor.

TMDQA!: O álbum é um dos nomes quentes do indie nacional em 2019, aguardado por muitos durante muito tempo. Foram três anos até o seu lançamento. Nesse tempo, vieram participações em festivais grandes, um contrato com a Sony… Como tudo isso aconteceu para você? Como você foi assimilando esse seu crescimento?

BRVNKS: Na verdade, toda vez que acontece alguma coisa assim eu fico meio sem acreditar (risos). Eu fico tentando processar o que está acontecendo, mas fico sempre muito feliz. É difícil colocar na minha cabeça que as pessoas realmente sabem quem eu sou ou que ouvem o que eu fiz e se relacionam com isso. Recebo mensagens de muita gente contando histórias de que se sente influenciada por mim de alguma forma. Às vezes parece que nunca cai a ficha. Eu sempre dou uma negada, tipo “ah, imagina…” como se não fosse grande coisa.

TMDQA!: Além do nosso festival, você também já se apresentou em festivais como Bananada, Popload e até na edição deste ano do Lollapalooza. O quanto você considera ter evoluído como artista e pessoa desde o início da sua carreira, considerando a fama crescente?

BRVNKS: Nossa, não sei. Acho que se for para pensar desde o início, eu acho que adquiri responsabilidade. Eu tenho duzentos planos a partir de agora. A gente já passou por tanta coisa… Estamos aprendendo a botar mais a mão na massa, a ir atrás do que queremos fazer. Fazer algo que acho que tenha a minha cara e passar uma mensagem certa. Dou mais importância a isso hoje em dia.

TMDQA!: Agora falando em questões estéticas, o Morri de Raiva tem claras influências de gêneros como punk e indie. Qual a origem da sua proximidade com esses gêneros?

BRVNKS: Eu sempre começo as composições no violão. A minha ideia original era até fazer o som ser um pouco mais sujo do que ele é. Na verdade, foi mudando durante a produção. Já que foi tudo feito meio que de forma caseira, eu não tinha muita ideia do que isso iria para muita gente e fui deixando rolar. Naturalmente, ele foi pegando uma estética mais específica, um pouco mais pop, um pouco mais indie… Hoje eu faço pensando um pouco mais nisso. Começo sempre pela base e nos ensaios que vamos fazendo as coisas tomarem mais forma. Enquanto componho, eu não costumo pensar muito em como vai ficar o resultado final. Eu sempre fico muito tempo sem escrever ou tocar nada, aí de repente surge uma ideia que eu gravo pelo celular mesmo. E aí vamos mexendo.

 

“Não tem muita relação com popularidade”

TMDQA!: Uma vez você listou para o TMDQA! 10 álbuns importantes para a sua vida, e incluiu nomes como Smashing Pumpkins e Pavement. Que nomes mais incentivaram você em termos estéticos em Morri de Raiva?

BRVNKS: Eu acho que a Courtney Barnett. Abrimos um show dela há um tempo e acho que ela é uma boa influência, por mais que não ouvisse tanto na época. O jeito que ela escreve me influenciou para composições mais recentes.

TMDQA!: Apesar do título do álbum e do nome da faixa de abertura, suas composições são todas em inglês. Além, é claro, das influências, o que te fez seguir por este caminho, já que sabemos que existe uma certa resistência no Brasil em relação a artistas brasileiros que cantam em inglês?

BRVNKS: Eu acho que combina mais com meu tipo de som. Soa muito diferente, e envolve questões de vocabulário, de jeito de falar e de cantar que realmente é diferente. Acho que combina mais. Eu até quero fazer uma coisa ou outra em português daqui pra frente, para ir testando e vendo como soa, dependendo da resposta do público. É um processo meio longo, porque é preciso decidir essa personalidade e depois começar a fazer uma coisa ou outra.

TMDQA!: E inspirações da cena nacional? Você tem alguma?

BRVNKS: Eu gosto muito do Raça. Até fiz participação em uma música deles no disco que saiu este ano. Eu gosto muito do jeito que eles escrevem e do tipo de som que eles tiram, de como eles tocam baixo…

TMDQA!: Como foi pensada a ordem das músicas no álbum? As mais conhecidas aparentemente estão na frente.

BRVNKS: Na verdade, não tem muita relação com popularidade, não. As que eu mais gosto, eu coloquei primeiro (risos) porque são as mais antigas. Das outras, eu ainda não gosto tanto. Na verdade, a gente discutiu o que faria mais sentido, se era começar mais pop e terminar mais barulhento. Mas não teve relação com ser antigo, novo…

TMDQA!: Algumas composições suas não entraram no álbum, como “Harry”, “Laura” e “Grey Eyes”. O que te levou a não incluí-las?

BRVNKS: Na verdade, “Laura” e “Grey Eyes” estão no álbum, mas com nomes alterados. Eu acho que, se colocássemos todas, o álbum ficaria meio cansativo. Por mim, eu não colocaria nem “Don’t” nem “Freedom” [F.I.J.A.N.F.W.I.W.Y.T.B., ou Freedom Is Just a Name For What I Want You To Be] no disco. Eu queria que fosse tudo novo, mas eu ainda não tinha repertório suficiente para fazer algo tão comprido. Eu tive que tirar minhas últimas gotas de criatividade que eu tinha para uma coisa só.

TMDQA: Quais são seus planos futuros em relação à carreira ou à vida?

BRVNKS: É uma incógnita, viu (risos)? Eu realmente não sei. Por enquanto estou fazendo duas coisas. Eu trabalho na IBM, e é muito corrido e difícil ter tempo para tudo. Eu tenho minha vida, minha casa, namorado, amigos… Está complicado, mas por enquanto não tem jeito de largar trabalho para viver por conta disso. Querendo ou não, a carreira musical ainda não dá retorno em dinheiro que eu preciso para pagar as minhas contas. É uma vontade? É, mas não é uma coisa que eu ponho como prioridade para a vida, porque eu não tenho pais que pagam as minhas contas ou de quem depender. Então, por enquanto, os planos incluem fazer os dois e ver até onde vai. Pode dar errado ou pode dar muito certo. Nessa eu posso ficar até velha, quem sabe (risos).

TMDQA!: Alguma consideração final? Alguém que você queria xingar para descontar a raiva?

BRVNKS: Eu queria muito influenciar outras mulheres, de alguma forma, a seguirem na música, para colocarem as suas ideias mais na roda das coisas, para discutir mais, tocar em assuntos mais importantes.

Mas se for para xingar alguém, eu vou ter que fazer uma lista (risos). De qualquer maneira, eu estou sempre reclamando no meu Twitter (risos), então é só o povo me seguir lá que eles vão ver todos os meus assuntos diários.

   
 
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