Por Nathália Pandeló Corrêa

Parece que foi ontem, mas já se vão 10 anos desde a estreia da banda californiana Local Natives com o bem-recebido álbum Gorilla Manor. A capa, que trazia as cabeças dos músicos desintegradas em meio a respingos de tinta numa parede, contrastava com um indie rock influenciado pelo folk e pelo post punk. A dualidade dos vocais harmonizados em meio a uma bateria e guitarra pulsantes se encaixou muito bem naquele 2009, um período que marcou boas fases de projetos com características similares – como Fleet Foxes e Band of Horses, Grizzly Bear e Vampire Weekend.

Explorar esses dois lados de uma mesma sonoridade é uma constante na discografia do Local Natives, que desde então lançou Hummingbird, Sunlit Youth e Violet Street. Enquanto o primeiro mostrava o frescor de uma banda estreante, o segundo disco trouxe um pouco do peso de perdas pessoais e da própria formação, com a saída do baixista Andy Hamm. O terceiro álbum mostrou um grupo mais disposto a experimentar com seu som, incorporando sintetizadores.

Essa foi a transição perfeita para o quarto disco. Violet Street traria a produção de Shawn Everett, que tem fama de usar técnicas experimentais em suas gravações. Ele, que já trabalhou com Alabama Shakes, The War On Drugs e Kacey Musgraves, colocou a banda pra correr em estúdio em volta de um microfone – mas isso não significa que “Violet Street” seja um álbum estranho, diferentão. Pelo contrário, traz algumas das canções mais coesas do Local Natives, que apurou seu senso de síntese e apresenta aqui seu trabalho mais curto até agora.

Essa também é a avaliação de Taylor Rice, vocal principal e guitarrista. Ele conversou por telefone com o Tenho Mais Discos Que Amigos! sobre o atual momento da banda e a possibilidade de vir ao Brasil. Confira:

TMDQA!: Oi Taylor! Estava reouvindo o disco mais recente e, como é o quarto trabalho de vocês, já dá pra sentir que tá se formando uma história, só que em capítulos diferentes. Não sei se você concorda, mas o Gorilla me soa meio urgente, no sentido de tudo estar levando àquele ponto. Hummingbird já foi mais pesado, porque vocês lidavam com questões pessoais. Sunlit Youth me parece mais maduro, já arrisca ir pra caminhos diferentes. E Violet Street, vai se destacar de que forma na discografia de vocês?

Taylor Rice: Eu não sei se tenho a resposta pra isso (risos). Posso dizer que do ponto de vista da criação, foi bem isso. Você meio que descreveu bem o que a gente estava passando em cada fase. Acho importante falar do nosso produtor, Shawn Everett, com quem foi incrível trabalhar. Ele é realmente um gênio. E sinto que voltamos um pouco no que vivenciamos no Gorilla Manor, porque ele colocou a banda toda num galpão que servia de espaço criativo, e ali tínhamos a sensação de que tudo era possível. Só que dessa vez não éramos mais tão jovens, vínhamos com uma outra perspectiva.

TMDQA!: Desse disco especificamente, “When Am I Gonna Lose You” tá numa playlist minha e vira e mexe, volto nela. Acho que é um bom exemplo dos dois lados do Local Natives: vocês conseguem soar animados mesmo quando uma letra tem um lado mais sombrio – ou então o contrário. Essa mudança acontece algumas vezes ao longo de Violet Street. Tem aquelas músicas mais climáticas, mais intensas, e aí entra um sonzinho indie dançante. Esse equilíbrio é algo que vocês almejam especificamente ou só aconteceu dessa forma por acaso?

Taylor: Na verdade, é algo que a gente busca sim. Nós temos três compositores e vocalistas na banda, então é bem democrático (risos). É realmente tudo muito igualitário no nosso processo de fazer música. E nós dependemos muito um do outro pra chegar no resultado que buscamos. Talvez por isso a gente nunca tenha conseguido fazer um disco mais curto, porque é uma banda com egos demais (risos). Dessa vez, a gente já colocou uma história que queríamos contar com esse disco e focamos nela.

TMDQA!: Você diria que foram bem sucedidos nisso?

Taylor: Eu diria que sim. São nove músicas que se conectam com os dois lados do disco. No início tínhamos 20 canções, que viraram 15, depois 12… Perder as últimas três foi mais doloroso, mas a gente sabia que precisava focar naquilo que mais importava.

TMDQA!: Esse tópico do foco e do ego me traz pro próximo assunto que queria te perguntar. Dá pra sentir que o Local Natives é um esforço coletivo. Vocês compõem junto, têm múltiplos vocais e tudo mais. O Violet Street foi o cúmulo disso, me parece. Vi vocês citando várias influências, mas é aquela coisa: cada pessoa traz a própria bagagem de referências. Vocês tocam juntos há mais de 10 anos, daqui a pouco faz 20. Esse processo criativo ficou mais fácil com o tempo?

Taylor: De certa forma, sim. Mas em muitas formas, não (risos). Porque os relacionamentos vão ficando naturalmente mais complexos, mais ricos e com isso tem mais em jogo. Mas nós nos conhecemos tão bem, tanto como amigos quanto como compositores, que a gente consegue confiar um no outro e saber exatamente o que cada um pode trazer como um diferencial pro que cada música pede.

TMDQA!: Eu sei que era importante pra vocês que o disco soasse orgânico, mas isso não significa ser contra o digital ou tecnologia – sem a qual vocês não teriam feito a letra de “Vogue” da forma que fizeram. A maioria de nós não ousaria passar cinco minutos lendo comentários de YouTube, e pelo que entendi, vocês ficaram ali na seção de comentários catando frases e palavras soltas dos comentários mais bizarros. Primeiro: por que? (risos) E segundo: fazer isso te deu alguma sacada sobre a forma como os seres humanos se expressam ou reagem às coisas?

Taylor: Sim (risos). Essa música em particular foi como um sonho. Não foi algo que compusemos tocando juntos no estúdio, foi criada de forma totalmente diferente do resto do disco, e tem uma história bem legal. Eu já tinha os acordes, melodias, um pouco da letra e do que eu queria na música. A Sarah Neufeld, que toca violino com o Arcade Fire, tinha me mandado uma parte de algo em ela estava trabalhando. A gente vinha colaborando, mas pra outra coisa, tocar em um festival. E ela mandou uma linha de violino muito acelerada. Quando nós experimentamos colocá-la na música, só que mais lenta, caiu como uma luva. Foi uma espécie de milagre mesmo. Já a letra, eu decidi usar pedaços aleatórios de comentários que estava lendo no YouTube, pegando uma palavra aqui e ali. E acho o resultado algo muito único, porque mostra que é possível pegar coisas aparentemente completamente diferentes e achar uma conexão entre elas – tipo pegar comentários de internet pra uma música bem espiritual (risos).

TMDQA!: Aliás, falando em músicas específicas, vocês têm algumas com nomes de lugares, ou pelo menos parecem. Colombia, Munich II, e ainda tem Gorilla Manor e Violet Street no título dos discos. Você acha possível vocês virem ao Brasil escrever uma música sobre o Rio, ou São Paulo, ou sei lá, a Amazônia, e como um bônus fazer uns shows aqui?

Taylor: Nossa, meu Deus, isso seria um sonho. Eu quero muito fazer isso, a gente ouve muitas coisas incríveis do Brasil já há uma década, quando começamos a fazer turnê. Seria ótimo se conseguíssemos ir aí ainda com o ciclo desse disco. E também pra viajar e conhecer, porque todo mundo fala que é lindo.

TMDQA!: Só de curiosidade, que tipo de coisa vocês ouvem falar do Brasil?

Taylor: Ih, agora vou me complicar (risos).

TMDQA!: Pode mandar a real, a gente aguenta (risos).

Taylor: Não, sendo bem sincero, eu ouço dizer o quão cheios de vida vocês são, que as pessoas são… não felizes, porque isso é meio superficial. São cheios de energia. E que tem muito sol, as paisagens são belas, a comida é ótima… É mais ou menos por aí?

TMDQA!: Olha, temos nossos problemas, mas não vou negar nada disso (risos). Esperamos que vocês venham conferir por conta própria um dia.

Taylor: Eu adoraria!