David Bowie e Latino
 

Há quem critique, mas fazer releituras é uma arte! O artista pega uma obra já divulgada por outro anteriormente, e adiciona a ela suas características. Alguns resultados ficam simplesmente fascinantes.

No mundo da música, “trazer uma canção para o seu mundo” requer muito mais do que simplesmente tocar um instrumento ou saber cantar. Uma boa releitura traz um pouco da verdade do artista que está reinterpretando a obra, de forma que dialogue com a mensagem original em termos líricos ou instrumentais.

Uma música internacional, por exemplo, pode ser transportada para o português com ajustes na letra, seja uma tradução direta ou não. Repetir a letra caracteriza uma mera cover, e só prova a capacidade que o artista brasileiro tem de cantar em outro idioma.

Para ambientar melhor a releitura, alterações rítmicas e melódicas também podem contribuir para um melhor resultado. Afinal, os hábitos de consumo musical variam de país em país.

A equipe do TMDQA! aproveitou o embalo da comentada versão brasileira de “Shallow” nas vozes de Paula Fernandes e Luan Santana (“juntos e shallow now“) para eleger as 10 melhores versões “abrasileiradas” de canções gringas. Os critérios foram a criatividade, a qualidade e a proposta das releituras. Confira abaixo nossa lista:

 

10 – “Minha Fantasia” (Só Pra Contrariar) – Versão de “It Ain’t Over Til It’s Over” (Lenny Kravitz)

Se fosse só para traduzir uma canção internacional, seria fácil demais. A graça é justamente ver o que o artista vai fazer, em termos melódicos e líricos, para adaptar a música. Um exemplo de grande criatividade e confiança no próprio trabalho é “Minha Fantasia“, canção lançada pelo grupo Só Pra Contrariar em 2003. Se prestarmos atenção, dá para perceber que se trata de uma versão de “It Ain’t Over Til It’s Over“, de Lenny Kravitz.

Além do mais, quando Lenny lançou a música original, em 1991, ele conquistou as rádios com a romântica letra, que fala sobre a ideia de “manter a chama” do amor acesa o máximo de tempo possível. Precisamos concordar que “Minha Fantasia” é uma baita canção romântica e também conquistou seu público por aqui.

O esperançoso tema ganhou força com a sonoridade que misturava funk e blues, inspirada por grupos soul como Earth, Wind & Fire. O que o SPC fez, em 2003, foi simplesmente adaptar para a realidade da música popular brasileira de então, na forma de um dos mais famosos gêneros do momento: o pagode. O riff característico de Lenny, na nossa versão, se transformou em um belo coro.

9 – “Batendo na Porta do Céu” (Zé Ramalho) – Versão de “Knockin’ On Heaven’s Door” (Bob Dylan)

É muito legal ver a criatividade de certos artistas, sim. Mas traduzir quase que literalmente uma música também pode ser boa ideia em alguns casos. Tome por exemplo esta respeitosa releitura que Zé Ramalho fez de “Knockin’ On Heaven’s Door“, clássico de Bob Dylan.

Pode ter sido a melodia da serena faixa original, ou a tradução fiel liricamente distribuída nos versos. Só sabemos que a releitura, lançada em 1997, ficou muito boa! A nova versão acrescentou elementos instrumentais que a aproximam do forró e da música sertaneja ao folk rock tradicional do músico norte-americano.

Zé já deixou claro várias vezes que se inspira em Dylan e que admira muito o cantor. Se a versão do Guns N’ Roses, de 1991, ensinou a muitos jovens os primeiros acordes, a de Zé deu aos brasileiros uma poesia inspirada nas palavras do intérprete original.

8 – “Marvin” (Titãs) – Versão de “Patches” (Clarence Carter)

Conhece a história de “Marvin“? A complicada vida do menino que, após perder cedo seu pai, “sentia todo o peso do mundo” em suas costas foi gravada pelos Titãs em 1984. Não demorou muito para se tornar presença constante no repertório de shows da banda.

Marvin, que encarou a cruel realidade ainda muito novo, tem uma história muito parecida com a do jovem “Patches“. Trata-se também do personagem de uma música com o mesmo nome, que serviu de base, tanto lírica quanto melodicamente, para a versão dos Titãs. A canção original foi lançada em 1970 pelo grupo Chairmen of the Board, mas ficou mais conhecida na voz de Clarence Carter no mesmo ano.

Na história original, Patches era um menino pobre nascido e criado no interior do estado do Alabama, nos EUA. O apelido (algo traduzido como “remendo”) foi dado por seus colegas, baseado em sua vestimenta precária. Seu pai, um dedicado trabalhador que suava para pagar as contas de casa, morreu quando ele era pequeno. O peso caiu todo sobre suas costas.

Marvin, tanto o personagem quanto a canção em si, foi altamente influenciada pela história do menino do Alabama. Mas a verdade é que histórias tristes como essa acontecem todo dia, e há muitos “Marvins” ou “Patches” por aí, precisando encarar responsabilidades grandes ainda pequenos.

7 – “Bar Mitzvá” (Nissim Ourfali) – Versão de “What Makes You Beautiful” (One Direction)

Temos na lista um dos mais clássicos “memes” da internet brasileira, sim!

Nem todas as releituras são baseadas na letra original. Demonstrando o poder doido da internet, pegar o instrumental de uma música e colocar nela a sua voz falando sobre qualquer outro assunto parece ser algo divertido – e, de fato, gera muitos cliques. A capacidade de “viralizar” é grande.

Seguindo a mesma linha de pensamento de clássicos da internet brasileira como “Eu Sou Stefhany” (uma releitura de do clássico “A Thousand Miles”), ganhamos em 2013 o hit “Bar Mitzvá“, também chamado de “Vamos Pra Baleia”.

A história mostra o poder disseminador da internet. Parte da comemoração do bar mitvzá (data importante para judeus) do jovem Nissim Ourfali incluiu um divertido vídeo editado por sua própria família em 2012. No entanto, o pai do jovem teve o descuido de deixar o vídeo público no Youtube, e deu margem para que o material fosse amplamente compartilhado.

A graça no vídeo tem várias origens: detalhes pessoais da vida de Nissim, os efeitos “toscos” utilizados no vídeo e, é claro, o evidente desconforto do jovem em gravar as várias cenas do clipe. Mas a principal graça é a descaracterização total de “What Makes You Beautiful“, hit do One Direction lançado originalmente em 2011.

Mesmo após diversas reclamações e até processos por parte da família, o vídeo até hoje se mantém no ar, já que não há apenas uma origem específica do vídeo que possa ser apagada. O estrago, infelizmente, já estava feito.

Por outro lado, o viral ajudou a popularizar a Praia da Baleia, no litoral norte do estado de São Paulo. No mais, gerou boas risadas para internautas no Brasil inteiro.

6 – “Sou a Barbie Girl” (Kelly Key) – Versão de “Barbie Girl (Aqua)

Algumas músicas pedem tradução pelo fato de se encaixarem em realidades internacionais. Um exemplo é o clássico “Parabéns Pra Você”, que originalmente é em inglês e ganhou versões em dezenas de idiomas. Dadas as devidas proporções, o Aqua fez parecido com seu maior hit “Barbie Girl” em 1997.

Os personagens da música são Barbie e Ken, os famosos bonecos da Mattel. A própria letra do grupo dinamarquês exalta a diversão de brincar com esses brinquedos (por mais que exista um duplo sentido em expressões como “você pode pentear meu cabelo e tirar minha roupa em qualquer lugar”).

Mas sabe onde mais as bonecas Barbie fazem grande sucesso? Aqui no Brasil! E a cantora Kelly Key foi a voz responsável pela versão brasileira do hit, lançada em 2005. Sem muitas diferenças em termos de ritmo e melodia, a adaptação se diferencia apenas por alguns versos modificados para a melhor métrica.

Provavelmente a nova versão ajudou nas vendas de uma certa boneca aqui…

5 – “É Isso Aí” (Ana Carolina e Seu Jorge) – Versão de “The Blower’s Daughter” (Damien Rice)

O primeiro single da carreira de Damien Rice, “The Blower’s Daughter“, foi lançado em 2001 e fez sucesso no Brasil. Isso levou a cantora Zélia Duncan, em 2005, a gravar uma versão “meio traduzida” da romântica letra original.

Mas a versão brasileira que alcançou o maior sucesso foi, sem dúvidas, a interpretação de Ana Carolina e Seu Jorge, também de 2005. A dupla gravou a faixa para o álbum Ana & Jorge.

A letra foi adaptada por Ana, mas não perdeu a bela essência. O verso “I can’t take my eyes off you” se tornou “eu não sei parar de te olhar”, e conquistou as rádios brasileiras da época.

4 – “Chorando Se Foi” (Kaoma) – Versão de “Llorando Se Fue” (Los Kjarkas)

O grupo boliviano Los Kjarkas jamais imaginaria o sucesso que ia conquistar após 1981 graças ao hit “Llorando Se Fue“. O tropical e dançante instrumental da canção se tornou sample de várias canções, e dos mais variados estilos. Foi inspiração para, por exemplo, o country do Sun City Girls (em “Shining Path”) e para o pop de Jennifer Lopez (em “On The Floor”).

Mas talvez a mais épica foi a releitura feita pelo grupo franco-brasileiro Kaoma. Quase um tradução em termos líricos, “Chorando Se Foi” ajudou a popularizar a lambada (como também era chamada a canção) mundo afora. Com a releitura, a música foi para o topo de diversas paradas europeias além, é claro, de brasileiras. O sucesso levou o grupo a gravar versões em outros idiomas.

A tradução não foi só na letra. Enquanto a versão original é embalada pela cultura saya (gênero musical e dança popular na Bolívia), a versão do Kaoma mergulhou o já popular riff de sopros na cultura do norte brasileiro, usando referências claras no carimbó e na guitarrada paraense.

Vem dançar com a gente:

3 – “Imortal” (Sandy & Junior) – Versão de “Immortality” (Céline Dion feat. Bee Gees)

A dupla Sandy & Junior tem uma coleção gigantesca de hits que marcaram os jovens dos anos 90/2000. Um dos grandes sucessos (e talvez uma das letras mais tocantes da carreira deles) é “Imortal“.

Lançado em 1999 como parte do álbum As Quatro Estações, o hit é uma versão traduzida de “Immortality“, single de Céline Dion lançado um ano antes com composição e participação de ninguém menos que os Bee Gees.

As letras e a parte instrumental conversam entre si. O que foi alterado na letra original pela dupla teve o objetivo de conseguir métricas melhores para encaixar na melodia. E convenhamos: Sandy merece palmas por sua performance vocal na música, visto os grandes intérpretes originais.

2 – “Astronauta de Mármore” (Nenhum de Nós) – Versão de “Starman” (David Bowie)

Lançar um clipe pelo programa televisivo Fantástico era, há algumas décadas, sinônimo de sucesso e de prestígio absoluto para um artista. Em 1989, a banda Nenhum de Nós teve essa oportunidade graças à ótima “Astronauta de Mármore“.

O sucesso foi impulsionado também pelas rádios e por outros programas da época. O resultado foi que a canção se tornou a mais tocada do ano, garantindo à banda mais sucesso do que já havia conquistado com a faixa “Camila”, de seu disco de estreia.

Trata-se de uma versão de outro sucesso. “Starman“, de David Bowie, foi lançada em 1972 e conta com os mesmos elementos do glam rock na forma de uma balada com forte presença do violão. A música original conta com uma mensagem de esperança para a Terra.

O mesmo clima espacial envolve a versão do Nenhum de Nós ao descrever, metaforicamente, a viagem de um astronauta à lua. Apesar de ser uma tradução literal, a releitura é uma grande homenagem ao legado de Bowie, com referência à outras de suas canções.

1 – “Festa No Apê” (Latino) – Versão de “Dragostea Din Tei” (O-Zone)

Sim, Latino está no topo da nossa lista. E talvez por nenhum dos motivos que nos levaram a escolher as canções acima. Isso porque ele simplesmente pegou uma canção de um grupo da Moldávia e a revirou toda para achar rimas certas que encaixassem na métrica original da letra. Estamos falando da consagrada “Festa No Apê“.

Em 2003, o O-Zone lançou a dançante “Dragostea Din Tei” que, mesmo que em um idioma não-convencional para a indústria fonográfica, conquistou paradas musicais no Reino Unido. A letra fala de um flerte não correspondido, e o título pode ser traduzido como “Amor de Tília” (uma árvore comum na região da Europa Oriental).

No final do ano seguinte, Latino lançou o que viria a se tornar um de seus maiores sucessos comerciais. Ele já era reconhecido antes por “abrasileirar” músicas de grupos latinos e norte-americanos, mas foi só em seu sexto álbum, As Aventuras do DJ L, que as releituras expandiram seus horizontes para além do Oceano Atlântico. O mesmo viria a acontecer com “Dança Kuduro”, de 2011.

Aproveitando a dançante base instrumental feita pelo O-Zone, ele a revestiu com uma letra divertida (e um tanto polêmica). Foi como se o cantor, ao mudar toda a temática da música, buscasse fazer o próprio hit em descaso total com os versos originais. Foi o que aconteceu.

Mas, verdade seja dita, ele conseguiu um baita sucesso com “Festa No Apê”. No mais, a criativa nova interpretação foi capaz de dar espaço a termos rebuscados como “apê”, “birita”, “orgia” e, é claro, “bundalelê”.

E aí? Qual é a sua “versão abrasileirada” favorita? Deixamos a sua favorita de fora? Diga nos comentários!