Foto por Aline Krupkoski

Qual foi a última vez em que você viu uma banda brasileira lotar, sozinha, um estádio ao se apresentar para 45 mil pessoas? Pois o Los Hermanos acabou de fazer isso em São Paulo.

O último show da mais recente turnê de reunião da banda aconteceu no Allianz Parque, na capital paulista, e ainda rolou em um fim de semana dos mais movimentados: a Virada Cultural começava a tomar a cidade com shows gratuitos dos mais diversos gêneros e ainda tínhamos a intensa programação rotineira de SP, que tem apresentado shows internacionais todas as semanas. Só ontem tivemos bandas e artistas como Aurora, Hot Water Music e Graveyard “competindo” com todo esse caldeirão.

No meio de tudo isso, 45 mil pessoas decidiram ir até o Allianz Parque para celebrar a obra de uma banda que já ultrapassou as barreiras de um simples grupo de rock e se transformou até em expressão popular no meio da música: agora quando alguém faz um show com a plateia toda cantando, diz que foi “igual show do Los Hermanos”.

E ali de perto deu pra testemunhar e entender por que a expressão é mais que verdadeira: boa parte do show não se dá no palco, mas sim na plateia. E aqui não vai nenhum tipo de frase batida ou média com o público, já que é a mais pura verdade. Do início ao fim, toda e qualquer música que a banda toque no palco é acompanhada de vocais potentes vindos do público e quando estamos falando de tanta gente como ontem no Allianz Parque, o efeito é ainda mais impressionante.

Barba e Amarante em São Paulo (Los Hermanos)
Foto por Aline Krupkoski

Canções como “A Flor”, “Além Do Que Se Vê”, “Todo Carnaval Tem Seu Fim”, “Morena” e tantas outras foram cantadas a plenos pulmões pela plateia, e o primeiro baque real veio com “O Vencedor”, música que talvez tenha até iniciado a fama da relação da banda cantando com seus fãs, e que entoada por 45 mil pessoas em um estádio teve um efeito avassalador que, sinceramente, eu só tinha presenciado em shows internacionais por aqui.

Em “Sentimental”, o estádio todo ficou com as luzes apagadas para que as lanternas dos smartphones fizessem o espetáculo e foi muito bom ver que a banda se desprendeu de uma certa aversão que tinha com as músicas do seu primeiro disco, voltado a estilos como o Punk Rock, e entoou canções como “Tenha Dó”, “Descoberta” e “Azedume”, colocando todo mundo pra dançar e abrindo, sim senhor, rodas punk no meio da plateia.

O setlist ainda teve espaço para uma das mais incríveis composições da banda no início de carreira (e não estamos falando de “Anna Júlia” que foi tocada, inclusive) na forma de “Quem Sabe”, onde mais uma vez o Allianz Parque veio abaixo e viu Rodrigo Amarante indo para a plateia para despejar emoção ao cantar a música que lhe deu destaque na banda pela primeira vez.

O bis que foi aberto com a ótima “Deixa o Verão”, outra música que fez do gramado uma imensa pista de dança, terminou com “Pierrot” e um sentimento coletivo de felicidade como há muito tempo eu não testemunhava, principalmente em tempos tão sombrios como os que estamos vivendo.

Em mais uma música que era pedida à exaustão pelos fãs (e ignorada) no auge da banda em seus shows de discos como Ventura e 4, o Los Hermanos botou todo mundo pra dançar e acabar com o pouco de voz que ainda tinha, celebrando aquele momento, a história de cada um com as canções da banda e composições que, gostando ou não, já entraram para a história da música brasileira.

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Los Hermanos em São Paulo

Nos poucos momentos em que falou com a plateia, Marcelo Camelo agradeceu sua equipe e os fãs, dizendo que aquilo ali era inimaginável para eles.

Para uma banda que começou nas minúsculas casas de show do underground carioca e mesmo depois do sucesso teve que lutar contra a desconfiança de gravadora, a falta de um novo hit grudento e a construção de uma nova base de fãs, fechar uma turnê por estádios brasileiros com um show para 45 mil pessoas não é só uma marca memorável para os caras. É um momento histórico para a música nacional e um feito que gostaríamos que fosse corriqueiro, mas está longe de ser, por isso merece tanto destaque.

É claro que o fato do grupo estar afastado das atividades e transformar seus shows em raras ocasiões também ajuda para a construção do hype, e é possível prever que caso estivesse regularmente em atividade, os números não seriam tão surpreendentes, mas nenhuma decisão de carreira invalida algo tão grandioso.

Marcelo Camelo em São Paulo (2019)
Foto por Aline Krupkoski

Além disso, vivemos em tempos de ódio alimentado por todos os lados e em uma época onde a alegria de um é motivo para a raiva do outro, e eu não posso fazer nada a não ser sentir muito por tanta gente que gosta de criticar a banda (normalmente de forma bem rasa) a cada passo que ela dá.

Afinal de contas, vai ser difícil contra-atacar tanta alegria estampada nos rostos de 45 mil pessoas que tiveram uma noite inesquecível como a de ontem. O céu (de lua cheia) é o limite para o Los Hermanos.

Setlist

Plateia do Los Hermanos em São Paulo
Foto por Aline Krupkoski
  1. A Flor
  2. Além Do Que Se Vê
  3. Retrato pra Iáiá
  4. O Vencedor
  5. O Vento
  6. Todo Carnaval Tem Seu Fim
  7. Condicional
  8. Corre Corre
  9. Primiero Andar
  10. A Outra
  11. Morena
  12. Pois É
  13. Sentimental
  14. Samba a Dois
  15. Tenha Dó
  16. Quem Sabe
  17. Descoberta
  18. Anna Júlia
  19. O Velho e o Moço
  20. Paquetá
  21. Do Sétimo Andar
  22. Último Romance
  23. De Onde Vem A Calma
  24. Conversa de Botas Batidas
    Bis:
  25. Deixa o Verão
  26. Azedume
  27. Pierrot
     
 
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