TechnoBrass
Foto: Fillipi Brown
 

Seja sincero: você tem o hábito de consumir música instrumental? Você coloca esse tipo de música em suas playlists ou mesmo ouve esporadicamente?

Caso a resposta seja “não”, tudo bem, a culpa não é sua. A indústria fonográfica se desenvolveu de modo a privilegiar a voz em detrimento dos outros instrumentos. A sociedade engoliu isso de forma meio automática, o que acaba influenciando, direta ou indiretamente, nos nossos hábitos de ouvir música.

A música instrumental é poderosa! No entanto, ela infelizmente ainda não tem o reconhecimento merecido no Brasil, desconsiderando alguns exemplos de maior reconhecimento, como Bixiga 70 e Beach Combers. Dá o foco total ao talento técnico dos músicos. Um exemplo disso é o grupo carioca TechnoBrass. Trata-se de uma brass band, nome dado a grupos constituídos normalmente por instrumentos de metal e de percussão. E você precisa conhecer o som deles!

Formado por Marcelo Azevedo (surdo/percussões), Gabriel Barbosa (caixa/bateria), Tom Huet (tuba), Rodrigo Daniel (bombardino), Alê Sax (Saxofone), Raphael Cardoso (Trompete) e Clément Mombereau (Trombone), o grupo conta com uma proposta muito interessante. Eles trazem consigo grande influência da música eletrônica. Juntando isso à estética carnavalesca dos blocos de rua, a TechnoBrass promove um interessante som híbrido entre as duas vertentes.

Com ainda pouco tempo de estrada, eles já têm fãs consolidados, e já têm confirmadas apresentações na Europa. É um grupo que vale (e muito) a pena conhecer melhor!

“Não queremos ser apenas a banda acústica que toca na rua”

Com uma sonoridade que se desenvolve a cada dia, a TechnoBrass é um dos grupos instrumentais mais criativos em atividade no Brasil. Neste sábado (27), eles tocam no Circo Voador, na mesma noite em que a banda Francisco, el Hombre se apresentará.

Tivemos a oportunidade de bater um papo com Rodrigo Daniel. Conversamos sobre o cenário da música instrumental no Brasil. Rodrigo nos explicou sobre a interessante proposta da TechnoBrass.

Confira abaixo a entrevista:

TMDQA!: De onde surgiu a ideia do TechnoBrass, tanto em termos estéticos quanto musicais? Como o grupo foi criado?

Rodrigo Daniel: A gente se conheceu em um bloco de Carnaval que tinha a proposta de trazer a pegada da música eletrônica com instrumentos acústicos. Quisemos levar essa ideia musical para frente: fazer música séria com essa pegada. Primeiramente, optamos pelo formato acústico, mas agora, com cerca de 2 anos de grupo, nós já estamos incorporando elementos eletrônicos mesmo. Estamos fazendo uma espécie de “pesquisa da linguagem” com a eletrônica, partindo do princípio de que somos uma banda acústica. Temos clara a ideia de nos mantermos no código da música instrumental, e temos esse norte bem definido de executarmos a linguagem da música eletrônica com instrumentos acústicos. Estamos colocando esses elementos nos nossos shows de palco, que é o que vamos levar para o Circo.

TMDQA!: É muito maneiro ver a influência da levada techno em instrumentos de sopro e percussão. É um certo flerte com a linguagem eletrônica, como você mesmo disse.

Rodrigo: É o nosso norte estético. Sempre tentamos fazer as pessoas acreditarem que aquilo se trata justamente de música eletrônica. A gente tem uma apresentação 100% acústica, que costumamos fazer na rua ou em cortejos, e mesmo assim conseguimos remeter à música techno.

TMDQA!: Como vai ser essa apresentação no Circo? Como os elementos orgânicos e efetivamente eletrônicos vão dialogar entre si e com o público?

Rodrigo: No Circo, vamos colocar tudo! Chamamos esse tipo de show de “formato plugado” (risos), com base percussiva e eletrônica ao mesmo tempo. Os sopros vão ter efeitos também. No geral, as músicas têm uma progressão. Elas começam sempre com o groove eletrônico, com alguns momentos mais puxados para cada um dos lados. Mas nunca tiramos o protagonismo dos sopros nos elementos melódicos e harmônicos. Há momentos em que colocamos mais carga no que é, digamos assim, sintético.

TMDQA!: Você falou de suas influências, dessa mistura entre o orgânico e o sintético. Pelo menos na sua opinião, como integrante do grupo, existem influências de artistas ou movimentos específicos?

Rodrigo: A gente formou esse grupo pegando várias influências. Nosso baterista, por exemplo, é roqueiro. Nosso outro percussionista é da Orquestra Voadora, e tem uma linguagem mais “fanfarra”. Eu, enquanto isso, sempre tive mais influências eletrônicas. Temos dois franceses na banda, que também agregam com essa musicalidade de “fanfarra”, que é muito forte na França. O nosso saxofonista é músico de jazz. É algo bem misturado.

A gente gosta muito de uma galera que está fazendo esse tipo de som que se assemelha ao nosso. Tem o MEUTE, um brass band alemã com cerca de 15 ou 20 músicos. Eles também têm shows em formato acústico e “de palco”. A gente troca ideia com eles de vez em quando. Em Julho, estamos indo fazer nossa primeira turnê na França, e talvez consigamos encontrar essa galera, que sempre foi um norte para nós. Também tem uma galera de Nova Iorque, o Too Many Zooz. Eles ficaram famosos nos metrôs da cidade. Trata-se de um power trio, com um sax barítono, um trompete e um tambor. Eles já são mais acústicos mesmo, mas são ótimos instrumentistas supervirtuosos. Até agora, eles não incorporaram sons eletrônicos. Temos certa afinidade com ambos esses grupos. Mas é isso: uma mistureba danada de influências, mas temos um norte que seguimos.

TMDQA!: A música instrumental no Brasil ainda não tem a visibilidade que ela pode ter. Brass bands são um formato musical muito divertido, dançante e percussivo como a própria musicalidade brasileira em um geral. No entanto, as pessoas ainda não criaram o hábito de entende-las como um evento divertido, já que a ideia da música instrumental, como um todo, ainda não é muito disseminada por aqui. Qual você acredita que seja a contribuição da TechnoBrass para o cenário?

Rodrigo: A música instrumental aqui tem uma dificuldade em se mostrar acessível. O próprio termo “instrumental” já tem uma certa carga negativa. Estamos seguindo a nossa proposta com o intuito de fazer as pessoas olharem para a nossa música de um jeito mais sério. Viemos desse mundo de fanfarra e blocos de Carnaval que muita gente desconhece, e que quem conhece não leva muito a sério. O nosso trabalho é 100% autoral, e queremos que as pessoas nos olhem não como aquela música instrumental hermética e inacessível, já que queremos colocas as pessoas para dançar. Queremos que as pessoas consigam nos ver mais além simplesmente do bloco de Carnaval. Tudo bem, a gente veio disso, mas também existe toda uma parte de pesquisa e construção de linguagem à qual gostaríamos que as pessoas prestassem atenção. É quase uma dicotomia.

TMDQA!: Vocês fazem a sua parte para tornar o som mais acessível para a galera como um todo.

Rodrigo: Pois é! No Brasil, acho que o grupo instrumental que está tendo mais reconhecimento é o Bixiga 70. Eles têm um trabalho autoral que sobressai mais, mas possuem muito a coisa das diferentes leituras, das covers, e isso atrai muitas pessoas para prestar atenção. Nós, no momento, achamos interessante focarmos apenas nos nossos sons autorais. Não fazemos releituras. Esse é um dos obstáculos com os quais nos deparamos nesse caminho que ainda estamos descobrindo.

TMDQA!: O que vocês fazem, para o cenário todo, é super importante! Aliás, essa experimentação é mais do que sensata, já que o instrumental por aqui é ainda um “terreno baldio”, com poucos artistas que se destacam na cena.

Rodrigo: Sim! Ainda estamos tentando desbravar este cenário. A gente tenta se colocar de alguma maneira no circuito de festivais. Participamos, no ano passado, do Psicodália e foi uma experiência ótima. O que eu ainda sinto, no entanto, é que ainda estamos engatinhando nesse sentido, de encontrar o nosso tipo de evento. Mesmo dentro do circuito de música instrumental, ainda estamos conhecendo melhor. Por ora, estamos conseguindo entrar aos poucos em circuitos de festivais eletrônicos. Sendo a única banda, vamos tocar no mesmo palco que vários DJs na Rio Me, em Maio. Em Junho, devemos ir para a primeira edição nacional do Tropical Burn.

Mas são apenas dois anos de banda até então. Uma hora a gente chega lá (risos). E tudo isso se dá de uma forma muito híbrida. Na nossa turnê pela França, por exemplo, conseguimos fechar participações em tipos diferentes de festivais. Vamos tocar em fanfarras, em eventos de eletrônica, shows de rock…

TMDQA!: Todos as músicas lançadas pela TechnoBrass possuem uma estética específica em suas capas, apenas com as cores preto e branco. Tem algum motivo específico para isso?

Rodrigo: A gente adotou essa estética porque, além de ser uma estética comum entre artistas eletrônicos, de uma coisa mais minimalista, introspectiva e não muito colorida, isso também serve para nos distanciarmos dessa ideia carnavalesca que, apesar de ser muito inspiradora para nós, não é um resumo do nosso trabalho. Não queremos ser apenas a banda acústica que toca na rua. Queremos que nos olhem de uma outra maneira. Queremos também incorporar essa pegada mais urbana.

TMDQA!: Recentemente, vocês lançaram “Rise Up”, que conta com a participação do Donatinho. No cenário da eletrônica, as participações de outros artistas, seja cantando ou tocando algo, é muito presente. Vocês pensam em alguma outra parceria com algum artista específico?

Rodrigo: Sim! Esse terreno da colaboração dentro da música eletrônica é muito natural em qualquer lugar do mundo. Os produtores estão sempre trocando. Tivemos a nossa primeira colaboração com o Jeza [da Pedra], no remix com o DJ MAM e Donatinho. Depois, chamamos o Donatinho de novo, para fazer os teclados de “Rise Up”, e a gente está prestes a lançar mais um single no próximo mês, onde vamos contar com a participação de um artista da área da eletrônica mesmo, para fazer um beat para nós.

TMDQA!: Como vocês cuidam da divulgação das músicas da TechnoBrass?

Rodrigo: Quando lançamos uma música, normalmente fazemos um evento para divulgar a nova canção. O primeiro que fizemos foi ano passado. Foi uma grande surpresa, porque vimos que muita gente está interessada no nosso trabalho. O evento se consolidou e já estamos indo para a quinta edição. É muito legal porque, além de músicos, ganhamos o trabalho de produtores de evento, já que nós mesmos fazemos tudo. A “TechnoBrass Live”, com essa proposta de ser um evento híbrido, sempre conta com um diferentes tipos de DJs, alguns com uma pegada mais orgânica, inspirada na musicalidade brasileira mesmo, e outros da eletrônica mesmo. Não é um evento eletrônico nem um evento de Carnaval. Está no meio termo entre os dois.

TMDQA!: A noite no Circo vai ser interessantíssima, né? Vai ser interessante ver a mistura entra a sonoridade da Francisco que, por si só já é bem antropofágica, com a ideia da brass band e da música eletrônica de vocês.

Rodrigo: A gente tem um certo público, que nos segue e procura saber onde vamos tocar. Foi muito maneiro porque, quando começamos a comentar sobre esse show, nossos fãs acharam tudo a ver tocarmos na mesma noite que uma banda como a Francisco. O pessoal está bem animado. De alguma forma, eles acham que nossas sonoridades conversam… Vamos lá, né (risos)!

TMDQA!: Naturalmente, certas pessoas que vão ao evento ainda não tiveram a chance de assistir a uma apresentação da TechnoBrass. Como você descreveria uma apresentação do grupo para os “iniciantes”?

Rodrigo: Eu pediria para as pessoas irem de peito aberto e com a “carcaça” alongada, para poderem dançar muito durante o show!