Stereossauro - Bairro da Ponte - Crédito MIKE GHOST (2)
Foto: Mike Ghost
 

Por Nathália Pandeló Corrêa

O Bairro da Ponte é onde dois mundos aparentemente distintos se encontram. Nesse espaço fictício e idealizado pelo DJ e produtor português Stereossauro, os limites de gêneros musicais se diluem, fazendo surgir uma nova interpretação das tradições sonoras lusófonas.

Ao longo de mais de uma hora, Bairro da Ponte faz uma mescla irresistível de fado e hip-hop, violões orgânicos e beats eletrônicos, vozes do passado e do presente de um país cujas raízes se espalharam por suas múltiplas ex-colônias. O resultado é uma colcha de retalhos cheia de cores, sotaques, ritmos.

Após o elogiado primeiro disco solo Bombas em Bombos, de 2014, Stereossauro realiza aqui o seu projeto mais ousado até o momento. O ponto de partida foi o acesso inédito e privilegiado aos arquivos da editora Valentim de Carvalho, onde pode manipular os masters originais de Amália Rodrigues, lenda do fado, e Carlos Paredes, mestre da guitarra portuguesa.

O fio condutor é uma variada coleção de vertentes do hip-hop e da música eletrônica, tudo temperado pelos convidados ao longo das 19 faixas. Ace, Ana Moura, Camané, Carlos do Carmo, Capicua, Dino d’Santiago, DJ Ride, Gisela João, Holly, NBC, Nerve, Papillon, Paulo de Carvalho, Plutónio, Razat, Ricardo Gordo, Rui Reininho, Slow J, Sr. Preto e The Legendary Tigerman representam, ao mesmo tempo, a geração contemporânea de fadistas e alguns dos nomes mais promissores na cena rap local, com direito a influência direta da efervescência pop e hip hop africana.

Stereossauro começou a revelar o álbum com os singles “Flor de Maracujá”, com participação de Camané e letra de Capicua, e “Nunca Pares”, com Slow J, Papillon e Plutónio. Mas a gênese de Bairro da Ponte surgiu bem antes. Ainda em 2013, o DJ lançava em seu Bandcamp um remix ao vivo de “Verdes Anos”, clássico de Carlos Paredes. Paralelamente, se dedica ao duo Beatbombers, ao lado do DJ Ride, com a qual foram bicampeões de scratch e se apresentaram na final da Eurovision realizada em Lisboa.

Nesse novo passo na carreira, o produtor faz uma ponte entre presente em passado, escancarando as diferenças mas, principalmente, as similaridades entre culturas aparentemente tão distantes. O fado, hoje tão associado pelos brasileiros à sofisticação da música portuguesa tradicionalista, nasceu nos círculos marginais de Lisboa, sendo descrito como “dança de negros tão imoral e no entanto tão encantadora” por um oficial alemão que passou pelo Brasil no começo do século XIX. Indo além de sua origem no Bronx, nos anos 70, o hip hop português – ou tuga – surgiu em um contexto muito similar de preconceito e marginalização. Stereossauro escolhe então focar no que os une, ao invés de o que os difere.

Ao mergulhar nos arquivos de Amália e Paredes, o DJ ressignifica a tradicional música portuguesa sem abrir mão da reverência pelos ídolos do passado. Ao manipular samples, vocais, cordas e até diálogos entre takes de gravação, Stereossauro remonta a história da música luso e atesta a sua atemporalidade, batizando-a com nova roupagem para ser redescoberta por um público mais jovem.

É uma tarefa hercúlea que ele encara com a seriedade que merece. Stereossauro emerge dos últimos anos de pesquisa ciente do privilégio que teve ao recriar, pela primeira vez, material de arquivo de algumas das maiores lendas da música de seu país.

O TMDQA! teve a oportunidade de conversar com ele sobre o lançamento desse novo disco e a diminuição das distâncias entre os países de língua portuguesa. Confira abaixo do player para ouvir o disco:

TMDQA!: Você está lançando o álbum “Bairro da Ponte”, que passa uma sensação de ser algo local e também universal. Tive a oportunidade de ouvi-lo e, de certa forma, faz uma ligação entre o passado e a atualidade da música portuguesa e suas “nações irmãs”. De onde partiu a necessidade de explorar elementos aparentemente anacrônicos, de tradicionais a eletrônicos? De que modo eles se complementam?

Stereossauro: As minhas “fundações” na música são o hip-hop e a música eletrônica, e enquanto DJ sempre gostei de explorar estilos musicais diferentes. O fado e o hip-hop têm vários pontos em comum, como, por exemplo, as suas origens nas camadas mais desfavorecidas da sociedade, o hip-hop tem as “battles” de MCs e o fado tem as “desgarradas”, e por aí fora. No fundo, a música é uma linguagem universal, todos os estilos podem comunicar entre si.

TMDQA!: As pessoas estão dispostas a ouvir esse encontro do antigo com o novo – um outro exemplo recente e bem recebido é a Rosalía. Em “Flor de maracujá”, você descreve como uma canção feita com “bênção de Amália”. Há ainda um aspecto sagrado, intocado, ao reimaginar grandes artistas do país, como a própria Amália Rodrigues e também Carlos Paredes? Quais são os principais desafios ao encarar essa missão?

Stereossauro: Quando estamos a samplar algo que originalmente é excelente a pressão aumenta, há um cuidado na aproximação, muitas horas a escutar os originais. Mas, ao mesmo, tempo eu já tinha bastante experiência neste trabalho e senti-me muito confiante para fazer isto.

TMDQA!: O press release informa que nunca se fez algo assim em Portugal. Como tem sido a recepção até aqui? O que acha que mais surpreende as pessoas?

Stereossauro: A recepção do público tem sido excelente, apesar de ter saído há poucos dias tenho recebido imensas mensagens de parabéns e de muitas pessoas. Cada uma tem a sua música preferida diferente, o que é muito fixe e espelha a diversidade do disco.

TMDQA!: Já é reconhecido como DJ e produtor, porém como é ter a oportunidade de mostrar outros talentos seus – como letrista e músico?

Stereossauro: Ser músico não é problema porque sempre toquei instrumentos, agora ser letrista é que foi novidade até para mim. Foi a primeira vez e estava com receio quando mostrei as letras à Gisela João e à Ana Moura, mas depois elas responderam que gostaram. Quando ouvi cantado nas suas vozes incríveis foi um momento épico.

TMDQA!: Sabe-se que o fado e o hip-hop têm mais em comum do que à primeira vista – por exemplo, terem surgido como culturas “inferiores”, muitas vezes em guetos e marginalizados. O que mais lhe surpreendeu durante sua pesquisa pelas entranhas desses gêneros?

Stereossauro: A riqueza dessa cultura é enorme, e eu sinto que apenas toquei na ponta do iceberg, tenho muito a aprender ainda sobre fado. Acho que o que mais me surpreendeu foi o quanto eu próprio me identificava com o fado, as letras e a sonoridade, sem o saber. Fui descobrindo.

TMDQA!: Neste álbum, você recebe variados convidados. Como foi selecionar artistas tão diversos, de sotaques, linguagens e vozes distintas? O que você buscava nos intérpretes dessas canções?

Stereossauro: É um elenco de luxo, incrível mesmo. Agora que olho para trás até parece mentira! Todos artistas incríveis que deixaram no disco a sua marca de autenticidade e talento, cada um à sua maneira, desde a experiência e sapiência ancestral do Carlos do Carmo ou do Paulo de Carvalho, ao “sangue na guelra” dos jovens Slow J e Papillon. Sinto-me abençoado por todos eles.

TMDQA!: Em Nunca Pares, são citados vários territórios da lusofonia. Acredita que hoje, com uma menor distância de comunicação, há uma integração cultural maior entre os países de língua portuguesa? Como enxerga a troca entre artistas africanos, portugueses e brasileiros?

Stereossauro: No hip-hop já existe uma interação entre Brasil, África e Portugal há bastante tempo – os outros estilos não sei como será – e tem resultados muito bons. Lembro-me, por exemplo, do projeto “Língua Franca”.

TMDQA!: Sabemos que a música brasileira tem espaço nos ouvidos portugueses, mas o mesmo não acontece aqui. Temos pouco contato com a produção fonográfica atual de Portugal. Nosso site se chama Tenho Mais Discos Que Amigos, o que diz muito da nossa relação de proximidade com a música! Pode indicar artistas de Portugal que prometem chamar atenção ao longo de 2019 e que podemos acompanhar do lado de cá?

Stereossauro: Muitos, Slow J, SP Deville, Capicua, NBC… Só para dizer alguns, porque todos os que estão no disco são bons exemplos. Nas produções de eletrônica mais pesada os manos Holly e DJ Ride.

TMDQA!: Por fim, tem intenção de se apresentar no Brasil com esta tour?

Stereossauro: Gostaria muito.

   
 
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