EDGAR
Foto: Reprodução/YouTube
 

Por Christiano Prado

O Edgar rodando um pedaço de bombril no ar, com fogo na ponta, foi a primeira imagem com a qual me deparei enquanto caminhava para a entrevista. O fogo logo se apagou e ele veio em nossa direção — eu e o Eduardo Calliari, que fotografou e filmou toda a conversa e o show. Com um abraço forte me cumprimentou e disse que fazia tempo que não fazia aquilo. Assim, seguimos para o camarim, acompanhados da produtora Michelle. Lá encontramos Angelo Medrado (baterista e percussionista que já fez parte do Cordel do Fogo Encantado, agora na Mango Fuzz e na responsa pelos beats) ao lado de Chiquinho Moreira (teclado e vocoder no Mombojo, também na responsa dos beats).

Edgar, muito tranquilo e confortável, foi retirando seus figurinos/roupas — seres — de sua mala e com ajuda da Michelle, foi colocando elas em cabides. Enquanto Eduardo arrumava os equipamentos, Edgar preparava aqueles colares pisca-piscas de festas de 15 anos e casamentos. Tinha vários nas mãos e ia desatando os nós nos cordões, preparava algo para o show. Enquanto isso, ele me convidou pra sentar e começamos a conversar.

Sonhava com a minha família dando risada, mas meu pai nunca colaborava, era sempre uma tempestade em copo de cachaça. Eu lembro do vizinho no dia do último tapa. Aquela correria danada e ele gritando: chama os homens, chama os homens. Eles não são homens, são menos homens que você. Tratam o bairro como senzala. Capitães do eu mato, burlo e desmoralizo. Tacam spray de pimenta no rosto dos nossos pequenos sonhadores. E tropa, ninguém experimenta o sonhos dos oprimidos, porque sonhar vicia.

(Trecho de ‘Sagrada Família’)

Uma das músicas de Protetora dos Bêbados e Mal Amados (2017), disco que antecedeu Ultrassom (2018), “Sagrada Família” é um retrato da arte, da qual se espera que a vida não imite, lembra Edgar.

Sagrada Família

Ela é meio assustadora, ao mesmo tempo que ela aconteceu, ela pode acontecer ou estar acontecendo. Ela não aconteceu na minha vida. Mas eu posso me tornar aquele cara que foi esfaqueado. Ao mesmo tempo que poderia ter sido aquela criança. A gente se colocando em vários pontos de vista. A ideia era meio que um filme. Conversando com o Pedro Bomba, pela internet, de produzir poesia visual… Ela é toda na base da sinestesia, fazendo você entrar no cenário do cortiço, no cenário das casas divididas, um sabendo da vida do outro. Aí o cara liga pra polícia quando vê o casal brigando, porque a mulher não tem coragem de ligar. Ai um dia a mulher esfaqueia o cara e o cara chama a polícia e a polícia bate no filho do cara, que tava jogando bola. Aí vira um efeito dominó.

Dali, partimos para uma história mais antiga, ainda na infância do Edgar.

Brincadeira

Eu pintava azulejo, era minha brincadeira. Minha mãe não deixava eu sair muito pra rua. Eu fui sair na rua na Copa de 2002, que eu saí porque o Brasil ganhou a Copa. Cê acredita? O Brasil ganhou a Copa e foi a deixa, ela falou pode sair, porque a rua tava fechada. E aí mano, nossa senhora, saí na rua, entrei no rolê da favela e conheci vários brother da escola e trombei vários: e ae caraio, num sei o que bá, bá, bá. Mas ela dava azulejo e falava: fica pintando aí. Azulejão que sobrava dos baguio do meu pai. Que meu pai que fez a planta da minha casa e ajudou o pedreiro a construir.

Não só essa construção material, mas a do próprio ser, permeiam a fala do Edgar. Da casa, pra algo que a compõem, um muro, o das vontades.

Um Anjo Sobe o Muro Das Vontades

É o Edgar de agora fazendo uma participação com o Edgar alcoólatra daquele momento. Então é coexistir e reexistir, tipo um novo momento. Eu não sabia que eu tava indo pro Ultrassom… Já tava num momento de pedir desculpas pro planeta, saca? Era eu me desculpando com todas as minas que eu dei mancada, com todas as vezes que eu fui infantil e não quis aprender, e não calei minha boca pra poder escutar mais. E os momentos alcoólicos né, etílicos, de estar tipo devasso, louco no rolê. E não conseguir estar no rolê. Ser uma coisa à parte da parada. Ela é um grande pedido de desculpa sabe? Pra mim mesmo, comigo mesmo, do novo com o antigo, das pessoas que estavam em volta, que me ajudaram. A mãe, as irmãs, as namoradas, as amigas, é uma grande segunda chance sabe? É um Anjo Escalando o Muro das Vontades.

Quando ia escutando o Ultrassom do Edgar, ia fazendo alguns links. Um deles foi com a música “Líquida” e o conceito de liquidez do Bauman. Resolvi perguntar se tinha realmente alguma ligação. O Edgar disse que uma galera já tinha perguntado, ele até tentou ler, mas não rolou muito e conclui:

É mais de experiência de vida, de viver e sentir que quando se tá fluido, se tá mano, se tá nesse rio das coisas, saca? E elas acontecem!

Daí, seguimos pro Rio: “Poxa, quando você deixa as coisas acontecerem, saca? Eu não tinha planejamento de tá aqui em Londrina esse ano, sabe. E as coisas estão acontecendo. Eu parei de planejar elas, mas tipo ano passado, 2017 eu passei todo viajando, se jogando pros lugares.”

Edgar passou por Minas Gerais em 2016. Na sequência foi para Goiás e depois pro Mato Grosso do Sul, onde fez trabalho voluntário numa tribo indígena. Mas a meta era ir pra Colômbia. Ficou três meses em Pernambuco, depois Rio Grande do Norte, Amapá e Pará. Aí, uma ligação entrou no meio desse trajeto e o destino foi alterado. Quando o “Pupilo”, Romário Menezes de Oliveira Jr., baterista do Nação Zumbi, compositor e produtor musical, falou: “E aí, vamos terminar aqueles sons lá e tal, vamos lançar tudo junto num disco.”

Visão interna do ser, dos órgãos e das entranhas. Ou a potência de ser, que ultrapassa a própria velocidade. E vibra acima da velocidade do som, é ultrassônico. O Novíssimo Edgar e seu Ultrassom.

O Ultrassom

Edgar surge no palco com bolhas de sabão, tão simples e sublimes logo estouraram e deram início ao show. Ao longo do espetáculo/performance, vai trocando de figurino enquanto de tempo em tempo atende o telefone (microfonado), hora fala com o público e com a organização. Outrora liga para a polícia para denunciar um abuso de poder da própria polícia, que espanca um garoto bem na frente de seus olhos, segundo o papel que interpreta no palco. Em certo ponto da apresentação, para e começa a “vomitar” longos tecidos, que não param de sair de dentro de sua boca. Fico me perguntando como conseguiu fazer aquilo, parece um truque de mágico ou de palhaço. Já perto do final do show, ao tirar uma blusa, Edgar acaba dando uma engasgada na música e até aí, seria normal. Se ele não parasse o show e falasse que tinha que fazer o lance direito e com respeito ao público, então retorna ao início da música e começa ela de novo. Por fim, na última música, ele desceu do palco e dançou com quem estivesse em sua frente, para depois sair de cena e, assim, encerrar o show.

Edgar conta que enquanto ia produzindo o disco, foram surgindo oportunidades, como a amiga Ana do Vento Festival, que fez parte de uma residência na Red Bull Station como curadora e o convidou para participar. Além disso, Edgar contou que percorria um caminho em busca de um sonho.

O Processo

E aí, sabe, quando eu meio que taquei um grande foda-se pro Brasil? Porque, quando eu era criança, eu meio que falei comigo mesmo: Edgar, se você tiver 24 anos e você não tiver saído do Brasil ainda, você tem que sair, cara, você tem que sair que tem uma coisa muito especial pra você lá. E sabe essas promessas que a gente faz quando a gente é criança? Eu tava atrás dela, mano. E não consegui sair do Brasil pra ir lá, mas depois que eu aceitei tudo isso e voltei e entrei na Urban Jungle — mesma do Bixiga 70, Chico César, Céu, Muntchako e Jorge Ben Jor /internacional/ — e na Deck Disck, fizemos todos esse corres. E eu fui pra França. Fechamos um show na França e aí, ainda no tempo, no prazo dos 24/25. Aí eu falei: ‘caramba, que louco! A vida tem os seus meios’. Do lançamento do disco em direção a turnê do Ultrassom, algumas coisas mudaram. É o nômade, é o ser humano de volta pra maior essência que ele tem, que é de sair e se movimentar. Só que agora com ajuda, com pessoas querendo que eu esteja nos lugares onde elas estão. E encontrar essas pessoas tá sendo umas pontes invisíveis muito fortes.

Daqui em diante, partimos para assuntos mais subjetivos que não deixam de ser objetivos, mas abrem espaço para a transcendência, seja ela sob o efeito de alguma substância ou não, o que importa é que sua mente já esteja aberta.

Portas da Percepção

O Ney Matogrosso falou uma parada, tava assistindo o Roda Viva, sei lá qual que era. Ele deu esse salve assim: meu, tomei um ácido nos anos 70, que até hoje não passa, saca? Porque é isso, eu tomei umas paradas também que, mano, não me deixam esquecer e acho que a maior lombra, a real da brisa, é essa né!? Não é você ficar totalmente desligado e desconectado, em stand-by. É você não esquecer o que tá acontecendo, saca? Você ter a sua memória de novo, ativa! Você tomar aquela parada que você fica pensando: Caralho, mano, porque que as árvores estão sendo usadas de enfeite? Que porra de burrice é essa? Todo mundo reclamando de calor, mas asfaltou tudo, num tem nada pra drenar a água, pra virar lençol freático, saca? Tipo, sei lá, que porra de droga é essa que te deixa um pouquinho mais perspicaz, a perceber tudo que tá em volta de errado, saca? Ou uma droga que te deixa totalmente difuso, de noção de espaço e tempo e precisando de ajuda, tá ligado? Incapaz de fazer um monte de coisa. Então, aí é a droga, quando ela te incapacita mano! Tá ligado? Te deixa como o estado quer: dependente dele, do próprio estado, não dá droga, mas da saúde pública, que tá uma merda. E você vira culpa e estatística de falta de educação, então você tem que tá preparado e se preparando pra não esquecer, tá ligado? Não perder a sua memória. Acho que isso é o melhor de tudo, quando a droga que você toma vira um HD a mais, vira uma memória RAM. Eu tomei ayahuasca no meio de 2017, quando eu lancei o Novíssimo. Em Agosto. E eu não consigo tomar de novo, às vezes dá vontade, mas ainda tô digerindo muitas coisas assim, que chegaram de mensagem. Já sei da mensagem, se eu tomar ayahuasca é muito loco. Então: é vício, hábito ou repetição, saca? Ou os três são a mesma coisa. Acho que é isso, você não cair no ato da repetição, porque às vezes você já tá passando pela mesma porta. Dando volta no cômodo. Sabe?

Se fosse só a parte boa, se chamariam benefícios e não drogas. Mas até das partes ruins se pode tirar algo, como explana Edgar.

Bad Trips

Já tive bad trips e até o Brad Pitt tem bad trips… A bad trip quando ela tem uma contribuição pra uma construção de uma fuga dessa própria bad trip, ela é necessária. Porque muitas coisas boas minhas vieram de quando eu tava com essas confusõezinhas mentais. E aí, essas indagações criam umas janelas, nessa construção que a gente faz. Eu consigo enxergar outras coisas e deixar entrar luz. Acho que ela é importante assim, sabe! Não aquela bad trip do pânico, de sair pra rua e se jogar na frente de um carro. Aquela bad trip que você tem que sentar e falar meu irmão, vamos conversar, que eu descobri o segredo do mundo. É nessa hora que é o nosso amigo ET conosco, tá ligado, é importante ter.

Com o tempo correndo, a matéria chegando ao fim, acho relevante saber como o tempo influencia os corres do Edgar: “Existe o Kairós e o Chronos, que são dois tipos de tempos. O chronos é esse humano, de relógio, de calendário… Esse é o chronos, que te coloca numa ideia de que você tá levando o tempo, mas você pode estar sendo devorado por ele. E o Kairós, que é o tempo de Deus, o tempo das coisas acontecerem como elas acontecem. E quando você se permite estar dentro desse tempo, as coisas mágicas acontecem. Então, eu to tentando ficar mais no Kairós, ficar mais de boa, mas tendo cronograma.”

A entrevista e as imagens do show foram feitas na 18ª edição do Festival Demosul, evento que tomou conta de diversos espaços na cidade de Londrina (PR), em três datas no mês de Novembro e uma, no dia 1° de Dezembro, na qual Edgar se apresentou.

     
 
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