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Apesar de hoje estar estabelecido como um dos maiores festivais de música mundialmente, o Coachella teve suas origens de forma relativamente modesta.

Para contrastar com o clima caótico e violento da edição de 1999 do Woodstock, Paul Tollett decidiu criar seu próprio festival na Califórnia com um foco maior na arte em si do que em artistas que apenas dominavam a rádio. Com isso, a primeira edição contou com nomes como Beck, Tool, Rage Against The Machine, Morrissey e muitos outros.

Mas apesar de apresentar um conceito diferente, o festival penou para se firmar na cena musical americana. Suas primeiras edições foram marcadas pela falta de dinheiro e a empresa de Tollett quase declarou a falência em diversos momentos.

A situação começou a mudar quando a gigantesca empresa AEG comprou a produtora Goldenvoice de Tollett por 7 milhões de dólares. Ainda assim, a AEG continuou apostando na visão de Tollett, assegurando que o festival iria demorar para recuperar o investimento, mas que o Coachella tinha um potencial gigantesco.

Dito e feito. Quase vinte anos depois, o evento tomou proporções extraordinárias e atrai pessoas de todas as partes do mundo pelos mais variados motivos.

Uma prova disso são as vendas dos ingressos para o evento, que sempre esgotam em questão de horas. Muitos discutem se isso é um sinal da credibilidade dos produtores de sempre entregarem uma coleção de artistas excelentes ou se o hype já tomou conta do Coachella e a música ficou em segundo plano.

 

Line-up do Coachella

Coachella 1999
Foto: Divulgação

Embora discussões sobre as escolhas do line-up aconteçam todo ano, o último grupo de bandas escolhidas pela Goldenvoice chamou atenção em especial. Como headliners, estão Childish Gambino, Ariana Grande e Tame Impala — três artistas com propostas, visões e alcances completamente diferentes.

Ariana Grande é provavelmente uma das escolhas mais óbvias do evento. Tendo acabado de conquistar elogios do público e da crítica com Sweetener, a jovem de 25 anos está maior do que nunca desde o lançamento de “thank you, next”, um dos últimos hits a emplacar nas paradas de sucesso nos Estados Unidos.

Já o Childish Gambino, projeto musical do multi-talentoso Donald Glover, está para lançar um novo disco em breve que promete ter proporções maiores que seu antecessor, Awaken My Love. Isso se dá por conta do estrondoso impacto de “This Is America”, canção lançada em 2018 que deu muito o que falar sobre seus temas sociais e o incrível clipe dirigido por Hiro Murai.

Mas a maior surpresa entre os headliners com certeza foi o Tame Impala. O projeto de Rock Psicodélico criado por Kevin Parker possui três discos na bagagem, o último deles sendo Currents, lançado há três anos. Nesse meio tempo, Parker colaborou com um verdadeiro panteão de gigantes da indústria pop, como Mark Ronson, Lady Gaga, Kanye West, Travis Scott e muitos outros, e vem trabalhando no seu próximo disco, que deverá sair esse ano.

 

Tame Impala

O Tame Impala é um dos projetos musicais mais importantes da música indie a surgir nessa década. Pouco tempo após o sucesso de Innerspeaker, seu primeiro álbum de estúdio, Parker compôs, produziu e lançou o incrível Lonerism, um marco da música psicodélica moderna.

Além de se inspirar em grandes discos da década de 70, Parker sentiu uma necessidade de fazer sua música soar mais “moderna”, com um viés pop. “Eu me rendi à tentação e ao desejo de fazer um álbum que é estranho, mas eu também tenho um desejo de soar como a Britney Spears — eu amo música pop”, disse ele em uma entrevista na época.

Em Currents, as tendências pop se tornaram ainda mais presentes na música de Parker. O disco contou com hits como “The Less I Know, The Better” e “Let It Happen”, que alçaram o Tame Impala ao mainstream e apresentaram a banda para uma nova geração de ouvintes, mas sem sacrificar a visão artística do produtor.

No entanto, o sucesso de Parker não é o mesmo sucesso de Gambino — que também não é o mesmo sucesso de Ariana. Esses artistas estão em patamares bem diferentes por todas as métricas possíveis: a cantora tem mais de 60 milhões de ouvintes mensais no Spotify, por exemplo, enquanto o Tame Impala tem apenas 5 milhões.

Ao mesmo tempo, a banda de Kevin Parker não vende a mesma quantidade de discos que outros artistas dentro do próprio line-up do Coachella. O The 1975, por exemplo, possui o mesmo número de discos na bagagem e ainda assim vendeu mais cópias de seu último álbum, o excelente A Brief Inquiry Into Online Relationships, se comparado ao Currents. O grupo inglês também possui mais ouvintes nas plataformas de streaming de forma geral.

Então por que o Tame Impala foi escolhido como headliner?

Uma das hipóteses mais prováveis seria a aposta da Goldenvoice no novo material de Parker, que promete ser ainda mais voltado ao “pop” que seus discos anteriores. Embora ainda não se conheçam muitos detalhes a respeito do próximo disco da banda, os iminentes singles do trabalho poderão alavancar a popularidade do grupo, justificando sua escolha.

Já outros acreditam que a escolha foi uma mistura de “sorte” e conveniência. Poucos dias antes do Coachella anunciar suas bandas, pessoas próximas ao rapper Kanye West afirmaram que ele recusou ser um dos headliners do evento por não concordar com o design de palco do festival, que considera “arcaico”.

É possível que a recusa de West tenha acontecido em cima da hora e, para não segurar a divulgação do line-up por muito tempo, a empresa tenha escolhido dentro das opções já confirmadas a banda que julgasse ser a mais apta a substituir o rapper para ser elevada ao status de headliner.

Acima de tudo, é também importante ressaltar que o festival não gira apenas em torno de números. Em 2016, o grupo indie LCD Soundsystem foi um dos escolhidos para encabeçar o evento — apesar de também não possuir a mesma magnitude de Calvin Harris e do Guns N’ Roses, que foram os headliners dos dois outros dias do festival.

Já em 2004, o próprio Calvin Harris deu vez ao Arcade Fire, que também foi escolhido para fechar uma das noites embora nunca tivesse feito o mesmo sucesso que o DJ fez com suas dezenas de hits emplacados na Billboard.

Seja por sorte ou merecimento, o Tame Impala acaba de fazer história se tornando um dos mais jovens grupos de Rock a conquistar um dos maiores palcos da música mundial — ainda por cima, em uma época onde a relevância e o futuro do gênero vêm sendo frequentemente questionados pelo público e pela crítica.

Em geral, 2019 marcará o lineup mais “jovem” da história do festival. Todos os headliners conquistaram seu sucesso ao longo dos últimos dez anos e, muito provavelmente, ainda não alcançaram o seu pico artístico e comercial. As “linhas pequenas” do pôster oficial também não são muito diferentes: Janelle Monáe, The 1975, J Balvin, Kid Cudi, Billie Eilish, Khalid, CHVRCHES e muitos outros se aliam a poucos veteranos — Weezer, Solange, Diplo — em mais um line-up eclético e que dividiu opiniões entre os fãs.

Ao que tudo indica, essa será a tendência para os próximos anos. O Glastonbury, por exemplo, já confirmou que um dos headliners de sua próxima edição será Stormzy, um jovem rapper da cena britânica que lançou apenas um (!) álbum de estúdio até o momento, mas que move multidões no Reino Unido.

A indústria da música sempre viveu em constante mudança. Enquanto a última década foi marcada pelas centenas de bandas de indie rock emplacando sucessos nas paradas, essa década está sendo dominada pelo hip-hop, R&B e a música pop. Ninguém é obrigado a gostar do que faz sucesso atualmente, mas existem milhares de bandas menores por aí fazendo sons tão interessantes quanto as bandas do passado. Reclamações sempre existiram e sempre vão existir, mas é importante não viver apenas do passado e receber esses novos artistas de braços abertos.